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sábado, 21 de dezembro de 2013

Cine Holliúdy e o que realmente importa

Acabo de ver pela segunda vez Cine Holliúdy, filme cearense que, na terra natal, desbancou grandes blockbusters como o novo filme do Wolverine e coisa e tal.






Meu primeiro encontro com a obra de Halder Gomes foi em Salvador, quando o filme ainda só estava em cartaz nas salas do Nordeste. Já trazia consigo o crédito de ter sido uma das maiores audiência no Ceará, o que atraiu a atenção minha e da Julia, minha namorada. Seguindo meus rituais, não li resenha ou descrição (mesmo porque não tinha nenhuma além do sucesso no estado primo) e fui ver cru o filme, sem saber bem o que esperar. O filme, falado no exótico dialeto do cearensês e legendado em português para a compreensão geral, conta a saga de Francisgleydisson, um apaixonado pela sétima arte, e sua família na tentativa de montar um cinema. Passado nos anos 70, Francisgleydisson vê se aproximar a invasão da televisão, que coloca em jogo a relevância sócio-cultural do cinema. Mais do que uma luta para manter a magia do cinema viva - porque é disso que se trata no filme, da magia, do encantamento, do fascínio que estão contidos na telona, na produção; aquele outro mundo, ideal (ou não), mágico, onírico, que nos hipnotiza e nos permite sonhar e continuar sonhando -, o filme retrata o embate entre público e particular, comunidade e indivíduo, a interação e o isolamento, o cinema e a televisão.
Halder Gomes, diretor, roteirista e cearense
E o que poderia ser uma emocionante homenagem ao poder, o valor e o amor pelo cinema, transforma-se, nas mãos e coração de Halder Gomes, com todo - e muito, muito bem vindo - seu regionalismo cearense (toda a sua cearensidade), em uma grande homenagem à história contada, à narrativa que é tão característica da cultura nordestina, e, talvez mais importante, traz a magia como construção coletiva, dando absoluta voz ao espectador, que se recusa a apenas "espectar", mas insiste em participar, construindo junto, transformando junto, sonhando junto.

Quando entrei na sala, que deveria ter no máximo 30 pessoas, admito, duvidei do filme. Mas não poderia ter assistido melhor filme em melhor lugar. Se foi coincidência ou não, não importa, mas todos aqueles 30 baianos riam com gosto ao ouvir uma gíria esquisita do Ceará ou uma piada, por mais boba que fosse, puxavam o ar quando surpresos, comentavam, participavam, nos fazendo (nós, cariocas inveterados, que achamos tanto muito de nós mesmos quanto da arte de fazer filmes) rir junto, comentar junto, nos surpreender junto. Enfim, interagíamos com a tela, aquela que já viva e sorrindo para nós, como se dissesse que éramos poucos mas éramos privilegiados por estarmos ali, vivendo o que realmente significa uma sala de cinema. E éramos vivendo juntos um sonho no meio do maior shopping center de Salvador.

Não vou me prolongar muito dessa vez... prefiro que veja o filme e, se já viu, reveja e de preferência no cinema. É um filme cuja simplicidade cativa e toca e que, os olhos fascinados e o coração envolvido, arrancaram de mim menos palavras do que emoção.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Folk e The Outside Dog (desculpe-me o Leitor, não consegui ser criativo no título)

"Folk é uma mulher que pariu todos os seus filhos sozinha, sem ajuda de médicos. O resto é tudo leite com pêra..."

Foi com essa frase que o Rafael Elfe, do The Outside Dog, acabou de postar aqui no Facebook que eu decidi começar uma resenha que vem sendo adiada faz meses. Em parte pela complexidade do que é o folk, em parte por falta de conhecimento e estrutura de minha parte, em parte, ao contrário, pela simplicidade do folk, de tudo o que deveria ser dito com poucas palavras, poucas notas. Elfe postou a frase juntamente com esse vídeo:






Agora sim eu posso me dedicar a fingir que sei do que estou falando. Em outras tentativas de começar o texto eu falava da origem do termo, planejava falar de Bob Dylan, da música folk americana e da música folclórica, mas que se foda. Pro inferno com tudo isso, vou dar minha própria impressão, bem pessoal, do que é o folk.

Folk é a expressão máxima do povo por meio da música, é a fala-canto garranchada, o dedilhado autodidata feroz e a letra coracionada, emoção-alma enjuntada num canto sem platéia, porque o folk é do cancioneiro, mas é também do povo, é pro cancioneiro e é pro povo. É um berro de cultura, um ressoar de existência viva, muito viva, e reverberante. É o sertão, a lavoura, o pampa. É a condição própria do povo sentir-se povo, de reconhecer-se naquilo ali. É cantar a alma.

