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domingo, 13 de julho de 2014

O asfalto no beijo.


Ser homem ou ser humano


“Arandir (numa alucinação) – Dália, faz o seguinte. Olha o seguinte: diz à Selminha.
(violento) Diz que, em toda minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto. Pela
primeira vez. Dália, escuta! Pela primeira vez, na vida! Por um momento, eu me senti bom!’




Em 1960, Nelson Rodrigues publicou “O Beijo no Asfalto”. Nessa obra, um homem morre atropelado por um ônibus e em seu leito de morte pede ao outro homem que se projetou para ajuda-lo um beijo na boca. O homem o faz. O homem beija o homem na boca. E a partir daí o homem é caçado, esquartejado socialmente, destroçado em sua sensibilidade, expostas tripas podres e vergonhosas. Um beijo no asfalto, tão sujo como o solo, tão sujo como o sangue, aquelas bocas delicadas se tocando, os bigodes espetando o rosto com barba por fazer, a boca do agonizante já com gosto de seu sangue, fazendo do beijo um evento maior que o beijo. Havia asfalto no beijo. Câmeras, imprensa, sensacionalismo, delegacia, três tiros. Não é o melhor futuro que espera nosso herói, o homem que ousou beijar o moribundo. O motivo? Nenhum. Atender um pedido. Atender um último pedido. Natural, assim. Assim como é natural morrer por um beijo proibido. O homem beija por sensibilidade, delicadeza que aflora. Beija por sentir necessário o beijo no cadáver pedinte. O asfalto também é beijado, é onde o corpo do homem atinge. O fundo do poço. Jamais questiona a si mesmo: o beijo no asfalto foi o mais próximo a ser bom.

Nelson Rodrigues nos entrega uma história que surpreende em sua simplicidade e audácia, em sua super-humanidade, em sua agressiva corrupção. O "Anjo Pornográfico" não usa de sua "pornografia" aqui, ele abre espaço pro amor e pras leituras sociais do mesmo. Nelson Rodrigues nos atropela e nos beija, enfim, agonizantes. Falas rápidas, entrecortadas, como falas de verdade são. É uma peça, oras, a mímese perfeita da fala humana, Aristóteles totalmente orgulhoso ou se suicidando eternamente no céu ou inferno que se encontra (talvez inferno, por ter dado beijos em homens com ou sem asfalto). Os temas abrangem caminhos enormes e reflexões ainda maiores. Me movimentou até aqui, nessa ínfima gota de meu suor, e me movimenta ainda mais. Porque em mim houve um mergulho, me senti o homem que beija o morto, me entendi assim. E entendi a bondade que o personagem Arandir sentiu, e entendi a grandiosidade de um beijo no asfalto. Senti, enfim, a dor da incompreensão e das jaulas fálicas de um mundo mentalmente castrado e domesticado erroneamente. 


Imagine você, o ápice da bondade humana: doar seu beijo ao homem que pede em seu único momento. Doar, ao homem moribundo, o filete de alegria e prazer para suportar a dor. Ou talvez uma certeza, Um carinho. Uma réstia de amor. Mas não é disso que se trata. Não podemos ser bons assim. O homem bota peso nas costas do próprio homem. E ele tem sempre que ser apto para carregar, qualquer deslize, qualquer piscadela, é o fim como um beijo no asfalto. A eterna existência dos homens são homens que agonizam no chão e outros homens que negam o beijo derradeiro, ou os raros que realmente os beijam e que são julgados e mortos, enfim, banidos do império dos machos. É a voz sentimental calada, é a veia poética esturricada pela falta de alimento. Boca é pra chupar. Pra falar palavrão. Pra morder lábio de fêmea e teta. Poesia não transcorre dessa boca, não de boca que não sorve poesia, o asfalto seca, veias abertas do solo gritante, sem beijos, sem piedade. Raro ver homem se abrindo pra homem. Raro ver choro de homem, lágrima na barba, lágrima na masculinidade. A única coisa que chora é a cabeça do meu pau, ouço. Sim.




Duvido de minha posição de homem. Figura masculina tive em momentos diferentes e não dei atenção a elas. O futebol nunca fez parte do meu vocabulário ou vontade. Tampouco brigar. Tampouco pegar mulher como se pega o lixo que estourou no chão. Mijar envolta de si e do que é seu nunca me foi algo a passar pela cabeça, marcar território como bom macho alfa. Ser másculo, ser duro e inflexível. Em mim sempre brotou a poesia, a música, a sensibilidade, a observação. Homem age, eu olho. Homem é bem sucedido, eu falho em tanto. Duvido, se é isso ser homem, do que sou. Viadagem, devem pensar. Pensem.

Se isso for homem, essa virilidade azeda e falsa, essa selvajaria acéfala e repetitiva, essa brutalidade calosa e enrugada. Se é isso ser másculo, o soco sempre pronto e certeiro entre os dedos, os dentes presos com xingamentos e putaria, os paus sempre muito duros e enormes, briga de falos, potências sobre potências. Se é isso não sou isso. Sou o resto disso. O resto do que ser homem é. Sou o intermédio, sou sem remédio, enfim. O homem me refuta de seu clube. Tem que ser mais homem, rapaz.

Sinto pena das vendas nos olhos que choram por dentro, dos músculos estourando que tampam o cérebro, do sorriso desesperado pro espelho acreditar. Esse clube de machos com paus em riste, proibido menor de vinte centímetros pra entrar. Sinto pena da prisão que o homem se encarcera pra provar ser homem pra si mesmo. Porque os outros nem estão ligando. Ele precisa da aprovação dele, apenas. O homem não produz lágrimas ou sentimentos. O homem não se abre para amigos, nem amigos muito íntimos ele tem. O homem de verdade só pode prosperar, não existe falência, não existe inércia, você é um homem ou um rato? Seja homem, levanta. Seja homem, não humano.


É muita coisa em cima do homem e aquele que não conseguiu evoluir músculos para carregar o fardo que a si mesmo impõe, aqui não vive. A tacha de suicídios entre homens é a maior, os homens são insatisfeitos consigo mesmos, como? Talvez o desenho que esperam de si não é o que consigam. Talvez a criação de ser homem seja transcendente demais, seja um ser perfeito demais para nós alcançarmos, o homem é um mito. Porque às vezes não se consegue ser homem e falhamos sendo humanos, acontece bastante. E vem o julgamento do outro, e vem a difamação interna e externa, e vem os questionamentos que todo um percalço de autocriação traz.  O homem é fruto do homem.  O homem é o homem do homem (Plauto e Hobbes que me perdoem). O homem é sua própria vítima. O homem é tão homem que às vezes se cansa. E à noite, no escuro atrás de nossas pálpebras, o homem se deixa atropelar e pede, dolente e ensanguentado, o beijo a outro homem.

   Leia mais sobre o assunto: https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/pelo-direito-de-broxar-falir-e-ser-sensivel-campanha-pede-que-homens-libertem-se-do-machismo/

 Ou só veja o vídeo:



No final não falei da obra do Nelson Rodrigues. 
E falei.


Assistam o filme de  1981.

O Beijo no Asfalto - Nelson Rodrigues 




terça-feira, 13 de maio de 2014

Memento Mori e reflexões sobre a morte

Memento Mori - Lembra-te de que és mortal;



O que é a morte? Por que morremos? Por que tememos tanto morrer? São perguntas sem resposta, mas que são também inevitáveis. Em Memento Mori, um documentário genuinamente horaciano, essas e outras questões serão exploradas. Dessa vez não tem resenha, a proposta é outra: a reflexão sobre a finitude. Divirtam-se!







A morte é o real contraditório que nos força a enxergar a vida (o caminho em aberto que temos pela frente) com a avidez e vontade de quem tem pouco tempo para percorrê-lo. A morte torna nossa vida imaginada e, com isso, cria nossos sonhos e utopias. Temos pouco tempo.





Certa madrugada me veio:

"A vida é o universo pulsante


A morte é parte da vida, não é exterior a ela e muito menos é seu oposto. -> a morte deriva da vida ou é parte inerente dela?

A manifestação quanto à vida é possível? Pois a manifestação em si já é vida.

O universo pulsante não existe, a vida sim. A vida é o universo pulsante e a relação não é recíproca. Isto por que a vida é e sempre será prioritária em qualquer relação. Ex: A vida é um bocejo. A vida é uma árvore. A vida é uma estrela. Qualquer coisa que represente algo será vida, exceto se estiver isolada ao ponto de não se relacionar com absolutamente nada, nem ela mesma. Neste caso será Deus. A vida, como prioritária ao complexo sistema de relações se coloca acima de todas as coisas. A vida é, portanto Deus. No entanto, a vida não pode ser uma entidade, visto que por mais que prioritária, não pode representar a si mesma, ou seja, se enclausurar, se embarreirar, para começar porque as barreiras fariam parte da própria vida e, depois, pois sua extensão é tal que conceber seu fim é dar-lhe sobrevida. Entender algo fora da vida, isto é, do prioritário ao universo pulsante é simplesmente contraditório com a própria noção de prioridade sobre tudo. Não há externalidades e, portanto, não há entidade. A vida é, então, Deus em sua não-forma solta, inisolável (sim, estamos criando neologismos aqui, ou seja dando vida às palavras, ainda mais além, dando prioridade de existência a elas), mas irrelacionável pois não há com o que se relacionar.

