Um blog livre, aberto e despretensioso de resenhas caseiras, discussões acerca de... qualquer merda, na verdade...

autores até o momento:

Horácio Dib
Breno Crispino
Lucas Soneghet
Victor Fonseca
Lalesca Fravoline


Se quiser participar do blog, é só entrar em contato. Como já foi dito anteriormente, é um blog livre e aberto.
Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Pontes para Si - Pitanga em Pé de Amora ou A Importância de Morrer.

       
            Ta aí a primeira resenha suicida do mundo. Vou te explicar, fantasma leitor.

Poucas vezes em minha vida posso dizer que me aproximei tanto da morte. Poucas vezes posso dizer que entrei em contato direto com minha existência, capaz de compreendê-la e soltá-la feito pássaro nesses meus labirintos e abraçar assim, em sorrisos, a atormentadora morte. Nesses momentos únicos, ímpares e paradoxais, a morte torna-se bichinho de estimação, um cachorro amoroso que nos lambe a face e nos molha em seu amor. A morte vira namorada, dá-nos a mão e beija-nos a boca e nos faz atingir o maior gozo já alcançado pelo humano frágil corpo. E ficamos lá, nós dois, eu e a morte, a valsear pelas ruas confusas e acinzentadas, eu pronto e puro para ser abatido, ela só a brincar comigo, pois nunca me ousou levar. Assim senti. A última vez, três anos atrás, era um dia nublado e vazio, meus pés no chão cinzento da cidade, nos ouvidos o Réquiem do Mozart, no corpo um prazer etéreo que só a musica pode vibrar. Ali eu pensei imediatamente que poderia morrer facilmente. Tão leve que era capaz da gravidade me refutar, do Sol me imantar, do corpo pulverizar-se naturalmente. Alguma alquimia poderosa e antiga acontecer ali, me metamorfosear em bando de pombas brancas, dentes-de-leão ou apenas cinzas ao vento...  Ali nada temia eu, abraçando Mozart em sua morte e velando seu corpo. Poucas vezes tive essa experiência pré-mortem e post mortem. Hoje, depois de tanto tempo, eu tive, ao ouvir o novo disco dos amados Pitanga em pé de amora. Morri completamente e renasci poderoso no fim de cada música. Cada célula sentindo as potências musicais e vibrando tão forte que não aguentavam a própria vida. Era isso meu corpo: show de fogos de células confusas se implodindo de prazer. Morri de dentro pra fora, inverti-me, e ao fim de cada experiência me renovei. Esse álbum, amigos, nos dá a chance de ser fênix finalmente.

Pontes par Si. Sem dúvidas o nome foi tão certeiro quanto cada música com que esses moços e moças nos presenteiam. Pontes, tantas pontes que confundem. E dentro do caos reina o sentido de ser e o sentido de existir tantas pontes e atalhos para Si. Nunca ouvi algo tão maduro, no movimento natural da lagarta se metamorfoseando em seu casulo até a libertação de suas asas. Nunca presenciei uma tomada de identidade e musicalidade tão afiada e, sim, afinada. Refinada. Sem fim. Enfim, nada pode explicar em palavras essa mutação tão natural dessa trupe musical, pincelando essas notas lindas de dó à (pontespara)si. Falo aqui, em minha pequenez de conhecimento, que esse álbum e essa reunião de amigos com a musica, toda essa brincadeira poética, esses trava línguas instrumentais, todo esse todo é o melhor resultado da musica nas minhas ultimas descobertas. Os Hermanos, Camelo, Amarante, Graveola, O Terno, Os Mulheres Negras, Orquestra Filarmonica, Cícero, Móveis Coloniais, e mais, esses tão grandes, tão bons, tão únicos em suas idiossincrasias e tão unidos nessa mesma vibração de fazer pulular a boa música em nosso cenário musical difícil são pitangas em pés de amora. São diferentes, apontados, são destacados, são deslocados. Somos assim todos nós. E por sê-los, para mim, é esse o álbum que maior se destaca na história dessa nova música que vem nos inundando (perceba: inundando, mas não afogando. Afinal, no prazer me inundo facilmente).