Em outro papo com o Rafael Elfe, conversávamos sobre a (então) nova banda dele, o The Outside Dog, e uma coisa que eu notei foi que, enquanto as antigas músicas eram compostas em inglês, as novas, após a entrada do Elfe, estão em português. Fui falar com ele a respeito disso e me contou que conheceu a banda num festival de folk (o All Folks Fest, em Sampa - https://www.facebook.com/AllFolksFest?fref=ts), e ficou amigo dos caras. O Elfe já tinha um trabalho solo bem bacana¹, que o levou para o festival, todo em português, enquanto o The Outside Dog compunha em inglês, com uma pegada mais pro folk americano. Ele me disse que vendo-o tocar sozinho com o violão, o pessoal da banda ficou tocado com a intimidade da coisa. E completa: "E [é] mais próxima à nossa língua mãe né, a comunicação. E claro, no meu caso, a não submissão, rs. Mas isso é coisa de quem está matriculado em ciências sociais, rs. S
empre achei legal defender a nossa coisa.". Acho que "defender a nossa coisa" é a melhor forma que encontro de simplificar o folk (novamente, é uma visão extremamente pessoal). 
A questão é que, seja como for, o The Outside Dog lançou um fantástico EP², já com o Elfe como integrante e com letras em português, e de tudo o que eu tinha ouvido deles e tinha gostado, mas sentido que faltava alguma coisa, agora me pareceu que a banda tinha encontrado o seja lá o que fosse que faltava para deixar o som, digamos assim, ideal. "Contramão", a primeira faixa do EP "Outros Caminhos Parte 1", é um ato de subversão e de defesa à nossa coisa. Deixo a letra com vocês: O dia mal começa, mas eu não tenho pressa 
Nunca vou perder o que não tenho 
E essa velha história, de viver atrás das horas 
E se julgam bem a frente do seu tempo 
De baixo dessa capa, escondem a verdade 
Se é que algum dia a tiverem 
Temem só aqueles, que fogem do modelo 
Que sempre julgam como verdadeiro 

Eu não compro o que vendem 
Eu não creio no que creem 
Eu não caio nessa história que foi tudo em vão 
De que estou na contramão 

De longe é maravilha, de perto a fantasia 
Só enxergam aquilo que tem preço 
O passo vai pra frente, mas parada está a mente 
Que há tempos deixou de trabalhar 
Se muito já é pouco, eu que sou o louco 
De não querer ir abordo desse trem 
Nada é o bastante, querem sempre o distante 
É se esquecem o que cresce bem aqui 

Eu não compro o que vendem 
Eu não creio no que creem 
Eu não caio nessa história que foi tudo em vão 
De que estou na contramão

Pouco importa, nesse caso, se tratar dum som gringo (que vem dos folks americanos), o grito é da terra. É da coisa nossa. É folk.






¹ Ouça o trabalho solo do Rafael Elfe: https://soundcloud.com/rafaelelfe e a página no Facebook: https://www.facebook.com/fantasmadoporao?fref=ts

² Ouça o novo EP do The Outside Dog, Outros Caminhos Parte 1, assim como suas outras músicas: http://www.theoutsidedog.com/

sábado, 26 de janeiro de 2013

O que é arte? O que é poesia?

O que é arte? Poesia está em todo lugar e em todos ou é um dom de poucos? A perspectiva forma o poeta? O suor? A sensibilidade? E essa perspectiva, esse suor, essa sensibilidade... estão eles ao alcance de qualquer um? Antônio Abujamra entrevista Michel Melamed em seu programa Provocações; uma das melhores e mais produtivas entrevistas que tive o prazer de ver (viva a internet).

Michel é a cara da poesia irreverente, solta, pós-moderna ou que o valha, que não se prende a títulos, não se prende a nada, mas clama como um vulcão interno por se expressar, por entrar em erupção em lava quente de verborragia e imagens. Abujamra é o clássico, culto, literário, acredita que poesia é para aqueles que são verdadeiramente poetas. Mas o que é ser poeta e o que é "poetar"? A poesia está em quem compõe ou em quem recebe? Ou é a mensagem própria, aquele intermediário entre um e outro? Talvez seja isso, afinal, aquele elo que consegue unir duas pessoas que sequer se conhecem de uma forma tão forte, tão intensa, tão... emocional... 


Postei isso alguns dias atrás no meu facebook e é com essa discussão que gostaria de fazer meu post inicial do blog. O que é poesia, o que é arte, etc... são temas que recorrem nas discussões que tenho com o Horácio e, espero, virão à tona nesta humilde página que, por mais que se proponha a ser um lar de resenhas caseiras, é também um espaço livre para discussão. Bueno... segue a entrevista, dividida em três partes:





Parte 1




Parte 2



Parte 3