Ok... resta a questão da morte enquanto parte constituinte da noção solta de vida ou derivada dela. Não se pode conceber a morte como "tudo que é externo à vida", para começar pelo simples fato de entendermos a morte, e, além disso, pela evidência óbvia do imenso - IMENSO - impacto que a morte tem sobre a vida. Se apenas considerarmos nós, seres humanos isolados conceitualmente para fins "metodológicos", acho que isso fica muito mais que claro. Não é concebível, portanto, que a morte se abstraia da vida. É, no entanto, parte constituinte fundamental da experiência de vida - tudo morre, cedo ou tarde, de animais e plantas, a estrelas e, provavelmente, átomos e as partículas mais elementares da constituição da realidade. É desta experiência de vida que decorre nossa morte, isto é, morremos porque vivemos ou morremos apesar de vivermos, sendo a morte uma face da vida? Talvez ambas as opções estejam erradas, posto que a vida não permite a ausência e a morte seja parte da experiência de viver (se constituinte ou decorrente dela, já não importa) e a morte não exista, portanto, enquanto ausência, concluo que a vida só pode ser absoluta e a morte efetiva - enquanto destituição de vida  (ou seja, perde sua capacidade de influenciar, perde sua relevância, sua característica a priori enquanto algo existente) - não pode existir, já que a vida é e será sempre relevante.

De uma forma mais resumida, posso falar, mais especificamente, que nenhum ser (e encaro ser aqui como qualquer coisa dentro do universo pulsante, qualquer coisa que tenha vida a priori, que seria "tudo", na verdade) deixa ter relevância em momento algum.

Sua presença enquanto vivo é o suficiente para deixar uma marca efetiva nos fluxos que subjazem a vida."

Meses depois, uma conclusão: Se a morte é a perda do estado de consciência, ela é altamente egoísta e individualista; nada morre porque nada jamais deixa de existir (ou de ter existido [ou de vir a existir]).



Morro? Pois então, vivo!

domingo, 27 de abril de 2014

Vivendo ao vento

"Le vent se lève
Il faut tenter de vivre"

Em tradução livre de quem apenas começou seus estudos no francês:

O vento sobe
Deve-se tentar viver.

Os versos de Paul Valery são a coluna dorsal e o cordão umbilical de Vidas ao Vento (Kaze Tachinu, no original), última animação de Hayao Miyazaki. Ao mesmo tempo em que dão delicada estrutura à elaborada narrativa, também conectam a uterina animação do diretor japonês à realidade, ao público e, principalmente, à si, estabelecendo uma forte ligação autor-obra.





Le vent se lève


Diferente de todos os seus filmes anteriores, Vidas ao Vento não possui quase nada de mágico ou sobrenatural. Miyazaki, conhecido por seus monstros mitológicos, seus universos impressionantes e maravilhosos, seu dom natural para lidar com o sobrenatural, opta por retratar a vida real de um personagem real, tornando Vidas ao Vento sua primeira e única cinebiografia, apesar de bem ficcionalizada, é verdade. As partes mágicas se concentram nos sonhos do personagem, que nos lembram a incrível capacidade criativa do diretor, ao mesmo tempo em que nos coloca uma firme clivagem em relação às suas outras obras: se nelas a magia e o incrível eram comuns e difusas no "mundo real" em que seus personagens se encontram, agora, em Vidas ao Vento, eles pertencem ao mundo dos sonhos. Mas isso não despe o filme e o mundo nele retratado - o "nosso" mundo - de encanto. Pelos olhos e mãos de Miyazaki, o cotidiano e o mundano ganham delineações maravilhosas e cativantes. A crueza da dor e da tristeza das tragédias, nunca escondidas em seus filmes, é pronunciadamente bela. Os sonhos e conquistas, distintamente doces.


O diretor conta a história do designer de aviões Jiro Horikoshi, que projetou o Mitsubishi A6M Zero durante a Segunda Guerra Mundial. O modelo foi considerado um marco na história da aviação por seu design avançado e de grande eficiência. A história de Jiro, no entanto, se funde com um Miyazaki também, em parte, ficcionalizado. De fato, penso que talvez não seja possível compreender todo o significado do filme sem conhecer um pouco da história do diretor.


Hoje com setenta e três anos, Hayao Miyazaki nasceu em uma época em que, há não muito tempo, o ser humano havia descoberto a possibilidade de voar. Ele pertence a uma geração que provou em primeira mão as maravilhas e os encantamentos da aviação incipiente. Imagine o leitor o assombro ao ver um avião pela primeira vez, o quão incrível não deveria ser aquilo que hoje é tão natural para nós? O quão fascinante? Somando-se a isso, seu pai era dono da fábrica de peças de aviões Miyazaki Airplane, o que o aproximou ainda mais das asas. Sua paixão por aviões está evidenciada ao longo de sua filmografia, onde há grande recorrência à aviação e à paixão de seus personagens por voar. Voltando rapidamente ao tema do filme, a fábrica de seu pai fez peças para o Mitsubishi A6M Zero, projetado por Jiro Horikoshi, o que já estabelece um contato inicial entre autor e personagem e dá ao filme outro significado.


Percebe-se logo que Jiro é Miyazaki e Miyazaki é Jiro. Isso fica mais evidente quando temos em mente que o diretor controla todos os passos da produção de seus filmes, muito embora tenha uma equipe que o auxilie. Assim, ainda utilizando-se bastante da animação à mão, Miyazaki fiscaliza frame por frame para ter certeza que seu filme atinja seu padrão de qualidade. Isso e o fato de seus filmes e seu Studio Ghibli terem feito sucesso em seus próprios termos e não em outros, ditados pela indústria cultural, permitem ao diretor controle absoluto de suas criações. De fato, não é apenas Jiro Horikoshi que é Hayao Miyazaki, mas cada aspecto do filme, cada cena, cada diálogo, cada detalhe, cada soprar de vento.

O vento, aliás, localizado na centralidade do filme, é a força motora que faz o enredo caminhar. É o vento que leva e carrega e é trazido pelos aviões. É o vento que, participante ativo, proporciona os principais eventos na vida do personagem. Repetindo: o vento é a força motriz que carrega o enredo, mas não só. É também o que dá força aos personagens, sobretudo à Jiro.


O vento que sobe é o sopro na alma.


Il faut tenter de vivre

Tendo nascido durante a Segunda Guerra Mundial, Hayao Miyazaki, mesmo muito novo, experimentou os terrores da guerra quando sua cidade foi alvo de bombardeio, o que acabou destruindo-a em um incêndio. Tinha quatro anos então, mas jamais esqueceu o crepitar e o alaranjado do fogo no céu escuro. Talvez por isso tenha adotado uma filosofia humanista e pacifista de forma tão firme, coisa que se reflete constantemente em seus filmes. Vidas ao Vento dialoga com isso. De fato, ao escolher um personagem histórico como protagonista, personagem este que fabricava aviões para um Japão em guerra, Miyazaki fez uma escolha provavelmente proposital, não apenas para homenagear aquele personagem, mas também para discutir os aspectos morais de se construir aviões como armas de guerra, mas, ao mesmo tempo, ser contra a guerra. Lembrando que o próprio Jiro Horikoshi, o histórico, era contra o envolvimento do Japão na Segunda Guerra Mundial. Em uma de suas anotações, Jiro escreve sobre a guerra:


"O Japão está sendo destruído. Não posso fazer outra coisa senão culpar a hierarquia militar e os políticos cegos por arrastar o Japão para este caldeirão infernal de derrota"


Como em outros filmes, Miyazaki entra numa área cinza da moral. Sabendo que se faz armas de guerra, é certo continuar desenhando e fabricando aviões e, mais ainda, projetando inovações que melhorem sua eficiência? A mim, Jiro responde, secretamente: Meu maior sonho é fazer aviões. Foi com isso que sonhei quando criança e era isso que respondia quando me perguntavam o que seria quando crescer. Não achava que aviões servissem como armas, pelo contrário, sonhava com grandes aviões que transportassem centenas de pessoas pelo mundo. Aviões são lindos, sussurrava, para quem quisesse ouvir, são os homens que fazem deles armas de guerra, mas isso não significa que não devamos construí-los. Aviões são sonhos que eu tenho a oportunidade de tornar realidade!