Eu aqui, sobre meu troninho de nada, no meu tamanhozinho pífio, me cubro com esse tecido tão bem costurado. Essa música madura e ecoante, que gruda e desgruda postas de nossa carne, nos põe pra sangrar. Temos que sangrar, senhoras e senhores! Aceitar nosso sangue, senti-lo e toma-lo! Tomar nossas misturas, nossos líquidos confusos, do mais árido ao mais cremoso, e nos entender inteiros. Temos que fazer essa endoscopia musical, esse exame de próstata sentimental para nos sentir cada musculo, cada fibra à flexionar, cada resposta natural ao todo. É isso que me senti, aliás, uma caixa de bateria batendo sozinho a cada música, extremamente afinado com todos os tons de Pontes para Sí. Uma impossível caixa de bateria afinada em todos as tonalidades do mundo. Devo isso, essa percepção, a eles. Essa percepção que devemos ser multi-instrumentais, extra-tonais, transcendentonais. Revolu-de-dó-a-si-onários.

E aqui, eu observador com catarata nos olhos, confuso nessa floresta árida de poesia e internos labirintos, eu que tão pouco sei e tanto ouso falar e gritar, pequenininho nos pés dos grandes, como uma criança, um bebê-pulga, posso afirmar em toda minha falta de autoridade em qualquer assunto (e aliás acho que é tão importante isso que vou dizer a seguir que vou botar em um parágrafo só para ele):

Tem certas coisas que merecem entrar para a História e a Identidade Musical de uma Nação (e perceba quantas maiúsculas, isso é realmente importante, leitor). Coisas como a Tropicália, a Bossa Nova, coisas Revolucionárias assim, marcantes cicatrizes belas. Pra mim o álbum ao qual ouvi hoje merece estar marcado para o futuro, porque é de tamanha excelência e profundidade que raro se vê e quase não se vê mesmo ali existindo. E em tudo toca, porque bebe direto dos nossos pais e dos nossos avós, na linda complexidade da bossa nova, do choro, do samba, do frevo, das marchinhas, coisas estritamente brasileiras. Passeia afinadamente entre todos esses mundos, brinca até com o funk, aceita a miríade social e musical brasileira. Fala do todo mirando nessa partícula minúscula e eternamente complexa que é o “si”, o cada um. É de cada um que se forma o todo, cada célula da nossa comunidade (veja, a própria palavra nos diz: comum-unidade).

Vamos morrer juntos, amigos. Morrer musicalmente, de dentro pra fora, abraçar esse vento sólido que nos toma. Vamos ouvir e aceitar essa possessão, beber dos exorcismos musicais. Sintamos na boca escorrer a excelência e um aplauso enorme à esperança! Uma ovação aos dedos e às bocas, às mentes, às poesias, uma salva de plumas e palmas tão grande que tenham a consistência de um cobertor e que cubra, enfim, nossos artistas. Artistas que devem ser sempre, fervorosamente abraçados e que precisamos sempre mostrar o quanto são importantes. Porque importantes são, por serem um outro capaz de nos fazer entrar em contato com nosso eu. Por serem, enfim, nossas pontes para si.

E não vou mentir, fiquei com invejinha dessas músicas tão bem arranjadas, poetizadas, cantadas, feitas em si. Quem sabe esse eu com minhas músicas tão quebradiças e engatinhantes chegue um dia nos pés desses senhores e senhoras? A mim basta o sonho, as asas eu desenho depois. Do mais, vale a pena. Acredita em mim. Acredita neste louco apaixonado, vai. Não vou te decepcionar. Vamos lá.


Vai, para de ler essa baboseira. 




De quebra, eles no programa Ensaio:



domingo, 13 de julho de 2014

O asfalto no beijo.


Ser homem ou ser humano


“Arandir (numa alucinação) – Dália, faz o seguinte. Olha o seguinte: diz à Selminha.
(violento) Diz que, em toda minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto. Pela
primeira vez. Dália, escuta! Pela primeira vez, na vida! Por um momento, eu me senti bom!’




