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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Pontes para Si - Pitanga em Pé de Amora ou A Importância de Morrer.

       
            Ta aí a primeira resenha suicida do mundo. Vou te explicar, fantasma leitor.

Poucas vezes em minha vida posso dizer que me aproximei tanto da morte. Poucas vezes posso dizer que entrei em contato direto com minha existência, capaz de compreendê-la e soltá-la feito pássaro nesses meus labirintos e abraçar assim, em sorrisos, a atormentadora morte. Nesses momentos únicos, ímpares e paradoxais, a morte torna-se bichinho de estimação, um cachorro amoroso que nos lambe a face e nos molha em seu amor. A morte vira namorada, dá-nos a mão e beija-nos a boca e nos faz atingir o maior gozo já alcançado pelo humano frágil corpo. E ficamos lá, nós dois, eu e a morte, a valsear pelas ruas confusas e acinzentadas, eu pronto e puro para ser abatido, ela só a brincar comigo, pois nunca me ousou levar. Assim senti. A última vez, três anos atrás, era um dia nublado e vazio, meus pés no chão cinzento da cidade, nos ouvidos o Réquiem do Mozart, no corpo um prazer etéreo que só a musica pode vibrar. Ali eu pensei imediatamente que poderia morrer facilmente. Tão leve que era capaz da gravidade me refutar, do Sol me imantar, do corpo pulverizar-se naturalmente. Alguma alquimia poderosa e antiga acontecer ali, me metamorfosear em bando de pombas brancas, dentes-de-leão ou apenas cinzas ao vento...  Ali nada temia eu, abraçando Mozart em sua morte e velando seu corpo. Poucas vezes tive essa experiência pré-mortem e post mortem. Hoje, depois de tanto tempo, eu tive, ao ouvir o novo disco dos amados Pitanga em pé de amora. Morri completamente e renasci poderoso no fim de cada música. Cada célula sentindo as potências musicais e vibrando tão forte que não aguentavam a própria vida. Era isso meu corpo: show de fogos de células confusas se implodindo de prazer. Morri de dentro pra fora, inverti-me, e ao fim de cada experiência me renovei. Esse álbum, amigos, nos dá a chance de ser fênix finalmente.

Pontes par Si. Sem dúvidas o nome foi tão certeiro quanto cada música com que esses moços e moças nos presenteiam. Pontes, tantas pontes que confundem. E dentro do caos reina o sentido de ser e o sentido de existir tantas pontes e atalhos para Si. Nunca ouvi algo tão maduro, no movimento natural da lagarta se metamorfoseando em seu casulo até a libertação de suas asas. Nunca presenciei uma tomada de identidade e musicalidade tão afiada e, sim, afinada. Refinada. Sem fim. Enfim, nada pode explicar em palavras essa mutação tão natural dessa trupe musical, pincelando essas notas lindas de dó à (pontespara)si. Falo aqui, em minha pequenez de conhecimento, que esse álbum e essa reunião de amigos com a musica, toda essa brincadeira poética, esses trava línguas instrumentais, todo esse todo é o melhor resultado da musica nas minhas ultimas descobertas. Os Hermanos, Camelo, Amarante, Graveola, O Terno, Os Mulheres Negras, Orquestra Filarmonica, Cícero, Móveis Coloniais, e mais, esses tão grandes, tão bons, tão únicos em suas idiossincrasias e tão unidos nessa mesma vibração de fazer pulular a boa música em nosso cenário musical difícil são pitangas em pés de amora. São diferentes, apontados, são destacados, são deslocados. Somos assim todos nós. E por sê-los, para mim, é esse o álbum que maior se destaca na história dessa nova música que vem nos inundando (perceba: inundando, mas não afogando. Afinal, no prazer me inundo facilmente).

