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sábado, 21 de dezembro de 2013

Cine Holliúdy e o que realmente importa

Acabo de ver pela segunda vez Cine Holliúdy, filme cearense que, na terra natal, desbancou grandes blockbusters como o novo filme do Wolverine e coisa e tal.






Meu primeiro encontro com a obra de Halder Gomes foi em Salvador, quando o filme ainda só estava em cartaz nas salas do Nordeste. Já trazia consigo o crédito de ter sido uma das maiores audiência no Ceará, o que atraiu a atenção minha e da Julia, minha namorada. Seguindo meus rituais, não li resenha ou descrição (mesmo porque não tinha nenhuma além do sucesso no estado primo) e fui ver cru o filme, sem saber bem o que esperar. O filme, falado no exótico dialeto do cearensês e legendado em português para a compreensão geral, conta a saga de Francisgleydisson, um apaixonado pela sétima arte, e sua família na tentativa de montar um cinema. Passado nos anos 70, Francisgleydisson vê se aproximar a invasão da televisão, que coloca em jogo a relevância sócio-cultural do cinema. Mais do que uma luta para manter a magia do cinema viva - porque é disso que se trata no filme, da magia, do encantamento, do fascínio que estão contidos na telona, na produção; aquele outro mundo, ideal (ou não), mágico, onírico, que nos hipnotiza e nos permite sonhar e continuar sonhando -, o filme retrata o embate entre público e particular, comunidade e indivíduo, a interação e o isolamento, o cinema e a televisão.
Halder Gomes, diretor, roteirista e cearense
E o que poderia ser uma emocionante homenagem ao poder, o valor e o amor pelo cinema, transforma-se, nas mãos e coração de Halder Gomes, com todo - e muito, muito bem vindo - seu regionalismo cearense (toda a sua cearensidade), em uma grande homenagem à história contada, à narrativa que é tão característica da cultura nordestina, e, talvez mais importante, traz a magia como construção coletiva, dando absoluta voz ao espectador, que se recusa a apenas "espectar", mas insiste em participar, construindo junto, transformando junto, sonhando junto.

Quando entrei na sala, que deveria ter no máximo 30 pessoas, admito, duvidei do filme. Mas não poderia ter assistido melhor filme em melhor lugar. Se foi coincidência ou não, não importa, mas todos aqueles 30 baianos riam com gosto ao ouvir uma gíria esquisita do Ceará ou uma piada, por mais boba que fosse, puxavam o ar quando surpresos, comentavam, participavam, nos fazendo (nós, cariocas inveterados, que achamos tanto muito de nós mesmos quanto da arte de fazer filmes) rir junto, comentar junto, nos surpreender junto. Enfim, interagíamos com a tela, aquela que já viva e sorrindo para nós, como se dissesse que éramos poucos mas éramos privilegiados por estarmos ali, vivendo o que realmente significa uma sala de cinema. E éramos vivendo juntos um sonho no meio do maior shopping center de Salvador.

Não vou me prolongar muito dessa vez... prefiro que veja o filme e, se já viu, reveja e de preferência no cinema. É um filme cuja simplicidade cativa e toca e que, os olhos fascinados e o coração envolvido, arrancaram de mim menos palavras do que emoção.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Perro Negro



Recebi meu exemplar de "Perro Negro" hoje, pelo correio. Um exemplar bastante caseiro mesmo, feito à mão, suor e amor, como sei bem. A embalagem de plástico veio com um lindo desenho do artista, Rafael Elfe, obra de sua talentosa namorada, Mayara Nardo. Peguei o CD EMTEC gravável de 80 min, desvirginado pelo "Perro Negro" e "R. Elfe" escritos à mão, e o coloquei no rádio; o potente violão que já tive prazer de ver em ação ressoava nas caixas de som que herdei do meu avô (junto com sua vitrola/cd-player que exibo orgulhosamente no meu quarto). Já conhecia a faixa. De fato, com exceção de uma música apenas (a da faixa 4), eu já conhecia o cd de trinta e tantos minutos inteiro. Mesmo assim, a música que dançava pelo quarto era inteiramente nova e ainda parece ser toda vez que coloco para ouvir.