Em 1960, Nelson Rodrigues publicou “O Beijo no Asfalto”. Nessa obra, um homem morre atropelado por um ônibus e em seu leito de morte pede ao outro homem que se projetou para ajuda-lo um beijo na boca. O homem o faz. O homem beija o homem na boca. E a partir daí o homem é caçado, esquartejado socialmente, destroçado em sua sensibilidade, expostas tripas podres e vergonhosas. Um beijo no asfalto, tão sujo como o solo, tão sujo como o sangue, aquelas bocas delicadas se tocando, os bigodes espetando o rosto com barba por fazer, a boca do agonizante já com gosto de seu sangue, fazendo do beijo um evento maior que o beijo. Havia asfalto no beijo. Câmeras, imprensa, sensacionalismo, delegacia, três tiros. Não é o melhor futuro que espera nosso herói, o homem que ousou beijar o moribundo. O motivo? Nenhum. Atender um pedido. Atender um último pedido. Natural, assim. Assim como é natural morrer por um beijo proibido. O homem beija por sensibilidade, delicadeza que aflora. Beija por sentir necessário o beijo no cadáver pedinte. O asfalto também é beijado, é onde o corpo do homem atinge. O fundo do poço. Jamais questiona a si mesmo: o beijo no asfalto foi o mais próximo a ser bom.

Nelson Rodrigues nos entrega uma história que surpreende em sua simplicidade e audácia, em sua super-humanidade, em sua agressiva corrupção. O "Anjo Pornográfico" não usa de sua "pornografia" aqui, ele abre espaço pro amor e pras leituras sociais do mesmo. Nelson Rodrigues nos atropela e nos beija, enfim, agonizantes. Falas rápidas, entrecortadas, como falas de verdade são. É uma peça, oras, a mímese perfeita da fala humana, Aristóteles totalmente orgulhoso ou se suicidando eternamente no céu ou inferno que se encontra (talvez inferno, por ter dado beijos em homens com ou sem asfalto). Os temas abrangem caminhos enormes e reflexões ainda maiores. Me movimentou até aqui, nessa ínfima gota de meu suor, e me movimenta ainda mais. Porque em mim houve um mergulho, me senti o homem que beija o morto, me entendi assim. E entendi a bondade que o personagem Arandir sentiu, e entendi a grandiosidade de um beijo no asfalto. Senti, enfim, a dor da incompreensão e das jaulas fálicas de um mundo mentalmente castrado e domesticado erroneamente. 


Imagine você, o ápice da bondade humana: doar seu beijo ao homem que pede em seu único momento. Doar, ao homem moribundo, o filete de alegria e prazer para suportar a dor. Ou talvez uma certeza, Um carinho. Uma réstia de amor. Mas não é disso que se trata. Não podemos ser bons assim. O homem bota peso nas costas do próprio homem. E ele tem sempre que ser apto para carregar, qualquer deslize, qualquer piscadela, é o fim como um beijo no asfalto. A eterna existência dos homens são homens que agonizam no chão e outros homens que negam o beijo derradeiro, ou os raros que realmente os beijam e que são julgados e mortos, enfim, banidos do império dos machos. É a voz sentimental calada, é a veia poética esturricada pela falta de alimento. Boca é pra chupar. Pra falar palavrão. Pra morder lábio de fêmea e teta. Poesia não transcorre dessa boca, não de boca que não sorve poesia, o asfalto seca, veias abertas do solo gritante, sem beijos, sem piedade. Raro ver homem se abrindo pra homem. Raro ver choro de homem, lágrima na barba, lágrima na masculinidade. A única coisa que chora é a cabeça do meu pau, ouço. Sim.




Duvido de minha posição de homem. Figura masculina tive em momentos diferentes e não dei atenção a elas. O futebol nunca fez parte do meu vocabulário ou vontade. Tampouco brigar. Tampouco pegar mulher como se pega o lixo que estourou no chão. Mijar envolta de si e do que é seu nunca me foi algo a passar pela cabeça, marcar território como bom macho alfa. Ser másculo, ser duro e inflexível. Em mim sempre brotou a poesia, a música, a sensibilidade, a observação. Homem age, eu olho. Homem é bem sucedido, eu falho em tanto. Duvido, se é isso ser homem, do que sou. Viadagem, devem pensar. Pensem.

Se isso for homem, essa virilidade azeda e falsa, essa selvajaria acéfala e repetitiva, essa brutalidade calosa e enrugada. Se é isso ser másculo, o soco sempre pronto e certeiro entre os dedos, os dentes presos com xingamentos e putaria, os paus sempre muito duros e enormes, briga de falos, potências sobre potências. Se é isso não sou isso. Sou o resto disso. O resto do que ser homem é. Sou o intermédio, sou sem remédio, enfim. O homem me refuta de seu clube. Tem que ser mais homem, rapaz.