Jiro sabia das consequências de suas criações: "nenhum deles voltou", diz, ao final, melancólico e exausto, sobre seu Zero, sua obra prima, mas sabia também que deve-se tentar viver, da melhor forma possível.

Em seus sonhos, Jiro dialoga com um dos pioneiros da aviação, Giovanni Caproni, que lhe questiona, ao ser confrontado com o mesmo dilema moral: "você prefere um mundo com ou sem pirâmides?", quer dizer, as coisas grandiosas, que são feitas a custo de sangue e suor, merecem ser feitas?

É uma questão polêmica e, quer concorde com ela ou não, é uma discussão que o diretor está propondo. Em Vidas ao Vento, não há espaço para o maniqueísmo: as coisas são como são e os julgamentos de valor são de cunho pessoal e subjetivo, não inerentes à realidade. Em certo momento do filme, Miyazaki (que, aliás, tem diploma em Ciência Política e Economia) destaca a enorme desigualdade social no Japão da época, que investia fortunas para fazer aviões de guerra enquanto seu povo passava fome. As coisas são como são e a vida, muitas vezes, é uma triste realidade, violenta em muitos sentidos... Mas, como sempre, deve-se tentar viver.

Vivendo


O fato é que o último filme de Miyazaki, e eu digo último não apenas por ser o mais recente, mas também pelo diretor ter anunciado a aposentadoria após seu lançamento, nos transporta diretamente para o Japão da primeira metade do século XX: aquele país agrário, atrasado tecnologicamente, que viria a se tornar um importantíssimo pólo tecnológico mundial. Vemos os costumes mudando: as ideias e hábitos ocidentais se infiltrando na cultura tradicional japonesa, a carne tomando lugar do peixe, o café substituindo o chá... um retrato muito vivo de uma época passada. E, acima de qualquer coisa, com personagens muito vivos, com emoções e desejos e falhas muito, muito humanas.
Vidas ao Vento, com sua belíssima animação, de movimentos fluidos (sobretudo os movimentos do vento, maravilhosamente trabalhados) e estonteantes paisagens, nos carrega em seu voo pela vida de Jiro Horikoshi e pela alma de Hayao Miyazaki e nos presenteia com um tocante presente de despedida do diretor: uma verdadeira ode à vida.










quarta-feira, 5 de março de 2014

Orson Welles e a verdade

Quando Orson Welles explica, logo no início de F for Fake, que é um filme sobre mentira, talvez ele estivesse subestimando a potência da película ou, talvez, o mais provável, fosse apenas para não confundir o espectador, poupá-lo por um momento ao menos, para mantê-lo no cinema ou de frente à televisão por tempo suficiente para dar-lhe os sutis tapas de luva de pelica e, então, os socos no estômago. Não, o documentário-narrativa de Orson Welles não é sobre mentira, é sobre algo infinitamente mais complexo que isso; é sobre a verdade - e tudo o que ela traz consigo.



"Quase toda história é um tipo de mentira"

Comecemos pelas bases. Nosso entendimento do que é mundo, e, talvez mais importante, do que não o é, deriva da nossa noção de realidade. A realidade é constituída, assim, pelas coisas que são (as verdades) e as coisas que não são (as mentiras). Uma mentira, é claro, não poderia nunca ser parte constituinte da realidade pois ela não passa de um disparate, uma fábula, uma coisa qualquer que não é e nem nunca foi; uma criação. Será mesmo? O filme de Orson Welles parece insinuar coisa diferente. De fato, o filme não só nos diz, como nos prova que a realidade pouco ou nada tem a ver com a "verdade" - essa coisa que, ora, sejamos sinceros, quem realmente conhece? Não, leitor, a realidade é realmente uma fina - muito fina - manta de interpretações subjetivas. Estas, por sinal, jamais serão enquadradas em conceitos maniqueístas e simplórios como "verdade" ou "mentira".
Decompondo o pensamento: realidade é manta porquê é formada coletivamente, por fios e fios - como estes fios são direcionados, que padrões eles formarão, tudo isso veremos depois - que se entrelaçam dando uma sensação de certa uniformidade no entender das coisas, de um mesmo padrão de referência - para aqueles que formam a manta, ao menos. E é fina por sua fragilidade absoluta, por seu enlace ser de tal forma frouxo que o pequeno puxar de cordas pode resultar em total desmoronamento da maioria se não de todos os padrões formados. Não acreditamos em verdades, leitor, nem as seguimos por que elas são incontestáveis. Nada existe de incontestável nesse mundo. Acreditamos em qualquer coisa que nos digam e que nos faça sentido e que nos dê a base de sanidade suficiente para vivermos em coletividade. A realidade é, afinal, um bem (que pode tanto ser mal) comum à humanidade... Talvez menos... Mas certamente comum à comunidades e nacionalidades, e por aí viajamos. Estou tentando dizer que a realidade é algo que se constrói coletivamente com certezas coletivas e, para isso, cada manta, cada período sócio-histórico haverá de ter seus dispositivos de coesão, a fim de manter os fios frouxos o mais presos possíveis - e aí o leitor dê seu entendimento de "preso" como quiser.
Desde que viramos modernos, desde que olhamos o mundo positivamente (sim, estamos falando de Comte), desde que passamos a viver no cientificismo absoluto, donde todas as "verdades" (olha ela aí de novo) têm de ter o aval científico... Ou seja, mais ou menos desde o século XVIII/XIX, um dos mais importantes mecanismos de validação da realidade (das nossas certezas coletivas) é o "expert", o especialista. Se teria começado nos campos científicos propriamente ditos, desde a Física às Ciências Sociais, não tardaria a invadir outros campos de conhecimento. Afinal, o século XIX é o período em que Deus morre e Rimbaud foge da Europa. Tantos experts avaliando poesias, romances e quadros. Os experts que condenariam os pintores impressionistas e, bem mais tarde, no Brasil, os jovens da Semana de 22. Na era da Ciência, o encantamento está proibido e as "verdades" são mecânicas.
Mas chega disto... deixemos claro que os especialistas são um mecanismo de legitimação de discurso, são aqueles que dão a palavra final. São eles "instrumentos da verdade" e, tal como uma afirmação científica precisa de base e provas, os especialistas as provêm, tornando seu veredito tão imparcial e certeiro quanto a lei da gravidade (e, quem sabe, talvez seja). Como somos tolos... como somos ingênuos... No início do filme, Orson Welles nos diz "Quase toda história é um tipo de mentira". Deixe-me modificar a frase ligeiramente, sem retirar-lhe a essência: Quase toda a realidade é, de certa forma, imaginada.

A sociedade de consumo; O mercado; A demanda; A "Arte"

É claro que os experts não são as únicas variáveis que formam as certezas e verdades do nosso tempo. Desde o advento do capitalismo, de mãos dadas, aliás, com o pensamento racional (de razão instrumental, de lógica de lucratividade) que cresce com o protestantismo burguês e, então, dá origem a um cientificismo patricida (visto que mata Deus), cresce a lógica de mercado. A razão filosófica é, em certa medida, substituída por uma razão instrumental, que visa, antes de mais nada, maximizar os lucros e minimizar as despesas. A propriedade privada cresce cada vez mais em relevância e é claro que isto influenciaria pesadamente o mundo artístico. De repente a arte passa de uma encomenda ou uma obra previamente combinada (um retrato ou uma representação bíblica, por exemplo) para ser um produto a se expôr em galerias, negociado e barganhado. De repente era preciso agradar a esse novo ser abstrato mas que soa tão real (tão "verdadeiro") a tantos: o mercado. Refém de vontades e ideais estéticos alheios, o artista fazia o que podia para sobreviver. Se houve aqueles que conseguiram, mesmo contra críticos e especialistas, se consagrar, houve aqueles que cederam às vontades do tal mercado. É claro, precisamos todos nos alimentar. Mas o que esse mercado queria? Quais eram seus valores estéticos? Isto é fácil de responder, leitor. "Há" algo que se chama Arte, com "A" maiúsculo. Sobre isso, o historiador da arte, E. H. Gombrich nos diz

"Uma coisa que realmente não existe é aquilo a que se dá o nome de Arte. (...) Na verdade, Arte com A maiúsculo passou a ser algo de um bicho-papão e de um fetiche. Podemos esmagar um artista dizendo-lhe que o que ele acaba de fazer não é 'Arte'".