Eu aqui, sobre meu troninho de nada, no meu tamanhozinho pífio, me cubro com esse tecido tão bem costurado. Essa música madura e ecoante, que gruda e desgruda postas de nossa carne, nos põe pra sangrar. Temos que sangrar, senhoras e senhores! Aceitar nosso sangue, senti-lo e toma-lo! Tomar nossas misturas, nossos líquidos confusos, do mais árido ao mais cremoso, e nos entender inteiros. Temos que fazer essa endoscopia musical, esse exame de próstata sentimental para nos sentir cada musculo, cada fibra à flexionar, cada resposta natural ao todo. É isso que me senti, aliás, uma caixa de bateria batendo sozinho a cada música, extremamente afinado com todos os tons de Pontes para Sí. Uma impossível caixa de bateria afinada em todos as tonalidades do mundo. Devo isso, essa percepção, a eles. Essa percepção que devemos ser multi-instrumentais, extra-tonais, transcendentonais. Revolu-de-dó-a-si-onários.

E aqui, eu observador com catarata nos olhos, confuso nessa floresta árida de poesia e internos labirintos, eu que tão pouco sei e tanto ouso falar e gritar, pequenininho nos pés dos grandes, como uma criança, um bebê-pulga, posso afirmar em toda minha falta de autoridade em qualquer assunto (e aliás acho que é tão importante isso que vou dizer a seguir que vou botar em um parágrafo só para ele):

Tem certas coisas que merecem entrar para a História e a Identidade Musical de uma Nação (e perceba quantas maiúsculas, isso é realmente importante, leitor). Coisas como a Tropicália, a Bossa Nova, coisas Revolucionárias assim, marcantes cicatrizes belas. Pra mim o álbum ao qual ouvi hoje merece estar marcado para o futuro, porque é de tamanha excelência e profundidade que raro se vê e quase não se vê mesmo ali existindo. E em tudo toca, porque bebe direto dos nossos pais e dos nossos avós, na linda complexidade da bossa nova, do choro, do samba, do frevo, das marchinhas, coisas estritamente brasileiras. Passeia afinadamente entre todos esses mundos, brinca até com o funk, aceita a miríade social e musical brasileira. Fala do todo mirando nessa partícula minúscula e eternamente complexa que é o “si”, o cada um. É de cada um que se forma o todo, cada célula da nossa comunidade (veja, a própria palavra nos diz: comum-unidade).

Vamos morrer juntos, amigos. Morrer musicalmente, de dentro pra fora, abraçar esse vento sólido que nos toma. Vamos ouvir e aceitar essa possessão, beber dos exorcismos musicais. Sintamos na boca escorrer a excelência e um aplauso enorme à esperança! Uma ovação aos dedos e às bocas, às mentes, às poesias, uma salva de plumas e palmas tão grande que tenham a consistência de um cobertor e que cubra, enfim, nossos artistas. Artistas que devem ser sempre, fervorosamente abraçados e que precisamos sempre mostrar o quanto são importantes. Porque importantes são, por serem um outro capaz de nos fazer entrar em contato com nosso eu. Por serem, enfim, nossas pontes para si.

E não vou mentir, fiquei com invejinha dessas músicas tão bem arranjadas, poetizadas, cantadas, feitas em si. Quem sabe esse eu com minhas músicas tão quebradiças e engatinhantes chegue um dia nos pés desses senhores e senhoras? A mim basta o sonho, as asas eu desenho depois. Do mais, vale a pena. Acredita em mim. Acredita neste louco apaixonado, vai. Não vou te decepcionar. Vamos lá.


Vai, para de ler essa baboseira. 




De quebra, eles no programa Ensaio:



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Perro Negro



Recebi meu exemplar de "Perro Negro" hoje, pelo correio. Um exemplar bastante caseiro mesmo, feito à mão, suor e amor, como sei bem. A embalagem de plástico veio com um lindo desenho do artista, Rafael Elfe, obra de sua talentosa namorada, Mayara Nardo. Peguei o CD EMTEC gravável de 80 min, desvirginado pelo "Perro Negro" e "R. Elfe" escritos à mão, e o coloquei no rádio; o potente violão que já tive prazer de ver em ação ressoava nas caixas de som que herdei do meu avô (junto com sua vitrola/cd-player que exibo orgulhosamente no meu quarto). Já conhecia a faixa. De fato, com exceção de uma música apenas (a da faixa 4), eu já conhecia o cd de trinta e tantos minutos inteiro. Mesmo assim, a música que dançava pelo quarto era inteiramente nova e ainda parece ser toda vez que coloco para ouvir.