Sinto pena das vendas nos olhos que choram por dentro, dos músculos estourando que tampam o cérebro, do sorriso desesperado pro espelho acreditar. Esse clube de machos com paus em riste, proibido menor de vinte centímetros pra entrar. Sinto pena da prisão que o homem se encarcera pra provar ser homem pra si mesmo. Porque os outros nem estão ligando. Ele precisa da aprovação dele, apenas. O homem não produz lágrimas ou sentimentos. O homem não se abre para amigos, nem amigos muito íntimos ele tem. O homem de verdade só pode prosperar, não existe falência, não existe inércia, você é um homem ou um rato? Seja homem, levanta. Seja homem, não humano.


É muita coisa em cima do homem e aquele que não conseguiu evoluir músculos para carregar o fardo que a si mesmo impõe, aqui não vive. A tacha de suicídios entre homens é a maior, os homens são insatisfeitos consigo mesmos, como? Talvez o desenho que esperam de si não é o que consigam. Talvez a criação de ser homem seja transcendente demais, seja um ser perfeito demais para nós alcançarmos, o homem é um mito. Porque às vezes não se consegue ser homem e falhamos sendo humanos, acontece bastante. E vem o julgamento do outro, e vem a difamação interna e externa, e vem os questionamentos que todo um percalço de autocriação traz.  O homem é fruto do homem.  O homem é o homem do homem (Plauto e Hobbes que me perdoem). O homem é sua própria vítima. O homem é tão homem que às vezes se cansa. E à noite, no escuro atrás de nossas pálpebras, o homem se deixa atropelar e pede, dolente e ensanguentado, o beijo a outro homem.

   Leia mais sobre o assunto: https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/pelo-direito-de-broxar-falir-e-ser-sensivel-campanha-pede-que-homens-libertem-se-do-machismo/

 Ou só veja o vídeo:



No final não falei da obra do Nelson Rodrigues. 
E falei.


Assistam o filme de  1981.

O Beijo no Asfalto - Nelson Rodrigues 




segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Demian ou Não postamos só babação de ovo

Antes de mais nada

Por favor, leiam o livro antes de ler isso ou não levem em conta nada do que foi escrito. Obrigado.

Mais nada

A impressão básica que tive de Demian, a princípio, foi de que era um livro extremamente arrogante. Agora, isso deve parecer de grande arrogância de minha parte, isto é, chamar um ganhador do Nobel que foi Hesse de arrogante em um de seus livros mais famosos. De fato, o chamo assim talvez por não ter tido contato com o resto de sua obra, talvez por não ter compreendido a essência do que há no livro... não sei... Isso é a vossa majestade, o leitor, quem irá julgar. Mas tenho lá meus motivos, certo? Não são (apenas) disparates. Vamos então entrar no mundo de Demian, tal como eu o absorvi.


Apresentação

O protagonista em primeira pessoa é Emil Sinclair, embora eu apenas saiba de seu primeiro nome pela orelha, já que não me lembro dele ter alguma vez sido mencionado na edição que li. Enfim, isso não é importante. Sinclair, então, começa o livro em um prólogo, explicando que vai contar a história de sua vida, dando uma breve explanação de como é o homem. Já daí o ambicioso (e, porque não, pretensioso) projeto de Hesse me bateu no estômago. Já ouvi e li muitas versões do que é o homem, o que ele aspira, o que ele representa. Versões que se contradizem e tem pouca base além da experiência pessoal do autor. A de Hesse, ou de Sinclair, aparentemente não sai muito disso. Mistura sua visão de mundo com um misticismo confuso, determinista e, porque não, elitista, para dar luz a uma estranha diferenciação entre homens e seu objetivo na vida. Agora, a coisa interessante disso tudo é que o personagem Emil Sinclair é retratado como alguém fechado, evita ou tem dificuldade em interagir e tudo o mais. Ainda assim, ele apresenta visão de como são todos os homens - sem os conhecê-los. É enervante. Todas as suas características de exclusão social são vistas, no fim das contas, como glorificantes. Quem já viveu a solidão sabe bem que de enaltecedor não há nada. Sabe também o estranhamente comum que é o desprezo pelo resto do mundo. Talvez cheguemos a conclusão que, no final, Sinclair era apenas um garoto tentando achar seu nicho... Bom, não vamos nos apressar... chegaremos ao final.