"Arte" é, na verdade e principalmente, os valores estéticos hegemônicos. A Arte é produto e ferramenta do discurso da verdade. Ao mesmo tempo em que decorre dele, isto é, decorre do que dizem os especialistas, é também ela própria discurso (pois é comunicativa e exemplificadora). Ora, a ironia ignorante a que se submetem todos os defensores da Arte verdadeira é o fato de que a mesma foi tantas vezes coisas diferentes quanto foi aquilo a que ela mesma se opunha. Exemplo fácil disso foi o movimento impressionista, que se não foi considerado Arte em sua época, hoje é coisa finíssima da mais rara qualidade. Ah, raridade! Chegaremos lá! Imagine você, leitor, sendo artista e tendo que lutar contra o fetichismo "Artístico", contra o mercado, contra o dinheiro com o qual se alimenta e se obtém teto.
E, se os alvos do fetichismo mudaram, ele continua vivo e, talvez mais forte ainda, na primeira metade do século XX. Chegamos onde começam as histórias de nosso filme (sim, ficamos tempo demais sem tocar no filme! Iremos já para ele).
Se a arte há não muito tempo histórico passa a ter valor de propriedade privada, imagine como funciona com a Arte, sendo fetiche, na sociedade de consumo já consolidada do século XX, onde a máxima da oferta/demanda reina... Ora, se a oferta de Arte é parca (considerando a óbvia raridade de quadros originais), e se as demandas partem dos setores mais ricos da sociedade, não é de se admirar que o preço de tantos quadros atinjam seis números. Mas o que leva alguém a pagar tanto por uma tela? Se antes ter arte e, mais ainda, Arte, já era sinal de poder aquisitivo, em nossa sociedade de consumo, a Arte enquanto fetiche altamente procurado e pouco ofertado se torna um poderoso objeto de poder. Ter um Manet ou um Rafael ou um Van Gogh original é símbolo de imenso poder, é como um troféu a ser pendurado na sala de estar.
Com a Arte em tão alta estima, quem estaria interessado nos novos artistas que estão surgindo, podendo ter um Modigliani? E que outra escolha teria o artista talentoso passando fome, se suas telas não vendem, além de fazer... Arte?

Falsários; Os fios soltos; Enfim, o filme

Welles nos diz que seu filme trata de mentira... talvez, mais apropriadamente, de mentirosos, falsários, "fakers", em termo estrito e abrangente... É claro, isso não exclui ninguém (exceto, talvez, seu co-produtor, Richard Drewis) da categoria, mas centra-se na história de alguns personagens seletos. E nos responde sem termos de perguntar: mas, afinal, o que forma um falsário?
Tanto Elmyr de Hory, quanto Clifford Irving e o próprio Orson Welles tiveram trajetórias de certa forma parecidas. Estes são três dos personagens explorados na película. Tanto Elmyr quanto Welles começaram sua carreira artística como pintores. Fracassados. Famintos. De repente alguém vê um Matisse ou um Modigliani pintado por Elmyr e pede para comprar. Ora, que mal teria? Elmyr precisa comer! Vende. E, então, vende mais. E mais. E percebe que, se assim é o único jeito de sobreviver fazendo arte, que assim o faria. Tinha talento, sabia disso, poderia passear entre Picassos, Monets e o que mais viesse. Tinha talento e nunca poderiam dizer que o que fazia não era arte! Não é verdade? Não, é claro que não! Se descobrissem que sua Arte não é Arte, mas uma falsificação, perderia todo o seu valor. Mas chegaremos a isso. Falemos de Welles. Ele que, diferente de Elmyr, descambou para a mentira dos palcos. Disse ser um famoso artista americano e, ironicamente, se tornou um. Quase uma profecia que se auto-cumpre. Com Clifford Irving não foi tão diferente. Escritor de ficção mal-sucedido, viu na necessidade a urgência de fazer outra coisa. E passou a escrever biografias, até seu magnum opus: a biografia do magnata Howard Hughes que, para sua (in)felicidade, foi descoberta como falsa. Veja, leitor, estamos falando de três artistas de campos distintos (mas nem tanto) da arte que, em meio à necessidade, reconheceram o que procurava o mercado, e fizeram, cada um ao seu modo, Arte. Mas ainda mergulharemos nisso.

O fato é, leitor, que nossos falsários, cada qual de um jeito, abalaram as bases frágeis da realidade. Talvez o que mais exemplifique isso seja o caso de Orson Welles.
Em seu tempo na rádio americana CBS, Welles fez uma representação da Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, causando uma histeria coletiva jamais vista. Talvez sem saber, Welles utilizou as ferramentas e dispositivos de legitimação da verdade: o rádio, meio consagrado de comunicação em massa e, quiçá, visto como imparcial; a palavra de falsos "experts", que afirmavam, por exemplo, que os invasores se tratavam de marcianos. Construiu assim, verdades que contrariavam as verdades estabelecidas. Construiu, palavra por palavra, imagem por imagem, fio por fio, uma nova realidade, e isso era aterrador. A histeria foi generalizada. Aparentemente, uma mulher afirmou ter sido atacada por marcianos: "Foi horrível", disse. E quem poderia duvidar? Por alguns momentos, marcianos de fato atacavam a Terra.


Orson Welles puxou o fio... e aquela fina manta se desfez completamente. Ninguém pensaria que seria tão fácil.

Ah, a autoridade. É infalível, pensamos, a palavra daqueles que detém a verdade. Elmyr de Hory e seu biógrafo Clifford Irving mostraram de forma concreta o quanto isso é, com o perdão da palavra, mentira. Das grandes frases ditas no filme, uma se encaixa muito bem no nosso próximo segmento. Coloquemos como subtítulo, sim?

"A questão não é se é falso, mas se é uma falsificação boa ou ruim"

Lembrando a situação da Arte, como fetiche, troféu e objeto de poder (serão sinônimos?) em nossa sociedade, existem pelo menos dois elementos que dão a autenticidade para que a arte seja Arte, e estes são os museus, isto é, as "instituições da verdade", onde podemos conferir "o que presta" e está incluído na estética hegemônica. E os já mencionados especialistas, que servirão de mediadores entre a arte e a Arte pendurada em museus e coleções particulares. Em termos de mercado e valor, e buscando referência no filme, existe uma equação simples que podemos usar.

"O valor da obra depende de opinião. A opinião vem dos experts."

Parafraseando Elmyr de Hory, eles são aqueles que dizem se uma coisa é boa ou ruim. A confiança na palavra dos especialistas é tanto que um simples acenar com a cabeça pode fazer um quadro valer milhões - ou reduzi-lo a nada. São eles extremamente importantes no discurso fetichista Artístico, sua palavra tem quase tanto poder quanto o objeto em si, senão mais, já que ela pode colocar o próprio objeto em dúvida. Essa confiança na infalibilidade do expert será abalada, senão destruída com Elmyr e, depois, com Irving.
Ora, foram as falsificações de quadros por Elmyr submetidas a avaliação de especialistas e autenticadas como originais, assim como as assinaturas presentes nos documentos da biografia confessamente falsa feita por Irving.
Mas, então, Welles nos incita, se aqueles que se dizem portadores da verdade, aqueles que têm o poder de declarar uma coisa como autêntica ou não, aqueles que dizem o que é Arte... se eles erram... Se eles mesmos não dão conta de fazer um julgamento definitivo... Então quem é o farsante? Quem pinta o quadro ou quem mente ao dizer que diz a verdade? E, novamente, quem é o especialista?
Elmyr e Clifford Irving puxam o fio de tal maneira que só se percebe que a manta desabara quando já é tarde demais. Ambos entenderam o intricado enlaçamento de fios e o arremataram bem na estrutura, bem onde os discursos se verificam e se tornam verdade. Foi um golpe devastador na prepotência dos experts e dos conhecedores e em seu sistema fantasmático. E de repente, perguntas surgem para o espectador confuso: "mas então... se não possui valor intrínseco, se pode ser forjada e confundida, se pode ser imitada e reproduzida, o que é Arte? Será que ela sequer existe?"

Estigma

É claro que no mundo real as coisas não funcionam assim. É mais fácil reconhecer nossos falsários como falsários do que como artistas e abandonar todo um sistema de valores sobre o qual uma certa realidade é erguida. Carregam, então, o estigma de falsificadores, de golpistas, de mentirosos. A ironia da situação é, como nos elucida Welles, o fato de Irving ter escrito a biografia de Elmyr, sendo, então e talvez, falsa a... falsidade (?) do pintor. Certamente, ao nos deixarmos levar por estigmas e mentiras e verdades, acabamos em um cheque-mate. Vamos nos ater aos fatos tal como nos foram contados pelo filme. Se Irving lucrou com suas biografias, falsas ou não (é questionado se Howard Hughes, o da biografia forjada, realmente existiu ou se, ao menos, estava vivo na época em que desmente sua biografia), é certo que o lucro de Elmyr mal se compara ao lucro que obtiveram os negociantes de arte em cima de suas falsificações (sequer a casa onde morava era sua propriedade). É certo que suas falsificações não eram cópias dos originais, mas imitações de um estilo, o que por si só já demonstra seu talento, sua capacidade de passear por estilos diferentes. É certo também que seu estilo de vida como falsificador veio em decorrência de uma demanda de mercado e de uma necessidade de sobrevivência; que tentou sem sucesso vender seus próprios trabalhos. Elmyr foi mão-de-obra da indústria da arte, foi renegado e explorado e, após sua morte, suas obras passaram a ter valor enorme, o que apenas demonstra a cretinice e a hipocrisia da mesma indústria, o quão vil e carniceiro é o fetiche da Arte. Eis que o ciclo se forma, falsificadores mais novos passam a falsificar o falecido falsificador.

