Um blog livre, aberto e despretensioso de resenhas caseiras, discussões acerca de... qualquer merda, na verdade...

autores até o momento:

Horácio Dib
Breno Crispino
Lucas Soneghet
Victor Fonseca
Lalesca Fravoline


Se quiser participar do blog, é só entrar em contato. Como já foi dito anteriormente, é um blog livre e aberto.
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de julho de 2014

O asfalto no beijo.


Ser homem ou ser humano


“Arandir (numa alucinação) – Dália, faz o seguinte. Olha o seguinte: diz à Selminha.
(violento) Diz que, em toda minha vida, a única coisa que salva é o beijo no asfalto. Pela
primeira vez. Dália, escuta! Pela primeira vez, na vida! Por um momento, eu me senti bom!’




Em 1960, Nelson Rodrigues publicou “O Beijo no Asfalto”. Nessa obra, um homem morre atropelado por um ônibus e em seu leito de morte pede ao outro homem que se projetou para ajuda-lo um beijo na boca. O homem o faz. O homem beija o homem na boca. E a partir daí o homem é caçado, esquartejado socialmente, destroçado em sua sensibilidade, expostas tripas podres e vergonhosas. Um beijo no asfalto, tão sujo como o solo, tão sujo como o sangue, aquelas bocas delicadas se tocando, os bigodes espetando o rosto com barba por fazer, a boca do agonizante já com gosto de seu sangue, fazendo do beijo um evento maior que o beijo. Havia asfalto no beijo. Câmeras, imprensa, sensacionalismo, delegacia, três tiros. Não é o melhor futuro que espera nosso herói, o homem que ousou beijar o moribundo. O motivo? Nenhum. Atender um pedido. Atender um último pedido. Natural, assim. Assim como é natural morrer por um beijo proibido. O homem beija por sensibilidade, delicadeza que aflora. Beija por sentir necessário o beijo no cadáver pedinte. O asfalto também é beijado, é onde o corpo do homem atinge. O fundo do poço. Jamais questiona a si mesmo: o beijo no asfalto foi o mais próximo a ser bom.

Nelson Rodrigues nos entrega uma história que surpreende em sua simplicidade e audácia, em sua super-humanidade, em sua agressiva corrupção. O "Anjo Pornográfico" não usa de sua "pornografia" aqui, ele abre espaço pro amor e pras leituras sociais do mesmo. Nelson Rodrigues nos atropela e nos beija, enfim, agonizantes. Falas rápidas, entrecortadas, como falas de verdade são. É uma peça, oras, a mímese perfeita da fala humana, Aristóteles totalmente orgulhoso ou se suicidando eternamente no céu ou inferno que se encontra (talvez inferno, por ter dado beijos em homens com ou sem asfalto). Os temas abrangem caminhos enormes e reflexões ainda maiores. Me movimentou até aqui, nessa ínfima gota de meu suor, e me movimenta ainda mais. Porque em mim houve um mergulho, me senti o homem que beija o morto, me entendi assim. E entendi a bondade que o personagem Arandir sentiu, e entendi a grandiosidade de um beijo no asfalto. Senti, enfim, a dor da incompreensão e das jaulas fálicas de um mundo mentalmente castrado e domesticado erroneamente. 


Imagine você, o ápice da bondade humana: doar seu beijo ao homem que pede em seu único momento. Doar, ao homem moribundo, o filete de alegria e prazer para suportar a dor. Ou talvez uma certeza, Um carinho. Uma réstia de amor. Mas não é disso que se trata. Não podemos ser bons assim. O homem bota peso nas costas do próprio homem. E ele tem sempre que ser apto para carregar, qualquer deslize, qualquer piscadela, é o fim como um beijo no asfalto. A eterna existência dos homens são homens que agonizam no chão e outros homens que negam o beijo derradeiro, ou os raros que realmente os beijam e que são julgados e mortos, enfim, banidos do império dos machos. É a voz sentimental calada, é a veia poética esturricada pela falta de alimento. Boca é pra chupar. Pra falar palavrão. Pra morder lábio de fêmea e teta. Poesia não transcorre dessa boca, não de boca que não sorve poesia, o asfalto seca, veias abertas do solo gritante, sem beijos, sem piedade. Raro ver homem se abrindo pra homem. Raro ver choro de homem, lágrima na barba, lágrima na masculinidade. A única coisa que chora é a cabeça do meu pau, ouço. Sim.