Personagens e Ensaio

A forma como o autor conduz o livro também é algo que me incomodou. Sendo Sinclair o narrador personagem que conduz a história, talvez até seja justificável, mas no entanto, temos Dom Casmurro, que eu inevitavelmente uso para comparação, vindo de Machado, escritor brasileiro sem Nobel (e como poderia ser diferente?) que vive pouco antes e durante parte do período de Hesse e de cuja obra ainda infelizmente desconheço tanto, mas que já causou o impacto com os parcos livro e poemas que li. Que absurda comparação é essa? Ao narrar a própria vida, o que Sinclair faz é utilizar-se de acontecimentos vividos para, e talvez seja essa a questão do livro, argumentar um ponto de vista. O grande problema é que ao fazê-lo, boa parte, senão todos os personagens do livro, parecem extremamente artificiais, despidos de emoção e personalidade. Principalmente o que dá nome ao livro, Max Demian. Fiquei surpreso de no início do livro, enquanto Sinclair ainda frequentava a escola com Demian, isso ser anunciado em voz alta pelo narrador, mas nunca explicado. Demian era frio e sem emoções, um morto vivo que andava por aí filosofando com nove anos de idade. Uma criança que não se importa de matar outra se esta a está aporrinhando porque, "são decisões que um homem precisa fazer" ou algo assim. É coisa de doido mesmo. O único personagem que talvez saia desse balaio é o próprio Sinclair, este muito mais desenvolvido e interessante, apesar de algumas sequências de ações duvidosas e praticamente inteiramente ilustrativas. Talvez por ser o narrador. E é aí que eu faço uma provavelmente esdrúxula comparação com Bentinho. Bentinho também é narrador e a nós talvez os personagens de Dom Casmurro se mostrem distorcidos pela visão do personagem. Mas são todos, em seu jeito rebuscado e novecentista de ser, extremamente complexos emocionalmente, interessantes, diferentes, etc... Senti carinho por José Dias ou temor e respeito pela mãe de Bentinho, mas com Demian, minha sensação é que os personagens estão lá para ajudar a construir uma argumentação. Longos e inverossímeis diálogos em que Sinclair e, logo, o leitor, são quase que didaticamente ensinados os pensamentos do autor me fazem misturar Sinclair e Hesse e, no final, não ver muita coisa de história no livro. Interessa-me o que tem para falar, mas o fim que levou Sinclair, Demian, ou os outros personagens, pouco importa. E assim pareceu ao autor também, pelo visto, quando depois de falar tudo o que tinha para falar, abortou o livro em uma inércia paumolescente para quem esperava... alguma coisa. A coisa é que Demian mais parece um ensaio que utiliza o romance como formato do que um romance propriamente dito.

Maniqueísmo e Abraxas

Uma das coisas que é bastante frisada no livro é a síntese da dicotomia bem e mal (e suas intermináveis variantes) dentro de uma mesma coisa. Lá pro meio do livro o autor dá nome a essa coisa: Abraxas. É um dos argumentos principais do livro que existem dois mundos, o iluminado, seguro, puro, etc... que seria representado, na infância, pela casa da gente, nossos pais, etc... E aí tem o outro mundo, um mundo perigoso, sujo, o mundo das ruas, dos bordéis, das tavernas e essa coisa toda... um mundo que fascina Sinclair desde criança. Os dois mundos acabam fundindo-se e encontrando sua síntese em Abraxas, que eu não tendo pesquisado sobre, não sei se faz parte da mitologia do livro ou é coisa real, mas se trata justamente de um "deus", se é que podemos chamar assim, que é bom e mau, e que na verdade pode ser qualquer coisa e é tudo. Isso é interessante para se quebrar com o maniqueísmo católico com o qual Sinclair convive na infância, muito apesar de adicionar pouca complexidade além dele ao fenômeno da vida. Veja, Abraxas não nega o maniqueísmo, ele, pelo contrário, o aceita, o abraça e faz dele parte de si. O maniqueísmo se torna duas faces de uma mesma coisa, mas ainda é maniqueísmo. Isso dá um caráter de dualidade a tudo, e, no caso do livro, aos personagens também. Sinclair em dado momento de sua vida começa a frequentar tavernas e beber muito. Logo depois vira um santo casto iluminado por uma figura de musa platônica. Então descobre Abraxas e passa a dedicar sua vida a isso, à coexistência do bem e do mal, sempre usando como parâmetro os valores cristãos, talvez, não sei.
Bem e mal são referenciais, como bem sabemos. Mesma coisa é o certo e o errado. Se abortar é certo para uns, é também errado para outros. Aborto, então, ao invés de ser uma coisa que coexiste entre o certo e o errado, como eu acredito que seja a ideia no livro, é, na minha opinião, algo que existe e ponto e daí as pessoas tiram suas conclusões. Imprimir a impressão pessoal de alguém como característica da coisa me é estranho e tais noções sempre serão pessoais. Não obstante, gosto da forma como Hesse lida com a dicotomia, talvez mais forte na Europa. Voltando à Machado, também em Dom Casmurro, os personagens evitam tal taxação. Por mais que Bentinho, enquanto narrador,  tente imprimir em Capitu a característica de má ou coisa que o vale, no fim das contas é o leitor quem vai definir o que vale o que na história e se não é, afinal, Bentinho quem degringolou. Lembrando que Machado não é Nobel. Uma das maiores injustiças da história da literatura. Foda-se. Voltemos.