Novamente, a realidade

Pro final do filme, Orson Welles anuncia: "Pelos últimos 17 minutos, eu estive mentindo freneticamente" (perdoe pela péssima tradução, mas é o que temos). É o soco no estômago do telespectador, depois de tantos outros. Atônito, ele se pergunta: até que ponto foram as mentiras? O quanto do que acabara de ver realmente era "verdade"? O filme de Welles, classificado como documentário, vai contra diversas formas estéticas padrões de um documentário. Ele tem narrativa intensa, personagens expressivos para além das "testemunhas documentais", construções de sequências, usando pesadamente a edição e outros truques e mágicas do cinema e, o que é pior, ele mente! Sua metalinguagem fica ainda mais evidentemente pronunciada com a declaração: "Eu menti!", terrível num documentário.
E então o espectador sorri. É claro que mentiu, e porque não o faria? A realidade é construída através de discursos, de verdades que compramos, que aceitamos como... verdadeiras. Como alguém que evidencia isso poderia sequer tentar apresentar um quadro de verdades isentas e imparciais, como nos tentam fazer os documentários, como fazem os discursos hegemônicos? Estamos diante daquela fina manta e Welles insiste para que puxemos o fio. O filme todo é um discurso, o que não o torna menos real que nada, pelo contrário. Sua honestidade em assumir-se como o que é, é, para mim, louvável.

"Talvez não seja tão importante assim"

Morreram os encantamentos e, com eles, a celebração da arte... E a Arte, enquanto fetiche, acompanha o movimento, apoiando-se nos corpos caídos da beleza e do desprendimento para se levantar, vigorosa, com o auxílio do mercado e dos especialistas. Caem as obras, ficam os nomes, ficam os fetiches.
Morremos, diz Welles... E a arte é nosso legado... é o que deixamos para quando não estivermos... e algumas obras durarão mais, outras, menos, mas tão certo quanto a morte, elas também desaparecerão, originais ou falsificadas. Diante deste cenário, que talvez seja a única verdade com que podemos contar sem dúvidas, talvez... talvez um nome não seja tão importante assim...
Recita:

"Nossas canções serão todas silenciadas
Mas e daí?
Siga cantando"

Completo: Teremos tanto assim que podemos rejeitar nossos artistas (e sua arte) em nome de um fetiche, em nome de um emaranhado de fios frouxamente enlaçados, mesmo que por... especialistas?





quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Pilar de José





     Calhou ter o nome assim, Pilar, coisa que única das que não controlaria em vida e que a seguiria pro resto de sua existência, coisa boba um nome. Mas assim fez-se Pilar e o poeta-escritor levou ao pé da letra. Em sua pluralidade mental, em seus caminhos, descaminhos e bagunças organizadas, basificou sua arquitetura torturada em Pilar. É como dizem os livros antigos, aquela história da casa que não para em pé quando feita sobre areia. Pilar é ferro, puro, bruto e brilhante. E sim, literalmente, é o sustento de José. Ouso dizer que sem Pilar, Saramago não existiria ou, ao menos, não resistiria. Num mundo criativo e efervescente de Saramago, num mundo de plurideias, subtramas e intertextos, Pilar é a conexão do gênio com a realidade. O intermeio, o canal entrelugares, no entremeio de existências, telefone sem fio de distantes constelações. Pilar seria os pés no chão, sim, mais uma vez: a base. Daí a importância do nome "José e Pilar", pra lembrar que o um não é um sem o outro, um "um" plural. E percebemos isso na medida em que essa maravilhosa obra de arte avança: um ser é inerente ao outro, extremamente dependente, numa sintonia assustadora de acidez, humor e engajamento. Comecemos, então, pelo nome e depois dane-se a ordem. Do nome posso dizer, além do que já disse, não o acho bom o bastante. É claro que ele passa a existência de Pilar ao lado de José, mas deveria ir além, se fosse possível ir além. Se fosse possível que as duas palavras coexistissem, aí sim seria perfeito, não uma do lado da outra, dando a entender que a primeira seja superior, jamais. O nome deveria ser um híbrido, como eles os são, um ser uno, semi-divino.

     Meus sentimentos com esse documentários resumem-se, espelhados nos infinitos sentidos dessa palavra: amor. Que objeto mais multifacetado é o amor, e é por meio desse espelho quebrado que conhecemos o íntimo de Saramago. O amor une os troncos antigos de seus dedos aos dedos de sua mulher. O amor o faz subir os montes ao lado de Pilar ouvindo suas histórias e rindo. O amor sai da ponta de suas unhas em seu computador a cada ponto final, a cada virgula. O amor o faz brigar, o cansa, o pesa. Há carinho em todos os toques, em todo estalar de língua, em todo pessimismo antigo desse ser superior. E somos atingidos em cheio por esse apaixonante documentário, e somos postos à prova face a esses dois gigantes que aprenderam a ser um só.

     Munido de imagens poderosas, edições fantásticas e roteiro poético, "José e Pilar" nos faz triste, pois cada hora passada com o prazer que o documentário proporciona é uma hora a menos do mesmo prazer e aí ficamos presos nesse paradoxos: porque seres como Saramagos deveriam ser (e sim, são) eternos. Depois que o assisti pela primeira vez senti-me perdido. Tanta coisa pra ruminar, tanto som e fúria, tanto sangue e tutano, tantas frases tão corretas e tão facilmente proferidas pelo frágil gigante português. Terminou-se como sair bailando de um sonho, os olhos recusando-se a abrir já abertos. De tão impossivelmente perfeita a obra e eu, de tão maravilhado, me vi perguntando a mim mesmo: É um documentário? Não é um romance? Veja que pergunta estúpida, leitor, a qual me veio a resposta direta, como a língua da chibata quente nas costas nuas, na voz do próprio José: mas é claro que é um romance. Mas é claro. Cheia de poética, metáforas, intrigas fantásticas, "José e Pilar" é o romance perfeito: uma realidade recheada de surrealismo, de neologismos, de paronomásias e outro termos já muito recauchutados e empregados a torto e a direito. É o romance perfeito, além da perfeição estética, por ser a mais pura amostra da realidade, do amor (aquele ser muito odiado e tantas vezes tomado como invenção) mais inflexível do mundo e, ao mesmo tempo, mais delicado.

     Vemos nas veias das mãos e do pescoço, no branco que toma a íris e os cabelos, nas manchas na pele e nos dentes, a delicadeza quebradiça de Saramago, um deus escravo do tempo. Não o duvido escrever em seus braços a pensar serem papéis antigos, e realmente o fossem: papiro antigo da mais intangível sabedoria. Aos poucos o mestre, cansado pelo peso de si, mesmo sustentado por Pilar, esfarela-se. Vê-se em meio a um oceano de afazeres e a velhice, mão maldosa que o puxa para o afogar-se, revelando sua morte a cada olhar mais profundo pro espelho. O filme conta a batalha interna de Saramago consigo mesmo para conseguir ser mais forte do que o externo e, aí sim, uma batalha externa de Saramago com as intempéries, as viagens, as quedas de braço mentais com sua literatura, os confrontos com os outros. Chega tamanha a estafa que vemos o mestre quase fenecer sob nossos olhos, e não duvido que tenha realmente ido. E que tenha voltado por Pilar. A Pilar que ficava no banco do hospital, no banco do avião, no banco do carro. A Pilar que ficava nos bancos da vida, lutando suas lutas internas, externas e lutando as lutas internas e externas de Saramago, quatro batalhas para um só ser. Chega também a hora em que os dois cansam juntos e são apenas arrastados pelo vendaval criado por eles mesmos. Lembro-me questionado pela minha mãe: Mas essa mulher dele é uma ditadora, ela vai matá-lo, o arrasta pra cá e pra lá, ele não quer fazer nada disso! Eu chamaria isso de amor bruto (tough love), mas acho que é maior que essa expressão já enrugada pelo uso. Pilar vira combustível, quando impossível de José continuar. Quando acaba o combustível, Pilar vira as próprias mãos e a própria força a empurrar José e, também vemos, José vira a mão para puxá-la quando preciso. É uma luta em dupla no mundo antropofágico da literatura contemporânea. E nesses momentos de guerra (trocando uma expressão enrugada por outra) é preciso endurecer, mas sem perder a ternura.