"Amor para meu Amor", Rafael Elfe por Mayara Nardo


A gravação caseira do disco (que já é intimista por si) nos permite entrar na atmosfera em que estava o artista: os pássaros que podemos ouvir em Tanto Faz, o ocasional som de vento e de ar de casa. O barulho de sol que invade as notas... O sentimento de nublado que dá tom na voz...
Ela nos dá a sensação máxima de intimidade, como se fizéssemos parte daquele momento tão embrionário da criação musical, aquele momento de inspiração e satisfação quando tocamos a música que criamos pela primeira vez e sentimos que ela está viva e preparada para ser chamada de "pronta". 


Eu ouço Perro Negro de olhos fechados. Assim, as tantas imagens que ele traz conseguem invadir sem interferência... Os sons se misturam... as notas cantam o coração e a voz orna a lírica e poesia de cada canção e formam uma unidade reconhecível sob a bandeira do poeta, do músico.

O disco é, em sua totalidade, uma (infelizmente) curta mas densa e palpável jornada pela alma do artista, tão semelhante a tantas outras; os sonhos, as paixões, as revoltas, as doçuras, os momentos de melancolia...
No fim, acho que não consigo expressar bem o que sinto com o som do Elfe, digo apenas que é certo. É um som certo. É um som que sai não do rádio, mas de dentro, que nos invade, nos faz pensar, sentir, gela a espinha e faz sorrir ao mesmo tempo. É um som que fala conosco. Que nos faz ficar bem e em boa companhia. Resumindo, é um som muito melhor sentido do que explicado.



Perro Negro por Mayara Nardo


Abaixo, uma das minhas favoritas do disco, Larga Tudo e Vem:

https://soundcloud.com/rafaelelfe/larga-tudo-e-vem?in=rafaelelfe/sets/perro-negro

e a canção que dá nome ao álbum:
https://soundcloud.com/rafaelelfe/perro-negro?in=rafaelelfe/sets/perro-negro



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Folk e The Outside Dog (desculpe-me o Leitor, não consegui ser criativo no título)

"Folk é uma mulher que pariu todos os seus filhos sozinha, sem ajuda de médicos. O resto é tudo leite com pêra..."

Foi com essa frase que o Rafael Elfe, do The Outside Dog, acabou de postar aqui no Facebook que eu decidi começar uma resenha que vem sendo adiada faz meses. Em parte pela complexidade do que é o folk, em parte por falta de conhecimento e estrutura de minha parte, em parte, ao contrário, pela simplicidade do folk, de tudo o que deveria ser dito com poucas palavras, poucas notas. Elfe postou a frase juntamente com esse vídeo:






Agora sim eu posso me dedicar a fingir que sei do que estou falando. Em outras tentativas de começar o texto eu falava da origem do termo, planejava falar de Bob Dylan, da música folk americana e da música folclórica, mas que se foda. Pro inferno com tudo isso, vou dar minha própria impressão, bem pessoal, do que é o folk.

Folk é a expressão máxima do povo por meio da música, é a fala-canto garranchada, o dedilhado autodidata feroz e a letra coracionada, emoção-alma enjuntada num canto sem platéia, porque o folk é do cancioneiro, mas é também do povo, é pro cancioneiro e é pro povo. É um berro de cultura, um ressoar de existência viva, muito viva, e reverberante. É o sertão, a lavoura, o pampa. É a condição própria do povo sentir-se povo, de reconhecer-se naquilo ali. É cantar a alma.