Misticismo

Outra característica forte do livro é sua pegada pro misticismo. Este, admito, tenho grande preconceito. No livro, no entanto, não é quando Demian diz que se você está pensando numa coisa com afinco, ninguém te incomodará nem quando ele afirma que se você quer algo, basta pensar naquilo e terá (da onde eu descobri o início d'O Segredo, aliás), nem nada relacionado à estranha seita que me incomoda. Não, o que me incomoda é a forma absolutamente arrogante com que lidam com esse misticismo que eu poderia até aceitar como parte inocente da mitologia do livro, mas não o faço de birra. É essa coisa que o autor insistem em Marca de Caim e o diabo a quatro. Aparentemente quem nasce com a Marca de Caim é superior ou é destinado a ser superior aos outros. Coisa que eu a princípio pensei ser figurativa, ao longo do livro se mostrou mais e mais literal. Aliás, comigo o livro todo foi assim. Por ver em Demian personagem não existente, o deleguei a ser parte do próprio Sinclair, assim como a mãe de Demian, personagem, no fim, chave. Mas o livro me provou errado repetidas vezes colocando provas inequívocas da existência física dos personagens, me deixando na merda e sem alternativa a não ser desgostar cada vez mais do livro. Desculpa, é isso. Em dado momento, Sinclair conhece um organicista que deve ser o segundo personagem mais interessante do livro, e aliás nem é tão interessante assim. Enfim, em uma das didáticas, o autor nos expõe que não é possível criar nada. Ora! Oquei... Mais tarde me vem com a ideia de que a Natureza tem um desígnio para nós e que nossa função enquanto homens é segui-lo. Não só isso como alguns outros aspectos do livro são como uma saga agostiniana. Olha: tanto Sinclair como Santo Agostinho vivem sua vida como provação e evolução em direção à iluminaçao divina (ou natural, se é que podemos chamá-la disso). Se para Santo Agostinho era Deus que fazia os caminhos, para Sinclair e companhia era a Natureza. Nada deviam fazer além de seguir os desígnios para eles feitos. E que isso era coisa de homem justo e bom e sei lá o quê. Para uma seita que diz explicitamente: "Nós, os marcados, não tínhamos de nos preocupar com a estrutura do futuro. Todos os credos, toda doutrina salvadora nos parecia inútil desde o princípio." me parece quase incoerente ter uma crença tão rígida e estranha, quase impotente, na sua travessão de liberdade. "Para nós só havia um dever e um destino: chegarmos a ser perfeitamente nós mesmos, conformarmo-nos inteiramente à semente da natureza em nós ativa e vivermos tao entregues à nossa vontade que o futuro incerto nos encontraria prontos a tudo o que pudesse trazer consigo." É claro que é lindo isso.