"Amor para meu Amor", Rafael Elfe por Mayara Nardo


A gravação caseira do disco (que já é intimista por si) nos permite entrar na atmosfera em que estava o artista: os pássaros que podemos ouvir em Tanto Faz, o ocasional som de vento e de ar de casa. O barulho de sol que invade as notas... O sentimento de nublado que dá tom na voz...
Ela nos dá a sensação máxima de intimidade, como se fizéssemos parte daquele momento tão embrionário da criação musical, aquele momento de inspiração e satisfação quando tocamos a música que criamos pela primeira vez e sentimos que ela está viva e preparada para ser chamada de "pronta". 


Eu ouço Perro Negro de olhos fechados. Assim, as tantas imagens que ele traz conseguem invadir sem interferência... Os sons se misturam... as notas cantam o coração e a voz orna a lírica e poesia de cada canção e formam uma unidade reconhecível sob a bandeira do poeta, do músico.

O disco é, em sua totalidade, uma (infelizmente) curta mas densa e palpável jornada pela alma do artista, tão semelhante a tantas outras; os sonhos, as paixões, as revoltas, as doçuras, os momentos de melancolia...
No fim, acho que não consigo expressar bem o que sinto com o som do Elfe, digo apenas que é certo. É um som certo. É um som que sai não do rádio, mas de dentro, que nos invade, nos faz pensar, sentir, gela a espinha e faz sorrir ao mesmo tempo. É um som que fala conosco. Que nos faz ficar bem e em boa companhia. Resumindo, é um som muito melhor sentido do que explicado.



Perro Negro por Mayara Nardo


Abaixo, uma das minhas favoritas do disco, Larga Tudo e Vem:

https://soundcloud.com/rafaelelfe/larga-tudo-e-vem?in=rafaelelfe/sets/perro-negro

e a canção que dá nome ao álbum:
https://soundcloud.com/rafaelelfe/perro-negro?in=rafaelelfe/sets/perro-negro



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Folk e The Outside Dog (desculpe-me o Leitor, não consegui ser criativo no título)

"Folk é uma mulher que pariu todos os seus filhos sozinha, sem ajuda de médicos. O resto é tudo leite com pêra..."

Foi com essa frase que o Rafael Elfe, do The Outside Dog, acabou de postar aqui no Facebook que eu decidi começar uma resenha que vem sendo adiada faz meses. Em parte pela complexidade do que é o folk, em parte por falta de conhecimento e estrutura de minha parte, em parte, ao contrário, pela simplicidade do folk, de tudo o que deveria ser dito com poucas palavras, poucas notas. Elfe postou a frase juntamente com esse vídeo:






Agora sim eu posso me dedicar a fingir que sei do que estou falando. Em outras tentativas de começar o texto eu falava da origem do termo, planejava falar de Bob Dylan, da música folk americana e da música folclórica, mas que se foda. Pro inferno com tudo isso, vou dar minha própria impressão, bem pessoal, do que é o folk.

Folk é a expressão máxima do povo por meio da música, é a fala-canto garranchada, o dedilhado autodidata feroz e a letra coracionada, emoção-alma enjuntada num canto sem platéia, porque o folk é do cancioneiro, mas é também do povo, é pro cancioneiro e é pro povo. É um berro de cultura, um ressoar de existência viva, muito viva, e reverberante. É o sertão, a lavoura, o pampa. É a condição própria do povo sentir-se povo, de reconhecer-se naquilo ali. É cantar a alma.