Em outro papo com o Rafael Elfe, conversávamos sobre a (então) nova banda dele, o The Outside Dog, e uma coisa que eu notei foi que, enquanto as antigas músicas eram compostas em inglês, as novas, após a entrada do Elfe, estão em português. Fui falar com ele a respeito disso e me contou que conheceu a banda num festival de folk (o All Folks Fest, em Sampa - https://www.facebook.com/AllFolksFest?fref=ts), e ficou amigo dos caras. O Elfe já tinha um trabalho solo bem bacana¹, que o levou para o festival, todo em português, enquanto o The Outside Dog compunha em inglês, com uma pegada mais pro folk americano. Ele me disse que vendo-o tocar sozinho com o violão, o pessoal da banda ficou tocado com a intimidade da coisa. E completa: "E [é] mais próxima à nossa língua mãe né, a comunicação. E claro, no meu caso, a não submissão, rs. Mas isso é coisa de quem está matriculado em ciências sociais, rs. S
empre achei legal defender a nossa coisa.". Acho que "defender a nossa coisa" é a melhor forma que encontro de simplificar o folk (novamente, é uma visão extremamente pessoal). 
A questão é que, seja como for, o The Outside Dog lançou um fantástico EP², já com o Elfe como integrante e com letras em português, e de tudo o que eu tinha ouvido deles e tinha gostado, mas sentido que faltava alguma coisa, agora me pareceu que a banda tinha encontrado o seja lá o que fosse que faltava para deixar o som, digamos assim, ideal. "Contramão", a primeira faixa do EP "Outros Caminhos Parte 1", é um ato de subversão e de defesa à nossa coisa. Deixo a letra com vocês: O dia mal começa, mas eu não tenho pressa 
Nunca vou perder o que não tenho 
E essa velha história, de viver atrás das horas 
E se julgam bem a frente do seu tempo 
De baixo dessa capa, escondem a verdade 
Se é que algum dia a tiverem 
Temem só aqueles, que fogem do modelo 
Que sempre julgam como verdadeiro 

Eu não compro o que vendem 
Eu não creio no que creem 
Eu não caio nessa história que foi tudo em vão 
De que estou na contramão 

De longe é maravilha, de perto a fantasia 
Só enxergam aquilo que tem preço 
O passo vai pra frente, mas parada está a mente 
Que há tempos deixou de trabalhar 
Se muito já é pouco, eu que sou o louco 
De não querer ir abordo desse trem 
Nada é o bastante, querem sempre o distante 
É se esquecem o que cresce bem aqui 

Eu não compro o que vendem 
Eu não creio no que creem 
Eu não caio nessa história que foi tudo em vão 
De que estou na contramão

Pouco importa, nesse caso, se tratar dum som gringo (que vem dos folks americanos), o grito é da terra. É da coisa nossa. É folk.






¹ Ouça o trabalho solo do Rafael Elfe: https://soundcloud.com/rafaelelfe e a página no Facebook: https://www.facebook.com/fantasmadoporao?fref=ts

² Ouça o novo EP do The Outside Dog, Outros Caminhos Parte 1, assim como suas outras músicas: http://www.theoutsidedog.com/

domingo, 17 de março de 2013

A maior terceira menor big band do mundo.



O "Antes de mais nada".

Dois jovens milenares
      Conheci Os Mulheres Negras como poderia não conhece-los, esbarrando nesses dois seres excêntricos pelo excêntrico caminho da minha vida repousada nas minhas pernas roliças, graças ao meu professor de piano que me mostrava Karnak (que merece um post só pra eles) e uma entrevista do André Abujamra, bem jovem, onde ele cita, rapidamente, seus projetos anteriores, e é nesse momento que meus ouvidos compreendem a estranha junção "Os Mulheres Negras" em vida. Foi apenas isso, coisa de microssegundos, e a mente marcou a ferro o nome peculiar e logo os dedos pegaram fogo nos youtubes e nos sites de downloads ilegais porém necessários dessa longa vida enferrujada.  E foi assim que, tomado por uma estranheza inicial, descobri-me ali dentro, na loucura dos dois homens brancos que multiplicavam-se como polvos enlouquecidos, formando o que eles chamavam de "A terceira menor big band do mundo".

O "Depois de mais tudo".

     Eles se consideram a terceira menor big band do mundo, mas com o passar dos tempos e com a modernidade passaram a ser a sétima menor big band do mundo, talvez com alguns cálculos inacessíveis aos seres humanos. Muitos consideravam que a primeira menor big band do mundo é ninguém mais que Hermeto Pascoal, mas eles respondiam que era quando um deles faltava no show ou no ensaio. De certo a segunda  menor big band era quando um deles era cortado pela metade. 