     O amor, como não fugir do amor nesse filme?, chega aos ápices da poesia: metáforas reais, de concreto e sutileza. Há um momento em que Pilar é condecorada (é assim que se fala? não sei se a pessoa é condecorada quando isso acontece ou se é outro termo, mas tudo bem) com uma rua com seu nome. Agora, senhoras e senhores, adivinhem que rua termina/desemboca na rua Pilar del Rio? Sim, a rua José Saramago. Outro fator belíssimo é a presença de Pilar em todos os livros de nosso autor, sendo todos os livros dedicados à sua esposa, como rosas raríssimas e únicas. Pilar permeia o homem Saramago e a obra Saramago. E no cruzamento da rua Pilar del Rio com a rua José Saramago encontramos uma de suas dedicatórias marcadas à eternidade.
      O filme termina com nosso desejo de que sequer tivesse começado, pois assim não haveria a dor do terminar. O filme termina com a esperança de outro livro, de outra caminhada árdua, de outra série de lutas, mas um sendo o Pilar do outro, como sempre. Hoje, após a morte do mestre Saramago, não há como brilhar os olhos e esperar que realmente exista realidade na frase dita pela boca de José e que abre e entrecorta o documentário: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio." Espero que, no fim, encontrem-se.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Cine Holliúdy e o que realmente importa

Acabo de ver pela segunda vez Cine Holliúdy, filme cearense que, na terra natal, desbancou grandes blockbusters como o novo filme do Wolverine e coisa e tal.






Meu primeiro encontro com a obra de Halder Gomes foi em Salvador, quando o filme ainda só estava em cartaz nas salas do Nordeste. Já trazia consigo o crédito de ter sido uma das maiores audiência no Ceará, o que atraiu a atenção minha e da Julia, minha namorada. Seguindo meus rituais, não li resenha ou descrição (mesmo porque não tinha nenhuma além do sucesso no estado primo) e fui ver cru o filme, sem saber bem o que esperar. O filme, falado no exótico dialeto do cearensês e legendado em português para a compreensão geral, conta a saga de Francisgleydisson, um apaixonado pela sétima arte, e sua família na tentativa de montar um cinema. Passado nos anos 70, Francisgleydisson vê se aproximar a invasão da televisão, que coloca em jogo a relevância sócio-cultural do cinema. Mais do que uma luta para manter a magia do cinema viva - porque é disso que se trata no filme, da magia, do encantamento, do fascínio que estão contidos na telona, na produção; aquele outro mundo, ideal (ou não), mágico, onírico, que nos hipnotiza e nos permite sonhar e continuar sonhando -, o filme retrata o embate entre público e particular, comunidade e indivíduo, a interação e o isolamento, o cinema e a televisão.
Halder Gomes, diretor, roteirista e cearense
E o que poderia ser uma emocionante homenagem ao poder, o valor e o amor pelo cinema, transforma-se, nas mãos e coração de Halder Gomes, com todo - e muito, muito bem vindo - seu regionalismo cearense (toda a sua cearensidade), em uma grande homenagem à história contada, à narrativa que é tão característica da cultura nordestina, e, talvez mais importante, traz a magia como construção coletiva, dando absoluta voz ao espectador, que se recusa a apenas "espectar", mas insiste em participar, construindo junto, transformando junto, sonhando junto.

Quando entrei na sala, que deveria ter no máximo 30 pessoas, admito, duvidei do filme. Mas não poderia ter assistido melhor filme em melhor lugar. Se foi coincidência ou não, não importa, mas todos aqueles 30 baianos riam com gosto ao ouvir uma gíria esquisita do Ceará ou uma piada, por mais boba que fosse, puxavam o ar quando surpresos, comentavam, participavam, nos fazendo (nós, cariocas inveterados, que achamos tanto muito de nós mesmos quanto da arte de fazer filmes) rir junto, comentar junto, nos surpreender junto. Enfim, interagíamos com a tela, aquela que já viva e sorrindo para nós, como se dissesse que éramos poucos mas éramos privilegiados por estarmos ali, vivendo o que realmente significa uma sala de cinema. E éramos vivendo juntos um sonho no meio do maior shopping center de Salvador.

Não vou me prolongar muito dessa vez... prefiro que veja o filme e, se já viu, reveja e de preferência no cinema. É um filme cuja simplicidade cativa e toca e que, os olhos fascinados e o coração envolvido, arrancaram de mim menos palavras do que emoção.

sábado, 2 de março de 2013

Uma resenha animada



um filme não tão valente assim
Há alguns anos, com as inovações da Pixar a partir de Toy Story, animações conseguem abranger assuntos profundos e filosóficos com e para o olhar de uma criança. Como sou um apaixonado por animações, nunca digo não quando convidado (na maioria por mim mesmo) para assistir alguma e posso dizer ser fã de carteirinha da Pixar. Assisti Valente dias atrás e infelizmente percebi que eles não acertaram tanto na mão. Os personagens não eram tão carismáticos e o enredo parecia vir de roteiristas muito cansados que não faziam ideia de como sair da onde se meteram e, olha só, infantil demais para o nível das animações que concorriam com ele ao Oscar. Infelizmente, o Oscar de Melhor Animação foi para Valente, deixando dois concorrentes muito merecedores e ousados tristes: Detona Ralph e ParaNorman. Acredito que foi exatamente por isso que não ganharam o prêmio: a ousadia. Entre os dois, ParaNorman se destaca pela maturidade em temas bem peculiares e é sobre esse rapaz de cabelo de vassoura de bruxa que vou tentar rabiscar umas falhas palavras de emoção louca de um amante de animação.

     
         Entre a animação em geral, sou um eterno apaixonado pelo stop-motion. Não sei, não me perguntem coisas técnicas e seus relativos, aqui fala um cara que só entende do sentir que um filme lhe passa e posso dizer que o cuidado e o carinho de stop-motions sempre me ganhou. Talvez pela delicadeza e fluidez diferente dos demais, talvez pelos detalhes conseguidos de uma maneira tão árdua e artística, talvez por saber que tem trinta caras soando pra cacete pra fazer uma cena de dez segundos e que conseguem fazer um filme de uma hora e meia com maestria, talvez por sentir calor humano, um contato maior artista e arte, que modifica aos meus olhos estrábicos e obsessivos compulsivos. ParaNorman já começou me ganhando por isso. Não que eu soubesse que era stop-motion no inicio nem enquanto o filme passava, mas quando comecei a pesquisar para essa resenha mal desenhada e vi essa foto (então o certo seria que ParaNorman terminou me ganhando com esse fato, não começou, o que demonstra que o filme é além de sua animação).



    Norman é um garoto comum com uma capacidade que o difere dos demais e é daí que começa a dificuldade em sobreviver num lugar de iguais sendo tão destoante. Pela sua dicotomia, que, para o expectador inesperado quando é revelada surpreende (e isso é no começo do filme, mas não darei spoiler algum para te deixar com água na boca), ele é excluído e massacrado pelos que não o compreendem ou que apenas tem medo de seu jeito de ser.



 Norman e seu amor pelo macabro
     Veja, não existe o mau ou o bom, as pessoas são impulsionadas pelo medo, pelo preconceito e pela maneira como enxergam as coisas com os olhos turvos ou límpidos e é aí o primeiro ponto de suma importância desse filme e que demais filmes de animação vem fazendo (como exemplo, Detona Ralph): A quebra do maniqueísmo para as crianças. Botar desde cedo um tema tão trabalhado pesadamente em livros e filmes (Dançando no Escuro, do Lars é o exemplo mais pontiagudo que me veio à cabeça) numa linguagem irreverente e acessível é uma obra de arte a parte. Acredito que esse tipo de realidade que se expõe na mente de um ser desde jovem serve como salvador de vidas, quebrando conceitos sociais velhos e deturpados que estragam e limitam o ser humano. E isso o filme faz com maestria, quando as realidades invertem-se e tudo se resolve numa tentativa desesperada de diálogo entre seres cegos que utilizam a pancadaria acéfala para terminar com seus problemas. Ta aí, mais uma crítica da ParaNorman: à sociedade cega, surda e muda, marionetes do medo imposto pela mídia em geral, à sociedade violenta onde o mais puro apelo de socorro verdadeiro é perdido entre balburdias e agressões verbais cegas. E vemos então outra crítica: à falta de diálogo entre pais e filhos, essa distância de eras que não se compreendem, talvez por não falarem a mesma língua, talvez pela inveja que existe da maturidade pela juventude, talvez por não estarem na mesma onda vibratorial (e encaixe aqui todos os argumentos filosóficos e espirituais que conheças), abre-se um enorme abismo entre seres que moram tão perto, um enorme muro berliniano entre suas realidades, e passa-se à total incompreensão de ambas as partes que procuram o porquê de atos tão estranhos do outro em resposta aos seus.