Em outro papo com o Rafael Elfe, conversávamos sobre a (então) nova banda dele, o The Outside Dog, e uma coisa que eu notei foi que, enquanto as antigas músicas eram compostas em inglês, as novas, após a entrada do Elfe, estão em português. Fui falar com ele a respeito disso e me contou que conheceu a banda num festival de folk (o All Folks Fest, em Sampa - https://www.facebook.com/AllFolksFest?fref=ts), e ficou amigo dos caras. O Elfe já tinha um trabalho solo bem bacana¹, que o levou para o festival, todo em português, enquanto o The Outside Dog compunha em inglês, com uma pegada mais pro folk americano. Ele me disse que vendo-o tocar sozinho com o violão, o pessoal da banda ficou tocado com a intimidade da coisa. E completa: "E [é] mais próxima à nossa língua mãe né, a comunicação. E claro, no meu caso, a não submissão, rs. Mas isso é coisa de quem está matriculado em ciências sociais, rs. S
empre achei legal defender a nossa coisa.". Acho que "defender a nossa coisa" é a melhor forma que encontro de simplificar o folk (novamente, é uma visão extremamente pessoal). 
A questão é que, seja como for, o The Outside Dog lançou um fantástico EP², já com o Elfe como integrante e com letras em português, e de tudo o que eu tinha ouvido deles e tinha gostado, mas sentido que faltava alguma coisa, agora me pareceu que a banda tinha encontrado o seja lá o que fosse que faltava para deixar o som, digamos assim, ideal. "Contramão", a primeira faixa do EP "Outros Caminhos Parte 1", é um ato de subversão e de defesa à nossa coisa. Deixo a letra com vocês: O dia mal começa, mas eu não tenho pressa 
Nunca vou perder o que não tenho 
E essa velha história, de viver atrás das horas 
E se julgam bem a frente do seu tempo 
De baixo dessa capa, escondem a verdade 
Se é que algum dia a tiverem 
Temem só aqueles, que fogem do modelo 
Que sempre julgam como verdadeiro 

Eu não compro o que vendem 
Eu não creio no que creem 
Eu não caio nessa história que foi tudo em vão 
De que estou na contramão 

De longe é maravilha, de perto a fantasia 
Só enxergam aquilo que tem preço 
O passo vai pra frente, mas parada está a mente 
Que há tempos deixou de trabalhar 
Se muito já é pouco, eu que sou o louco 
De não querer ir abordo desse trem 
Nada é o bastante, querem sempre o distante 
É se esquecem o que cresce bem aqui 

Eu não compro o que vendem 
Eu não creio no que creem 
Eu não caio nessa história que foi tudo em vão 
De que estou na contramão

Pouco importa, nesse caso, se tratar dum som gringo (que vem dos folks americanos), o grito é da terra. É da coisa nossa. É folk.






¹ Ouça o trabalho solo do Rafael Elfe: https://soundcloud.com/rafaelelfe e a página no Facebook: https://www.facebook.com/fantasmadoporao?fref=ts

² Ouça o novo EP do The Outside Dog, Outros Caminhos Parte 1, assim como suas outras músicas: http://www.theoutsidedog.com/

domingo, 17 de março de 2013

A maior terceira menor big band do mundo.



O "Antes de mais nada".

Dois jovens milenares
      Conheci Os Mulheres Negras como poderia não conhece-los, esbarrando nesses dois seres excêntricos pelo excêntrico caminho da minha vida repousada nas minhas pernas roliças, graças ao meu professor de piano que me mostrava Karnak (que merece um post só pra eles) e uma entrevista do André Abujamra, bem jovem, onde ele cita, rapidamente, seus projetos anteriores, e é nesse momento que meus ouvidos compreendem a estranha junção "Os Mulheres Negras" em vida. Foi apenas isso, coisa de microssegundos, e a mente marcou a ferro o nome peculiar e logo os dedos pegaram fogo nos youtubes e nos sites de downloads ilegais porém necessários dessa longa vida enferrujada.  E foi assim que, tomado por uma estranheza inicial, descobri-me ali dentro, na loucura dos dois homens brancos que multiplicavam-se como polvos enlouquecidos, formando o que eles chamavam de "A terceira menor big band do mundo".

O "Depois de mais tudo".

     Eles se consideram a terceira menor big band do mundo, mas com o passar dos tempos e com a modernidade passaram a ser a sétima menor big band do mundo, talvez com alguns cálculos inacessíveis aos seres humanos. Muitos consideravam que a primeira menor big band do mundo é ninguém mais que Hermeto Pascoal, mas eles respondiam que era quando um deles faltava no show ou no ensaio. De certo a segunda  menor big band era quando um deles era cortado pela metade. 