     São tão pequenos e poucos os que ousam falar deles que sobraram apenas um parágrafo e meio na Wikipédia e alguns videos perdidos pelo youtube. No site de cifras vigente (aquele do clube das cifras, sabe?) só existem duas músicas cifradas, e isso creio que na internet toda, ambas (mal)cifradas por este que aqui vos fala, que pretende fazer isso com as demais também, quando tiver mais tempo, afinal, cifrar obras de arte é destilação corporal de vida, sangue, suor e lágrimas. Sua existência é uma lenda, sua música é uma linguagem a ser decodificada, seus fãs são seres semi-extintos da lucidez Pouco de sua gênesis é conhecida. Lendas contam que os mortais André Abujamra e Maurício Pereira, divinamente encontraram-se em aulas de ritmos africanos e, talvez por algum feitiço de preto velho ou de divindades obscuras provindas da própria África com seus batuques e truques entroncados no próprio existir, transformaram-se os dois homens brancos em vários e, ainda por cima, em Mulheres Negras. 

O Crescer do Império.

     Desembestaram em séries de shows com outros seres caóticos e independentes, suas musicas alternativas e ilógicas soando aos ouvidos dos céticos e mostrando a todos que poderia sim existir mais de umas meia dúzias de deuses. Alguns vídeos sobraram do Grande Incêndio Cultural que existiu do passado dOs Mulheres, e dentre eles salvam-se o espetáculo psicodélico de "Só Tetele", com sua melodia peculiar, com seu baixo corredor e com sua letra quebradiça em uma antiga maldição africana de vício instantâneo ao que se ouve, a grande homenagem Beatleana "Sub" e o Grande Alerta Milenar sobre a suja destruição da natureza que ecoa em diversas linguagens e melodias da insana e multifacetada "Purquá Mecê" (além de outros que serão lembrados depois que eu falar o que quero falar, mesmo sem saber o que sairá de mim)

Só Tetele (eu sei que eles são belos demais, mas foque-se no poder da letra)


Sub


Purquá Mecê


     Da História de seu surgimento chegaram ao ápice de encontrar com um dos maiores magos da exposição, o eterno gordo e soaresco Jô, em plena juventude de seus milhões de anos, manipulador de todos os olhos, onde em plena arena éssebêtística se digladiaram com todos os poderes insanos e demoníacos e com todas as suas forças de ironias enjauladas. Dessa batalha, que os fez ficarem mais conhecidos, sobrou apenas uma série de vídeos, das quais deixo aqui a Primeira Santa Parte e, se aos mortais convir assistir os demais, que utilizem de suas forças e de seu suor para conseguir encontrar o resto dessa obra prima, onde eles tocam uma música-tributo ao Gran Villa-Lobos e falam de seu jornal e de sua caixa postal.

O Hiato Inexistente.

     Calaram-se por algum tempo. Mas a música continuou soando em nossos corações femininos e negros.

     Nesse tempo de calmaria em seus mares, de caminhos separados para fortalecimento e para recolher sabedorias para futuras loucuras, fizeram pequenas aparições, como no filme "Durval Discos" (que merece uma resenha à altura), adaptando a música "Mestre Jonas" de Sá, Rodrix e Garabyra.

Mestre Jonas, pel'Os Mulheres Negras



El Gran-Retorno.

     Voltaram, sem mesmo ter saído, e aí vinha um novo desafio: agrupar novos lunáticos das novas realidades sociais. O que conseguiram, afinal, e felizmente, ainda existem loucos entre os oceanos intragáveis da normalidade.

     Foi nesse momento que, dizem, descobriram que, com as modernidades, não eram mais a terceira menor big band do mundo, mas sim a sétima menor, descobriram também que com alguns botões em um notebook conseguiam fazer melhor do que aquelas parafernalhas enormes que pareciam robôs assassinos em seus shows e estúdios musicais. Só que, para compreender essa nova linguagem, precisavam ser alfabetizados. Humildes, como todos os gran-sobrehomens são, voltaram do zero e reaprenderam tudo para imperarem sobre todos como sempre.