     
E é isso que vemos na gama de relacionamentos dos filmes: os excluídos sociais, os excluídos familiares, os narcisistas perdidos dentro de si, os brutos incompreensíveis, os mansos delicados, os idiotas monstruosos, os especiais, todos juntos num só balaio de gato tentando se comunicar da maneira que conseguem, verdadeira torre de Babel, em suas linguagens dicotômicas que logo viram um grito enorme de incompreensão mútua. A descoberta do sexo e da violência também são marcados, ainda que de passagem, no filme, com pequenas piadas que devem deixar os pais de cabelo em pé nos cinemas junto dos filhos, por serem inesperadas de saírem da boca de criaturas tão bonitinhas. Bonitinhas e cheias de problemas, como todos nós e isso, ah, isso sim assusta; onde já se viu um filme de animação ser tão real em sua surrealidade?


Para mim, os roteiristas e animadores estão de parabéns pela ousadia que sempre precisou existir nessa esfera de filmes. A fábula e a trama é bem diferente, com subtemas de muita discussão, tais como: a exploração capitalista em cima de um fato histórico, vida e morte, realidades, o medo do ser humano explodindo por todos seus poros, a cegueira da violência, o “bullying” nas escolas e em todos outras dimensões existenciais da vítima, a amizade além das diferenças, a quebra do maniqueísmo, as escolhas e suas respostas futuras, a falta de diálogo e compreensão, a sexualidade, e talvez mais, para aqueles que enxergam além do meu horizonte encaixotado. E além de toda essa profundidade tão bem desenhada numa camada lúdica e fluida (tanto que nem percebemos quão pesado é tudo aquilo que passa correndo pelos nossos olhos) o filme é uma grande homenagem aos filmes clássicos de terror. Sim, ParaNorman nada mais é que, além de tudo isso, uma animação stop-motion de humor negro e terror infantil e posso dizer, sem nenhuma vergonha, que até eu fiquei temeroso certos momentos.


O que mais me surpreendeu foi o modo gracioso em que tocaram com a temática vida e morte, brincando com essa fina linha que separa os mortos e vivos e que foi tanto mexida ao longo dos anos. Não vi nenhum outro filme falar disso com tanta franqueza (fora Mary and Max). A cena final das descobertas e do alívio de uma alma presa na dureza da terra e por isso muito, muito brava, é de uma beleza tocante. Da música aos diálogos à arte visual, tudo paira numa fluidez espectral, afinal, tudo é muito belo, sabe?, aquela beleza rara e frágil de uma criança?, isso se encontra em momentos duros, o amor entre os espinhos tesos loucos para arrancar sua pele, a flor que nasce entre as ervas daninhas do desentendimento. O espectador apaixonado torce para um amor além dimensões, mas isso não é possível, nem numa animação, veja você. E ficamos na mão, mesmo felizes, porque o ser merece um pouco de amor no meio de tanta falácia, arrogância e solidão. Ao fim ele tem, tem sim, mas o quanto se desgastou pra isso é muito maior.


Hoje, posso marcar ParaNorman junto das minhas animações prediletas (Wall-e, Toy Story, Procurando Nemo, O Estranho Mundo de Jack [que é um clássico nesse quesito], Mary and Max [essa vale fazer uma resenha a parte também] e outros amigos que aqui me esqueço) e se não assistiu, por favor, desliga esse computador e vai alugar o mais rápido possível. E sim, chama os primos, os parentes, a avó, a mãe, os amigos, é um filme universal que fala todas as línguas em sua ousadia deliciosa. Deixo aqui a bela trilha sonora da parte final, que é muito tocante (especialmente a partir dos 2:10 do vídeo, se não tiver paciência, pule pra esse momento, dispa-se de si e sinta).

























quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um Ninho Para Estranhos

     Acabo de ver o  (aproveitando o clima dos últimos dias) ganhador de Oscar(es) "Um Estranho no Ninho" ou, em seu título original e, cá entre nós, muito melhor, "One Flew Over the Cuckoo's Nest" (Um [ou "Alguém"] voou sobre o ninho de cucos [aquele pássaro, serve como analogia para maluco... ah, vocês entenderam]). Impossível para mim, estudante de Ciências Sociais e com irmã psicóloga, separar o filme do discurso antimanicomial que ronda este universo e que, aliás, celebra seu dia em 18 de maio. Dito isto, vou comentar misturando elementos do filme com minhas experiência pessoais. Espero que a lambança não seja demasiada.



   

O Personagem Principal



    Jack Nicholson é Randle McMurphy, detento que se faz de louco para ir terminar sua sentença no manicômio. Agora, na primeira cena de Randle com os pacientes já sacamos o que vem por aí... o cara chega, muda a porra toda, não sei o quê... É, é basicamente isso que acontece... a fórmula é antiga (mas, pensando bem, o filme também é), mas isso não estraga o filme... O grande diferencial de Randle no manicômio não era sua saúde mental perfeita, mas sua rebeldia anárquica e cheia de vida. Ao longo do filme, vemos essa vida se refletindo nos outros personagens e produzindo a mudança de comportamento, talvez não da instituição, mas pelo menos dos pacientes. Randle McMurphy é o personagem que rendeu ao Jack Nicholson o Oscar de melhor ator... ou talvez seja Jack Nicholson que tenha rendido a Randle McMurphy tamanho... bom... tamanho como personagem... a questão é que por mais que Randle seja um personagem manjado na história do cinema e da literatura, ele é diferente. Honestamente não sei o porque disso, talvez seja o sorriso de maníaco do Jack Nicholson ou talvez seja a doçura com que Randle acaba tratando seus amigos e companheiros de hospício, um carinho velado e ao mesmo tempo muito aparente... sei lá... mas tem algo a mais.


O Manicômio


     Quando fui à minha primeira manifestação do dia da luta antimanicomial no ano passado, saí de lá muito diferente. Foi na Praça XV, onde diversos grupos estavam mostrando ou fazendo algum trabalho. Minha irmã e o namorado estavam lá, minha irmã fazendo trabalhos de mosaico com alguns pacientes e quem mais quisesse participar. Falando em pacientes, a presença deles marcou uma mudança bem grande no modelo de manifestação política que eu via desde o início do ano... veja, acontece que antes e depois de entrar na faculdade, eu participei de muitas manifestações e a cada uma crescia a decepção... era ridículo como os supostos interessados dos protestos não estavam nunca presentes... a questão aqui não é a "alienação" deles, mas a pretensão de partidos e jovens universitários de quererem representar alguém que não pediu para ser representado... era frustrante como falavam em nome de tanta gente que sequer os conhecem, muito menos reconhecem. Aí aparece o dia da luta antimanicomial, quando terapeutas e administradores e pacientes manifestam-se juntos em um evento cheio de atividades de integração entre os que estão de fora e os que estão de dentro da questão, há demonstrações dos trabalhos desenvolvidos por grupos e tal, instrução, etc... nada de um homem de partido berrando no megafone frases de protesto incompreensíveis se isoladas, costas viradas para a população... Não... se no protesto das barcas eu não vi nenhum trabalhador deixando de ir trabalhar para se juntar à manifestação, neste eu via dezenas de passantes parando para ver o que era tudo aquilo.
18 de maio (Dia da Luta Antimanicomial) 2012 na Praça XV

     Em um momento, um telão começou a passar um videoclipe de uma música feita pelos pacientes de um certo grupo (acho que era o CAPS da UERJ, mas não posso confirmar). Os psicólogos tocavam os instrumentos e os pacientes cantavam. Esses mesmos pacientes se encontravam lá no evento e, enquanto passavam o vídeo, eles cantavam junto. Nunca vi um grupo de pessoas mais feliz... isso mexeu comigo... imaginei o orgulho que todos eles sentiam de fazer parte disso, desse acontecimento, dessa conquista. Eles haviam feito aquilo e fizeram com o próprio suor. Isso mostra que eles tinham (e tem) capacidade, é a autoconfiança que eles precisam para se integrar na sociedade... e afinal, imagino ser esta a função da saúde psicológica, fazer a integração do paciente na sociedade, para que ele possa ter uma vida, se não normal (no sentido que é dado mais comumente), ao menos saudável, com as implicações que tal palavra traz. A esse propósito, estabelecer uma "função" ou ao menos uma "funcionalidade" ao paciente faria parte do processo de integração.