     São tão pequenos e poucos os que ousam falar deles que sobraram apenas um parágrafo e meio na Wikipédia e alguns videos perdidos pelo youtube. No site de cifras vigente (aquele do clube das cifras, sabe?) só existem duas músicas cifradas, e isso creio que na internet toda, ambas (mal)cifradas por este que aqui vos fala, que pretende fazer isso com as demais também, quando tiver mais tempo, afinal, cifrar obras de arte é destilação corporal de vida, sangue, suor e lágrimas. Sua existência é uma lenda, sua música é uma linguagem a ser decodificada, seus fãs são seres semi-extintos da lucidez Pouco de sua gênesis é conhecida. Lendas contam que os mortais André Abujamra e Maurício Pereira, divinamente encontraram-se em aulas de ritmos africanos e, talvez por algum feitiço de preto velho ou de divindades obscuras provindas da própria África com seus batuques e truques entroncados no próprio existir, transformaram-se os dois homens brancos em vários e, ainda por cima, em Mulheres Negras. 

O Crescer do Império.

     Desembestaram em séries de shows com outros seres caóticos e independentes, suas musicas alternativas e ilógicas soando aos ouvidos dos céticos e mostrando a todos que poderia sim existir mais de umas meia dúzias de deuses. Alguns vídeos sobraram do Grande Incêndio Cultural que existiu do passado dOs Mulheres, e dentre eles salvam-se o espetáculo psicodélico de "Só Tetele", com sua melodia peculiar, com seu baixo corredor e com sua letra quebradiça em uma antiga maldição africana de vício instantâneo ao que se ouve, a grande homenagem Beatleana "Sub" e o Grande Alerta Milenar sobre a suja destruição da natureza que ecoa em diversas linguagens e melodias da insana e multifacetada "Purquá Mecê" (além de outros que serão lembrados depois que eu falar o que quero falar, mesmo sem saber o que sairá de mim)

Só Tetele (eu sei que eles são belos demais, mas foque-se no poder da letra)


Sub


Purquá Mecê


     Da História de seu surgimento chegaram ao ápice de encontrar com um dos maiores magos da exposição, o eterno gordo e soaresco Jô, em plena juventude de seus milhões de anos, manipulador de todos os olhos, onde em plena arena éssebêtística se digladiaram com todos os poderes insanos e demoníacos e com todas as suas forças de ironias enjauladas. Dessa batalha, que os fez ficarem mais conhecidos, sobrou apenas uma série de vídeos, das quais deixo aqui a Primeira Santa Parte e, se aos mortais convir assistir os demais, que utilizem de suas forças e de seu suor para conseguir encontrar o resto dessa obra prima, onde eles tocam uma música-tributo ao Gran Villa-Lobos e falam de seu jornal e de sua caixa postal.

O Hiato Inexistente.

     Calaram-se por algum tempo. Mas a música continuou soando em nossos corações femininos e negros.

     Nesse tempo de calmaria em seus mares, de caminhos separados para fortalecimento e para recolher sabedorias para futuras loucuras, fizeram pequenas aparições, como no filme "Durval Discos" (que merece uma resenha à altura), adaptando a música "Mestre Jonas" de Sá, Rodrix e Garabyra.

Mestre Jonas, pel'Os Mulheres Negras



El Gran-Retorno.

     Voltaram, sem mesmo ter saído, e aí vinha um novo desafio: agrupar novos lunáticos das novas realidades sociais. O que conseguiram, afinal, e felizmente, ainda existem loucos entre os oceanos intragáveis da normalidade.

     Foi nesse momento que, dizem, descobriram que, com as modernidades, não eram mais a terceira menor big band do mundo, mas sim a sétima menor, descobriram também que com alguns botões em um notebook conseguiam fazer melhor do que aquelas parafernalhas enormes que pareciam robôs assassinos em seus shows e estúdios musicais. Só que, para compreender essa nova linguagem, precisavam ser alfabetizados. Humildes, como todos os gran-sobrehomens são, voltaram do zero e reaprenderam tudo para imperarem sobre todos como sempre.