     Assim, a caixa postal 20908, da onde nasceu o Jornal dos Mulheres Negras, caso você não viu a entrevista com o Jô Soares, oh alma inapta à existência!, virou twitter: https://twitter.com/20908 e o contato correial virou facebookiano: http://www.facebook.com/osmulheresnegras?fref=ts 

Os Mulheres, anos depois, imortalescos
     Voltaram a fazer show com as músicas e improvisações fantásticas a partir do século XXI, quando o 2000 começou a crescer em dezena também, e eu, humilde servo, fui assistir o primeiro show e me deparei com dois homens muito cansados e sentados. Chorei por dois mil anos. Porém, desacreditado e me sentindo infiel por ter pensado tal coisa, resolvi ver o vídeo do segundo show, uma outra reunião raríssima desses dois monstros, e eis que vejo, brilhando como  o sol, o Feitiço Africano dOs Mulheres Negras tomando conta de meu corpo novamente!

 Feridas, música cantada em diversas línguas antigas e, grande parte, no dialeto alienigena de Cthullu.



Relíquias Musicais.

Música e Ciência (1988)

     Durante sua estadia na Terra, Os Mulheres Negras deixaram uma larga discografia que contém dois discos infinitos, de tantas vezes que você vai repeti-los inesgotavelmente. O primeiro, a introdução de suas existências em nossa reles existência, chamado pura e simplesmente de "Música e Ciência" (1988), pois era isso o que queriam: misturar a música com os sons loucos de todas as ciências antigas do mundo. O rompimento da camada da realidade foi grande nessa, chegaram com o pé na porta e o tapa na cara e mostraram para todos qual era o seu Método, mostraram abertamente seus objetivos ("Fazer musica pop e quem sabe algum dia ficar rico e xarope) e mostraram, acima de tudo, que a música popular não precisa ser a mesmice de sempre, e sim um labirinto de situações inesperadas, clichês inesgotáveis que misturam-se formando obras de artes com suas bananas ao vento. Digamos que quase uma "Clockwork Banana".
     
     Dentre esse museu de peculiaridades se destacam as já citadas: Sub, Purquá Mecê e Feridas. As não citadas o serão agora, com licença.

     Com sua capacidade sobre-humana, Os Mulheres conseguiram vários feitos inesperados nesse primeiro álbum. Um deles era conseguir resumir vida e morte em apenas um minuto com essa música, "Elza", a qual eles chamam de biografia dechavada do Garrincha, Deus queira saber o que isso signifique, pois Eles, Os Mulheres, o sabem.

     Também, entre as surpresas do álbum angélico, Os Mulheres nos mimam com uma releitura do clássico "Summertime", com suas milhares de mãos polvônicas.


     Dentre outras músicas, ou seja, todas, que fazem do álbum a raridade que realmente o é.

Música Serve Pra Isso (1990)

    Depois disso, dois anos depois pra ser mais preciso, dois anos de muita labuta e refinamento, chegaram outros Mulheres, mudados, com uma levada mais melódica e lírica, mais construída ainda que pop, sempre melhores do que ontem e piores do que amanhã. Nesse novo álbum chamado "Música serve pra isso" diversas músicas se destacam. Falemos delas.

     A música-carro-chefe, "Musica serve pra isso" já vem de cara surpreendendo a todos com a insana lucidez de sua letra, a poética mordaz e confusa, a melodia deliciosa e espancadora. É o indizível que ousou ser dito. (infelizmente não consegui incorporar o vídeo ao blog, então toma o link apenas: http://www.youtube.com/watch?v=JAEBaKOoDu4 )

     Também a canção já citada "Só Tetele" e a não citada ainda "Guembô" que, com a magia africana que Os Mulheres vinham preparando, nos leva diretamente para uma aldeia em meio aos seus santos cânticos. (Infelizmente a música é bela demais e não é digna do youtube, então mando-lhes só o audio, pois é só disso que precisas: http://www.reverbnation.com/play_now/song_10195092# )

     Entre outras músicas como "Etiópia Mirim" e "John" se destaca a minha favorita. Chama-se "A Lavadeira, O Varal e a Saudade" e nela, sem "letra" alguma, Os Mulheres Negras conseguem resumir perfeitamente o sentimento da saudade. Imagino eu, em meus delírios, os olhos fechados e ouvidos atentos, ao som do triste baixo caminhante, a negra escrava ou semi-escrava pondo as brancas roupas no varal, a pele cansada ao sol, a mente cansada à vida, os lábios cansados cantando a canção incompreensível aos nossos ouvidos de seu povo cansado e esquecido. Vale a pena ouvir, dentre qualquer outra aqui citada: http://www.lastfm.com.br/music/Os+Mulheres+Negras/_/A+Lavadeira,+O+Varal+E+A+Saudade