     Tudo isto se encontra presente no filme, mas de forma inversa. Como se passa num manicômio, as críticas feitas ao sistema manicomial de tratamento são incorporadas às atividades na forma de orientação. Assim, vemos claramente e, em primeiro lugar, o distanciamento do médico com o paciente. Não lembro de cena que mais demonstre isto do que a que a enfermeira, ao se deparar com Randle na sala privada berra "STAY BACK!" em claro horror e medo. Não só há o distanciamento entre os dois atores da relação - o terapeuta e o paciente - há também a desumanização de um de forma que o tratamento se diferenciará completamente do que seria dado a uma "pessoa normal". Por isso o medo da enfermeira. Não se sabe do que aquele ser é capaz, não se dá uma humanidade para ele, sua identidade permanece apenas e somente como "o doente mental". O isolamento deste "doente" é talvez a mais frustrante e alarmante característica deste símbolo manicomial. Como pode o paciente ser reintegrado à sociedade se ele é tratado como algo externo a ela? Justamente aquilo que se evita fazer é o que se faz e somente aquilo. Uma vez que o espectador percebe - como percebe Randle, após saber que só através do aval médico ele sairá de lá - que os pacientes se encontram num ciclo vicioso de reafirmação da psicopatologia e isolamento social através do próprio tratamento, que os pacientes nunca sairão do manicômio, mesmo aqueles que estão lá voluntariamente, pois a ideia da psicopatologia e da sociedade como algo externo a eles ("Não estou pronto ainda", disse Billy) já são ideias que estão enraizadas neles próprios e não apenas na instituição manicomial... uma vez que o espectador percebe isso, instala-se o desejo de fuga. Bom... pelo menos comigo isso rolou... precisava que aquelas pessoas saíssem dali.

     Creio que a cena mais simbólica deste processo de encarceramento psicopatológico dentro do manicômio seja uma do Billy que, após uma noite com uma moça, sua gagueira - manifestação física de algum trauma psicológico ou seja lá o que for que despertava sua depressão e vontade suicida - tinha sumido. Com o confronto da enfermeira Ratched, - a puta mais desgraçada que já vi no cinema - sua gagueira retorna e... bem... o resto é história... Claro que Ratched filhadaputamente usou o gatilho depressivo do Billy (a mãe dele - eu sei, eu sei... cliché) contra ele ao invés de reconhecer a melhora do paciente. Isso porquê, claro, ela colocava a moral pessoal acima do profissionalismo e etc... e era uma megera odiável. Mas a questão é a melhora do paciente não ser a prioridade ou acho que nem isso... não ser sequer reconhecível através do processo manicomial.

     O entorpecimento contínuo com o uso de remédios e tratamentos de choque e a fatal lobotomia são modos de berrar, eu disse BERRAR que a psicopatologia é incurável (uma vez louco...) e que o paciente deixou de ser paciente no momento em que entrou na instituição, que não é nada além de uma instituição carcerária, onde, mais que isso, os internos são tratados como completos inúteis, incapazes de fazer nada, completamente desencorajados a se expressarem... Mais do que um cárcere físico, o manicômio representa uma prisão da alma, e é nesse estado morto dos pacientes que Randle chega lá.


O Antimanicômio


     Randle McMurphy é o transgressor... aquele que acabará com a ordem manicomial e questionará suas práticas. Desde sua chegada, quando dado o remédio (sem nem ao menos ter recebido um diagnóstico objetivo antes! - ele estava sob observação), ele pergunta o que é. Sem responder à pergunta, a enfermeira apenas ameaça fazê-lo tomar o remédio à força. É claro que ele não toma, guarda o remédio na boca e faz piada disso.
     Randle, o anárquico cheio de vida acaba, mesmo que sem querer, mesmo que só visando seus próprios objetivos, contagiando o resto dos pacientes com sua vida e jeito enérgico de ser. Os pacientes, como Randle, começam a questionar o tratamento dado a eles. Se não saem completamente da norma manicomial, ao menos iniciam um processo visando isso... Talvez Billy Bibbit tenha sido, com exceção do Chefe (chegaremos lá), quem mais se aproximou da possibilidade de "cura" (ou ao menos de aprender a lidar com o sei lá como se chama que ele tem) através do "processo antimanicomial" liderado por Randle. Claro que quando Billy chegou lá, para a frustração geral, a enfermeira Ratched interveio. 

     O que Randle fazia era sim, no fim das contas, uma via de terapia alternativa ao manicômio. Isso se expressa bem em um questionamento feito por um dos pacientes (não me lembro qual). Ele pergunta se assistir ao jogo de baseball não poderia ser considerado também uma forma de terapia. É ousado! E corretíssimo! É sobre isso que o discurso de inserção na sociedade se basearia, eu acredito, na... bem... na inserção na sociedade! Como pode um americano não assistir a um jogo de baseball? Quer dizer, ser privado disto?! É como um brasileiro ser privado de ver futebol. Como pode alguém ser privado de algo que é fundamental naquilo onde quer ser inserido? Acho que vai além, como pode alguém ser privado de uma experiência tão básica? A questão aqui é aquela já explicitada: não separar o paciente da sociedade! Não isolar o indivíduo em tratamento! A interação de Randle com o resto dos personagens cria uma certa teia de afinidade dentro do hospital. As relações pessoais passam a ser mais intensas, as interações mais afetuosas... em resumo... Randle contagia cada um ali com sua intensidade. Vê-se a vida presente neles, a ideia de liberdade e de paixão e Randle McMurphy tornara-se o símbolo disto tudo, era ele quem havia trazido esta nova perspectiva - se é que havia outra antes. 

     É o método de terapia que Randle aplicava (inconscientemente, claro) que bota em julgo o modo de ser do manicômio, de dentro para fora. Este que representa este espírito antimanicomial que transformou os pacientes e, de uma forma ou de outra, o próprio hospital psiquiátrico, mesmo que, novamente, a instituição tenha se mantido inalterada. Tem uma cena muito interessante que se passa quando eles sobem em um barco no cais. Para se apresentar, eles tomam o papel de doutores. Essa inversão de papéis, de função e, mais importante, de hierarquia, mostra a ordem manicomial subjugada pelo espírito antimanicomial subversivo.


O Chefe Bromden


     Brilhantemente interpretado por Will Sampson, este personagem por si só já merece uma seção só dele. O Chefe é um imenso índio surdo e mudo (que revela alguns segredos após estabelecer uma silenciosa amizade com o protagonista). É ele, na minha opinião, o fio fundamental do filme, aquele que conduz o andamento das coisas e, secretamente, um protagonista nas sombras de... bem... de todo o resto. O Chefe é a timidez e a impotência presentes num potencial imenso. É a autoestima encolhida de um corpo enorme. Ele representa o indivíduo no manicômio e seu processo de libertação pode muito bem ser extendido a todos os outros pacientes, só que de forma diferente. Acompanhamos seu... desabrochar (perdoe a péssima utilização da palavra) ao longo do filme, de um poste, uma cenografia enorme, até um personagem bastante relevante, que conseguimos nos relacionar e simpatizar, até a cena final do filme, cheia de simbolismos e que representa muito no universo da trama. Bom... pra mim, pelo menos... 
      O Chefe será o espírito daquele manicômio e quando ele diz que já está grande o suficiente, é porque os demais pacientes também se sentem mais dispostos. Randle ajudou o chefe a interagir, deu confiança a ele, assim como fez com o restante dos internos... 
     
     E isso nos leva ao título do post... com o isolamento dado aos pacientes, eles se tornam estranhos a qualquer outra coisa, são estrangeiros ao mundo e é justamente este outro estrangeiro, este recém-chegado que não consegue se adaptar ao mundo externo (fora preso diversas vezes!) que transforma este inferno, este presídio da alma, em um ninho... é ele que consegue trazer conforto, acalento, pertencimento aos internos e por isso "um ninho para estranhos"... porque aqueles que eram tidos como algo diferente, se encontraram em algo que poderia ser tido como deles e... semelhante... que os aceitasse...
     

     Ok, se até agora não dei nenhum grande spoiler, é aqui que começa. Você que não viu o filme pare de ler ou continue, mas foi avisado! 


O Fim


     E é assim que matam Randle. Após o suicídio de Billy pelas mãos da enfermeira Ratched, após o ataque (extremamente justificado) de Randle à mesma, realizam uma lobotomia nele, o "diminuem", o anulam, o matam. E é por isso que o Chefe, agora grande, forte, confiante, graças ao seu amigo, o sufoca. O Chefe dá-lhe a liberdade, assim como o faz com os demais na cena final do filme, ao libertar a si mesmo. Pois se é ele o grande fio condutor, o grande espírito e alma daquele hospital, sua liberdade representa a liberdade dos outros. A forma como olham animados a fuga do Chefe, a forma como, apesar da morte de Randle (e, se eles ainda não sabiam, ao menos do sumiço dele), a esperança continua (ou voltara) a brilhar em seus olhos... A mudança estava feita e essa era a prova maior disto. Os pássaros, os cucos, estavam prontos, já podiam voar do ninho.






Deixo aqui meu respeito e admiração pelo ator Will Sampson. Que, assim como seu personagem, ele tenha encontrado a liberdade depois da janela.