     Assim, a caixa postal 20908, da onde nasceu o Jornal dos Mulheres Negras, caso você não viu a entrevista com o Jô Soares, oh alma inapta à existência!, virou twitter: https://twitter.com/20908 e o contato correial virou facebookiano: http://www.facebook.com/osmulheresnegras?fref=ts 

Os Mulheres, anos depois, imortalescos
     Voltaram a fazer show com as músicas e improvisações fantásticas a partir do século XXI, quando o 2000 começou a crescer em dezena também, e eu, humilde servo, fui assistir o primeiro show e me deparei com dois homens muito cansados e sentados. Chorei por dois mil anos. Porém, desacreditado e me sentindo infiel por ter pensado tal coisa, resolvi ver o vídeo do segundo show, uma outra reunião raríssima desses dois monstros, e eis que vejo, brilhando como  o sol, o Feitiço Africano dOs Mulheres Negras tomando conta de meu corpo novamente!

 Feridas, música cantada em diversas línguas antigas e, grande parte, no dialeto alienigena de Cthullu.



Relíquias Musicais.

Música e Ciência (1988)

     Durante sua estadia na Terra, Os Mulheres Negras deixaram uma larga discografia que contém dois discos infinitos, de tantas vezes que você vai repeti-los inesgotavelmente. O primeiro, a introdução de suas existências em nossa reles existência, chamado pura e simplesmente de "Música e Ciência" (1988), pois era isso o que queriam: misturar a música com os sons loucos de todas as ciências antigas do mundo. O rompimento da camada da realidade foi grande nessa, chegaram com o pé na porta e o tapa na cara e mostraram para todos qual era o seu Método, mostraram abertamente seus objetivos ("Fazer musica pop e quem sabe algum dia ficar rico e xarope) e mostraram, acima de tudo, que a música popular não precisa ser a mesmice de sempre, e sim um labirinto de situações inesperadas, clichês inesgotáveis que misturam-se formando obras de artes com suas bananas ao vento. Digamos que quase uma "Clockwork Banana".
     
     Dentre esse museu de peculiaridades se destacam as já citadas: Sub, Purquá Mecê e Feridas. As não citadas o serão agora, com licença.

     Com sua capacidade sobre-humana, Os Mulheres conseguiram vários feitos inesperados nesse primeiro álbum. Um deles era conseguir resumir vida e morte em apenas um minuto com essa música, "Elza", a qual eles chamam de biografia dechavada do Garrincha, Deus queira saber o que isso signifique, pois Eles, Os Mulheres, o sabem.

     Também, entre as surpresas do álbum angélico, Os Mulheres nos mimam com uma releitura do clássico "Summertime", com suas milhares de mãos polvônicas.


     Dentre outras músicas, ou seja, todas, que fazem do álbum a raridade que realmente o é.

Música Serve Pra Isso (1990)

    Depois disso, dois anos depois pra ser mais preciso, dois anos de muita labuta e refinamento, chegaram outros Mulheres, mudados, com uma levada mais melódica e lírica, mais construída ainda que pop, sempre melhores do que ontem e piores do que amanhã. Nesse novo álbum chamado "Música serve pra isso" diversas músicas se destacam. Falemos delas.

     A música-carro-chefe, "Musica serve pra isso" já vem de cara surpreendendo a todos com a insana lucidez de sua letra, a poética mordaz e confusa, a melodia deliciosa e espancadora. É o indizível que ousou ser dito. (infelizmente não consegui incorporar o vídeo ao blog, então toma o link apenas: http://www.youtube.com/watch?v=JAEBaKOoDu4 )

     Também a canção já citada "Só Tetele" e a não citada ainda "Guembô" que, com a magia africana que Os Mulheres vinham preparando, nos leva diretamente para uma aldeia em meio aos seus santos cânticos. (Infelizmente a música é bela demais e não é digna do youtube, então mando-lhes só o audio, pois é só disso que precisas: http://www.reverbnation.com/play_now/song_10195092# )

     Entre outras músicas como "Etiópia Mirim" e "John" se destaca a minha favorita. Chama-se "A Lavadeira, O Varal e a Saudade" e nela, sem "letra" alguma, Os Mulheres Negras conseguem resumir perfeitamente o sentimento da saudade. Imagino eu, em meus delírios, os olhos fechados e ouvidos atentos, ao som do triste baixo caminhante, a negra escrava ou semi-escrava pondo as brancas roupas no varal, a pele cansada ao sol, a mente cansada à vida, os lábios cansados cantando a canção incompreensível aos nossos ouvidos de seu povo cansado e esquecido. Vale a pena ouvir, dentre qualquer outra aqui citada: http://www.lastfm.com.br/music/Os+Mulheres+Negras/_/A+Lavadeira,+O+Varal+E+A+Saudade