     Também se destaca a divertida "Cabeludas" e a bela, triste e repetitiva "Common Uncommunicability" que fecha o álbum e (por enquanto) a Obra Mulheresnegresca com a chave de ouro da estranheza. ( Mais uma vez o Youtube dando uma de puta: http://www.youtube.com/watch?v=_PVzvxAVV0Y

     Dia desses, uns dois dias atrás no máximo, contando com a data desse post, Os Mulheres Negras soltaram na internet sua versão da música "A Rita" do Grand-Deus Chico Buarque para um documentário do porvir. Transformaram essa obra-prima em outra obra-prima. A primeira do lirismo, a segunda da loucura explosiva e melancólica dOs Mulheres Negras. Veja o invisível e ouça o inesperado.
      (argh Youtube, assim você não me ajuda, pessoas tem preguiça de clicar em links poxa! http://www.youtube.com/watch?v=UKlmXKDbyao )

Poslúdio.

     Enfim, falei e nada disse, pois não há palavras concretas que resumam o poder musical de qualquer um, inda mais dOs Mulheres Negras. Espero ter agregado alguns iniciantes, espero que tenhas ouvido tudo ou lido ao menos tudo, senão a metade, e se leu/ouviu a metade quer dizer que não está lendo isso e quer dizer que posso parar de escrever agora. Mas deixo aqui, para os que querem ter Os Mulheres Negras convosco, os mesmos, tão humildes, tão humanos, tão compreensivos, deixaram o seguinte link em  Sua Página Inicial, com os seguintes dizeres maquiavélicos e nostradamísticos:

     "por favor não não click nesse link abaixo

     são os dois discos dos mulheres negras

https://www.yousendit.com/dl?phi_action=app%2ForchestrateDownload&rurl=https%253A%252F%252Fwww.yousendit.com%252Ftransfer.php%253Faction%253Dbatch_download%2526batch_id%253DQlVpZEV4SU9Fc0k4RmNUQw"

Se eu fosse você, não o faria.

Os Mulheres Negras, hoje e sempre. Maurício mostrando que nada têm embaixo da manga e André deixando claro que não precisam ter nada embaixo da manga, já que tem o Olho Que Tudo Vê e estão observando você, nesse momento, terminar essa confusa des-análise.



sábado, 2 de março de 2013

Uma resenha animada



um filme não tão valente assim
Há alguns anos, com as inovações da Pixar a partir de Toy Story, animações conseguem abranger assuntos profundos e filosóficos com e para o olhar de uma criança. Como sou um apaixonado por animações, nunca digo não quando convidado (na maioria por mim mesmo) para assistir alguma e posso dizer ser fã de carteirinha da Pixar. Assisti Valente dias atrás e infelizmente percebi que eles não acertaram tanto na mão. Os personagens não eram tão carismáticos e o enredo parecia vir de roteiristas muito cansados que não faziam ideia de como sair da onde se meteram e, olha só, infantil demais para o nível das animações que concorriam com ele ao Oscar. Infelizmente, o Oscar de Melhor Animação foi para Valente, deixando dois concorrentes muito merecedores e ousados tristes: Detona Ralph e ParaNorman. Acredito que foi exatamente por isso que não ganharam o prêmio: a ousadia. Entre os dois, ParaNorman se destaca pela maturidade em temas bem peculiares e é sobre esse rapaz de cabelo de vassoura de bruxa que vou tentar rabiscar umas falhas palavras de emoção louca de um amante de animação.