Duvido de minha posição de homem. Figura masculina tive em momentos diferentes e não dei atenção a elas. O futebol nunca fez parte do meu vocabulário ou vontade. Tampouco brigar. Tampouco pegar mulher como se pega o lixo que estourou no chão. Mijar envolta de si e do que é seu nunca me foi algo a passar pela cabeça, marcar território como bom macho alfa. Ser másculo, ser duro e inflexível. Em mim sempre brotou a poesia, a música, a sensibilidade, a observação. Homem age, eu olho. Homem é bem sucedido, eu falho em tanto. Duvido, se é isso ser homem, do que sou. Viadagem, devem pensar. Pensem.

Se isso for homem, essa virilidade azeda e falsa, essa selvajaria acéfala e repetitiva, essa brutalidade calosa e enrugada. Se é isso ser másculo, o soco sempre pronto e certeiro entre os dedos, os dentes presos com xingamentos e putaria, os paus sempre muito duros e enormes, briga de falos, potências sobre potências. Se é isso não sou isso. Sou o resto disso. O resto do que ser homem é. Sou o intermédio, sou sem remédio, enfim. O homem me refuta de seu clube. Tem que ser mais homem, rapaz.

Sinto pena das vendas nos olhos que choram por dentro, dos músculos estourando que tampam o cérebro, do sorriso desesperado pro espelho acreditar. Esse clube de machos com paus em riste, proibido menor de vinte centímetros pra entrar. Sinto pena da prisão que o homem se encarcera pra provar ser homem pra si mesmo. Porque os outros nem estão ligando. Ele precisa da aprovação dele, apenas. O homem não produz lágrimas ou sentimentos. O homem não se abre para amigos, nem amigos muito íntimos ele tem. O homem de verdade só pode prosperar, não existe falência, não existe inércia, você é um homem ou um rato? Seja homem, levanta. Seja homem, não humano.


É muita coisa em cima do homem e aquele que não conseguiu evoluir músculos para carregar o fardo que a si mesmo impõe, aqui não vive. A tacha de suicídios entre homens é a maior, os homens são insatisfeitos consigo mesmos, como? Talvez o desenho que esperam de si não é o que consigam. Talvez a criação de ser homem seja transcendente demais, seja um ser perfeito demais para nós alcançarmos, o homem é um mito. Porque às vezes não se consegue ser homem e falhamos sendo humanos, acontece bastante. E vem o julgamento do outro, e vem a difamação interna e externa, e vem os questionamentos que todo um percalço de autocriação traz.  O homem é fruto do homem.  O homem é o homem do homem (Plauto e Hobbes que me perdoem). O homem é sua própria vítima. O homem é tão homem que às vezes se cansa. E à noite, no escuro atrás de nossas pálpebras, o homem se deixa atropelar e pede, dolente e ensanguentado, o beijo a outro homem.

   Leia mais sobre o assunto: https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/pelo-direito-de-broxar-falir-e-ser-sensivel-campanha-pede-que-homens-libertem-se-do-machismo/

 Ou só veja o vídeo:



No final não falei da obra do Nelson Rodrigues. 
E falei.


Assistam o filme de  1981.

O Beijo no Asfalto - Nelson Rodrigues 




segunda-feira, 12 de maio de 2014

“Quem quer entender o destino, tem de sobreviver a ele.” (re-resenha)