Sinclair

No entanto, a impotência de Sinclair entra em direto contraste com sua própria descrição do que são os "marcados". Em seu desprezo pelo resto do mundo, em seu enclausuramento erudito, Sinclair pouco conhece das pessoas e pouco conhece da vida. Seu (arrogante) posicionamento como sábio, como marcado, o impediu de experimentar aquilo que nutre poesias e paixões, que são os corações dos outros. Sua grande sina é não se enxergar nos outros, mas apenas em um seleto grupo que, entre diálogos inverossímeis, o deixam como espectador de sua própria vida. A história de Sinclair, se a encararmos como história, é uma de ilusões e passividade, de solidão e busca por um lugar seguro, de insegurança constante e impotência. No fim das contas, não lhe adianta muito ser marcado, não faz nada daquilo que anuncia. Não vive a vida com o afinco e paixão, não tem coragem sequer de fugir da guerra mais sanguinária de seu tempo (talvez por ver naquilo o sinal dos novos tempos, e nisso, pelo menos, ele tinha razão, a primeira guerra mundial foi um divisor de águas) ou ficar com a mulher que ama, entrega-se inerte aos eventos sucessivos, declarando pouco poder de escolha. Seus sonhos de grandeza são respondidos, ao final do livro, com ferimentos de guerra. Não representa nada para o mundo, marcado ou não, e seu amor pela individualidade é soterrado pelo mar de desgosto que foi sua vida. No prólogo, Sinclair afirma estar contando a história real de um homem real: ele. No entanto, talvez seja fato que, de tanto se procurar, Emil Sinclair perde-se em si mesmo.

Retratação

Dito tudo isso, sinto que devo alguma coisa ao autor e ao livro que, de forma alguma é um livro ruim. Vejo em Demian um livro que questiona o pensamento comum a todos, que segue os passos de um jovem durante seu caminho pelo conhecimento de si, pela formação da personalidade. As extrapolações que por ventura Hesse possa ter cometido (ou não, isso vai depender, como sempre, do leitor, ser magnífico e que dá o significado; sou um leitor ingrato) fazem parte de um estilo, gostemos ou não dele e reconheço a talvez estúpida comparação entre Demian e Dom Casmurro, visto que cada livro tem sua estética, sua função. Talvez eu tenha lido Demian tarde demais, quando o espírito antes fresco já encontra-se frio e ressecado demais para receber o tipo de história que Hesse tenta me contar. Quem sabe, talvez eu não tenha entendido nada, afinal... O que sei é que muita gente cuja voz eu respeito tem grande apreço por este livro e não é pela minha infame opinião que ele deve perder seu valor, nem mesmo para mim.




Extra! Extra!

*Destruição Criadora e os Dualismos

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas.” 

Terminei a resenha e esqueci de colocar este trecho importantíssimo para o livro, o que é absurdo, já que a ave está presente na capa e representa a linha de raciocínio que conduz a formação do jovem Sinclair: do questionamento dos valores dados à liberdade para poder voar para si mesmo (ou para Abraxas). A destruição, para Hermann Hesse, é necessária para a criação do novo ou para a liberdade. Talvez seja por aí que se anunciaria a nova era que profetiza Demian, através da destruição do mundo com a grande guerra.
É claro que o mundo não deveria ser a Europa (como eu sou chato!), mas a gente releva esse tipo de coisa. No meu livro, no entanto, isso demonstra a incompatibilidade de coexistência entre velho e novo... mais dicotomia e eu acho dicotomia um porre.

Aproveitando o espaço, queria fazer um adendo sobre a questão de gênero e sexualidade. Isso é, caso aceitemos minha tese furada de que todos os personagens são Sinclair, a dicotomia homem-mulher e a homo-heterossexual (como vi num comentário, fuçando a internet - e não se preocupem, não achei ninguem falando mal do livro, só o idiota aqui) são talvez as únicas tratadas com certa ausência de contraste. Elas se misturam, sendo que tanto a tríade principal de personagens: Sinclair, Demian e Eva quanto provavelmente Abraxas, são andróginos (o que é fantástico!). Apesar disso, Sinclair não demonstra desejos sexuais por Demian, não explicitamente pelo menos, mas o faz com Eva. O que é engraçado, visto que durante quase todo o livro, a obsessão de Sinclair foi o rapaz pouco mais velho que ele e que dá nome ao livro. Bom... a Demian fica delegada a posição de "guru" ou "guia espiritual", separado do amor carnal. Mas Hesse não me engana, Sinclair joga dos dois lados.