     
         Entre a animação em geral, sou um eterno apaixonado pelo stop-motion. Não sei, não me perguntem coisas técnicas e seus relativos, aqui fala um cara que só entende do sentir que um filme lhe passa e posso dizer que o cuidado e o carinho de stop-motions sempre me ganhou. Talvez pela delicadeza e fluidez diferente dos demais, talvez pelos detalhes conseguidos de uma maneira tão árdua e artística, talvez por saber que tem trinta caras soando pra cacete pra fazer uma cena de dez segundos e que conseguem fazer um filme de uma hora e meia com maestria, talvez por sentir calor humano, um contato maior artista e arte, que modifica aos meus olhos estrábicos e obsessivos compulsivos. ParaNorman já começou me ganhando por isso. Não que eu soubesse que era stop-motion no inicio nem enquanto o filme passava, mas quando comecei a pesquisar para essa resenha mal desenhada e vi essa foto (então o certo seria que ParaNorman terminou me ganhando com esse fato, não começou, o que demonstra que o filme é além de sua animação).



    Norman é um garoto comum com uma capacidade que o difere dos demais e é daí que começa a dificuldade em sobreviver num lugar de iguais sendo tão destoante. Pela sua dicotomia, que, para o expectador inesperado quando é revelada surpreende (e isso é no começo do filme, mas não darei spoiler algum para te deixar com água na boca), ele é excluído e massacrado pelos que não o compreendem ou que apenas tem medo de seu jeito de ser.



 Norman e seu amor pelo macabro
     Veja, não existe o mau ou o bom, as pessoas são impulsionadas pelo medo, pelo preconceito e pela maneira como enxergam as coisas com os olhos turvos ou límpidos e é aí o primeiro ponto de suma importância desse filme e que demais filmes de animação vem fazendo (como exemplo, Detona Ralph): A quebra do maniqueísmo para as crianças. Botar desde cedo um tema tão trabalhado pesadamente em livros e filmes (Dançando no Escuro, do Lars é o exemplo mais pontiagudo que me veio à cabeça) numa linguagem irreverente e acessível é uma obra de arte a parte. Acredito que esse tipo de realidade que se expõe na mente de um ser desde jovem serve como salvador de vidas, quebrando conceitos sociais velhos e deturpados que estragam e limitam o ser humano. E isso o filme faz com maestria, quando as realidades invertem-se e tudo se resolve numa tentativa desesperada de diálogo entre seres cegos que utilizam a pancadaria acéfala para terminar com seus problemas. Ta aí, mais uma crítica da ParaNorman: à sociedade cega, surda e muda, marionetes do medo imposto pela mídia em geral, à sociedade violenta onde o mais puro apelo de socorro verdadeiro é perdido entre balburdias e agressões verbais cegas. E vemos então outra crítica: à falta de diálogo entre pais e filhos, essa distância de eras que não se compreendem, talvez por não falarem a mesma língua, talvez pela inveja que existe da maturidade pela juventude, talvez por não estarem na mesma onda vibratorial (e encaixe aqui todos os argumentos filosóficos e espirituais que conheças), abre-se um enorme abismo entre seres que moram tão perto, um enorme muro berliniano entre suas realidades, e passa-se à total incompreensão de ambas as partes que procuram o porquê de atos tão estranhos do outro em resposta aos seus.

     
E é isso que vemos na gama de relacionamentos dos filmes: os excluídos sociais, os excluídos familiares, os narcisistas perdidos dentro de si, os brutos incompreensíveis, os mansos delicados, os idiotas monstruosos, os especiais, todos juntos num só balaio de gato tentando se comunicar da maneira que conseguem, verdadeira torre de Babel, em suas linguagens dicotômicas que logo viram um grito enorme de incompreensão mútua. A descoberta do sexo e da violência também são marcados, ainda que de passagem, no filme, com pequenas piadas que devem deixar os pais de cabelo em pé nos cinemas junto dos filhos, por serem inesperadas de saírem da boca de criaturas tão bonitinhas. Bonitinhas e cheias de problemas, como todos nós e isso, ah, isso sim assusta; onde já se viu um filme de animação ser tão real em sua surrealidade?