     Também se destaca a divertida "Cabeludas" e a bela, triste e repetitiva "Common Uncommunicability" que fecha o álbum e (por enquanto) a Obra Mulheresnegresca com a chave de ouro da estranheza. ( Mais uma vez o Youtube dando uma de puta: http://www.youtube.com/watch?v=_PVzvxAVV0Y

     Dia desses, uns dois dias atrás no máximo, contando com a data desse post, Os Mulheres Negras soltaram na internet sua versão da música "A Rita" do Grand-Deus Chico Buarque para um documentário do porvir. Transformaram essa obra-prima em outra obra-prima. A primeira do lirismo, a segunda da loucura explosiva e melancólica dOs Mulheres Negras. Veja o invisível e ouça o inesperado.
      (argh Youtube, assim você não me ajuda, pessoas tem preguiça de clicar em links poxa! http://www.youtube.com/watch?v=UKlmXKDbyao )

Poslúdio.

     Enfim, falei e nada disse, pois não há palavras concretas que resumam o poder musical de qualquer um, inda mais dOs Mulheres Negras. Espero ter agregado alguns iniciantes, espero que tenhas ouvido tudo ou lido ao menos tudo, senão a metade, e se leu/ouviu a metade quer dizer que não está lendo isso e quer dizer que posso parar de escrever agora. Mas deixo aqui, para os que querem ter Os Mulheres Negras convosco, os mesmos, tão humildes, tão humanos, tão compreensivos, deixaram o seguinte link em  Sua Página Inicial, com os seguintes dizeres maquiavélicos e nostradamísticos:

     "por favor não não click nesse link abaixo

     são os dois discos dos mulheres negras

https://www.yousendit.com/dl?phi_action=app%2ForchestrateDownload&rurl=https%253A%252F%252Fwww.yousendit.com%252Ftransfer.php%253Faction%253Dbatch_download%2526batch_id%253DQlVpZEV4SU9Fc0k4RmNUQw"

Se eu fosse você, não o faria.

Os Mulheres Negras, hoje e sempre. Maurício mostrando que nada têm embaixo da manga e André deixando claro que não precisam ter nada embaixo da manga, já que tem o Olho Que Tudo Vê e estão observando você, nesse momento, terminar essa confusa des-análise.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"... mas que não seja nem velha, nem virgem, por favor"

   Todo homem que já se apaixonou sabe como é olhar entrando no ônibus, ou dançando tímida no canto do bar, ou quem sabe na fila do mercado aquela mulher linda, aquela sabe, que se encaixa em todos os seus padrões e, como um exímio exemplar do tal bicho homem, pensar "ahhh se eu pudesse comer ela..."  

   E é por isso que vos falo que o Velhas Virgens é, no meu ver, uma das maiores bandas de rock brasileiras  hoje em dia. Com mais de 20 anos de carreira pregando o bom e velho machismo saudável. Moças por favor não me entendam mal, estou a falar do orgulho de nossa testosterona, a sinceridade que falta hoje em dia na ditadura do politicamente correto.
    Suas músicas tratam de bebida, mulher, sexo e bebida quase que exclusivamente, sempre com bom humor e embalados por guitarras distorcidas, o verdadeiro rock'n roll. Eles não medem escrúpulos ao falar em suas músicas o que todos nós pensamos, mesmo que sem colocar em prática no nosso dia a dia. 
Eles são a banda perfeita para se embebedar com os amigos no final de semana, falando baixaria e se comportando como os machos que não somos em nossos cotidianos. Entendam, não estou advogando contra os bons modos, a fidelidade, o respeito às mulheres nem contra vossos fígados, estou apenas falando sobre o orgulho dos culhões que temos e - aparentemente - não lembramos. 
   Que embebedemo-nos, falemos baixaria e expressemos nossa virilidade que escondemos atrás de calças jeans, roupas lavadas e passadas e bons modos exagerados.  E que façamos tudo isso ao som do bom e velho rock dos Velhas Virgens, o som libertário para o homem tosco que existe dentro de todos nós, "homens modernos".