Para mim, os roteiristas e animadores estão de parabéns pela ousadia que sempre precisou existir nessa esfera de filmes. A fábula e a trama é bem diferente, com subtemas de muita discussão, tais como: a exploração capitalista em cima de um fato histórico, vida e morte, realidades, o medo do ser humano explodindo por todos seus poros, a cegueira da violência, o “bullying” nas escolas e em todos outras dimensões existenciais da vítima, a amizade além das diferenças, a quebra do maniqueísmo, as escolhas e suas respostas futuras, a falta de diálogo e compreensão, a sexualidade, e talvez mais, para aqueles que enxergam além do meu horizonte encaixotado. E além de toda essa profundidade tão bem desenhada numa camada lúdica e fluida (tanto que nem percebemos quão pesado é tudo aquilo que passa correndo pelos nossos olhos) o filme é uma grande homenagem aos filmes clássicos de terror. Sim, ParaNorman nada mais é que, além de tudo isso, uma animação stop-motion de humor negro e terror infantil e posso dizer, sem nenhuma vergonha, que até eu fiquei temeroso certos momentos.


O que mais me surpreendeu foi o modo gracioso em que tocaram com a temática vida e morte, brincando com essa fina linha que separa os mortos e vivos e que foi tanto mexida ao longo dos anos. Não vi nenhum outro filme falar disso com tanta franqueza (fora Mary and Max). A cena final das descobertas e do alívio de uma alma presa na dureza da terra e por isso muito, muito brava, é de uma beleza tocante. Da música aos diálogos à arte visual, tudo paira numa fluidez espectral, afinal, tudo é muito belo, sabe?, aquela beleza rara e frágil de uma criança?, isso se encontra em momentos duros, o amor entre os espinhos tesos loucos para arrancar sua pele, a flor que nasce entre as ervas daninhas do desentendimento. O espectador apaixonado torce para um amor além dimensões, mas isso não é possível, nem numa animação, veja você. E ficamos na mão, mesmo felizes, porque o ser merece um pouco de amor no meio de tanta falácia, arrogância e solidão. Ao fim ele tem, tem sim, mas o quanto se desgastou pra isso é muito maior.


Hoje, posso marcar ParaNorman junto das minhas animações prediletas (Wall-e, Toy Story, Procurando Nemo, O Estranho Mundo de Jack [que é um clássico nesse quesito], Mary and Max [essa vale fazer uma resenha a parte também] e outros amigos que aqui me esqueço) e se não assistiu, por favor, desliga esse computador e vai alugar o mais rápido possível. E sim, chama os primos, os parentes, a avó, a mãe, os amigos, é um filme universal que fala todas as línguas em sua ousadia deliciosa. Deixo aqui a bela trilha sonora da parte final, que é muito tocante (especialmente a partir dos 2:10 do vídeo, se não tiver paciência, pule pra esse momento, dispa-se de si e sinta).

























sábado, 26 de janeiro de 2013

O que é arte? O que é poesia?

O que é arte? Poesia está em todo lugar e em todos ou é um dom de poucos? A perspectiva forma o poeta? O suor? A sensibilidade? E essa perspectiva, esse suor, essa sensibilidade... estão eles ao alcance de qualquer um? Antônio Abujamra entrevista Michel Melamed em seu programa Provocações; uma das melhores e mais produtivas entrevistas que tive o prazer de ver (viva a internet).

Michel é a cara da poesia irreverente, solta, pós-moderna ou que o valha, que não se prende a títulos, não se prende a nada, mas clama como um vulcão interno por se expressar, por entrar em erupção em lava quente de verborragia e imagens. Abujamra é o clássico, culto, literário, acredita que poesia é para aqueles que são verdadeiramente poetas. Mas o que é ser poeta e o que é "poetar"? A poesia está em quem compõe ou em quem recebe? Ou é a mensagem própria, aquele intermediário entre um e outro? Talvez seja isso, afinal, aquele elo que consegue unir duas pessoas que sequer se conhecem de uma forma tão forte, tão intensa, tão... emocional... 


Postei isso alguns dias atrás no meu facebook e é com essa discussão que gostaria de fazer meu post inicial do blog. O que é poesia, o que é arte, etc... são temas que recorrem nas discussões que tenho com o Horácio e, espero, virão à tona nesta humilde página que, por mais que se proponha a ser um lar de resenhas caseiras, é também um espaço livre para discussão. Bueno... segue a entrevista, dividida em três partes:





Parte 1




Parte 2



Parte 3