Jostein Gaarder é um escritor e filósofo norueguês, conhecidíssimo pelo seu livro O Mundo de Sofia, entretanto, a nossa relação se estreitou devido a uma outra carta, escondida não somente sob a manga, mas entre prateleiras de livrarias e sebos. Depois de anos de encontros e desencontros, numa tarde de folga no Centro da cidade, encontrei o curinga rindo ironicamente debaixo de uma pilha de livros, e por fim consumimos a nossa relação objeto-espectador / livro-leitor.
O Dia do Curinga é uma das obras que eu carregaria no bolso sempre, tivesse eu uma versão pocket sua. As primeiras páginas surtiram o mesmo efeito mágico de quando eu havia lido-as cinco, seis anos atrás, o restante era um oceano desconhecido. O livro não trata de Filosofia em si, como em O Mundo de Sofia, mas é filosófico, assim como toda a obra de Gaarder. Suas páginas carregam a história do garoto Hans-Thomas, que sai de Arendal, uma pequena cidade norueguesa, em direção à Grécia junto de seu pai “à procura da mulher que os deixou oito anos antes”, uma mãe-esposa que se perdeu no mundo para se encontrar, e nesse trajeto dentro de um fiat vermelho cruzando o Velho Continente até a Antiga Grécia dos olimpianos, o garoto participa de conversas com seu pai a cada “pausa para um cigarro” que vão desde maldições de família à desolação da bocarra de ferro do Tempo que devora a tudo e a todos, ele descobre a bebida púrpura e os peixinhos coloridos nos Alpes, e recebe – devido aos acasos do Destino – dois pequeninos presentes que o acompanham ao longo da viagem: um pequeno livrinho com letras minúsculas e ilegíveis, e um pedaço de vidro que lhe cai como uma lupa.
É através do livrinho que Gaarder nos conta uma história dentro da história e outra dentro desta, e no fim tudo vem a se encaixar como cartas espalhadas aleatoriamente pelo mundo, mas que começam a serem organizadas por uma mão invisível que trança as vidas no Destino. A história de Hans-Thomas, dos peixinhos, da bebida e das cartas de paciência de Frode é por vezes tão lúdica, assim como o próprio Curinga, tão fantasiosa que no fundo, já preso à narrativa reflexiva e suave, você se pega rezando pela realidade dessas estórias-histórias, agarrando-se com todas as forças nessa trança invisível.
Outro aspecto peculiar do livro – agradabilíssimo aos amantes de baralho – é a organização de seus capítulos, cada um sendo uma carta do baralho, e entre eles, a carta-capítulo do curinga que nos traz o verdadeiro ponto de revolução da história, o ponto inicial da evolução do herói, um ponto muito anterior a Hans-Thomas mas que tudo tem a ver com o garoto.

O Dia do Curinga é um daqueles livros que te deixa com o coração apertado conforme as suas páginas vão acabando, é um livro que te deixa com um brilho nos olhos quando o menciona, que te deixa – propositalmente – com muita pulga para pouca orelha, e isso é o mais gostoso, essa relação ativa que o leitor desenvolve com a história e suas reflexões, afinal, Gaarder se diz escritor e filósofo, e ele faz por merecer tais títulos. A grande jogada do curinga, ao meu ver, é você conseguir deslocar daquele universo as capacidades de observação e sensação, trazendo-as para cá. O dia do curinga encanta, porém encanta muito mais àquele que se dá ao prazer de observar, admirar e sentir os pequenos detalhes da vida, do cotidiano, tornando-se assim mais um curinga, mais uma carta fora e ao mesmo tempo dentro do baralho.


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Pilar de José





     Calhou ter o nome assim, Pilar, coisa que única das que não controlaria em vida e que a seguiria pro resto de sua existência, coisa boba um nome. Mas assim fez-se Pilar e o poeta-escritor levou ao pé da letra. Em sua pluralidade mental, em seus caminhos, descaminhos e bagunças organizadas, basificou sua arquitetura torturada em Pilar. É como dizem os livros antigos, aquela história da casa que não para em pé quando feita sobre areia. Pilar é ferro, puro, bruto e brilhante. E sim, literalmente, é o sustento de José. Ouso dizer que sem Pilar, Saramago não existiria ou, ao menos, não resistiria. Num mundo criativo e efervescente de Saramago, num mundo de plurideias, subtramas e intertextos, Pilar é a conexão do gênio com a realidade. O intermeio, o canal entrelugares, no entremeio de existências, telefone sem fio de distantes constelações. Pilar seria os pés no chão, sim, mais uma vez: a base. Daí a importância do nome "José e Pilar", pra lembrar que o um não é um sem o outro, um "um" plural. E percebemos isso na medida em que essa maravilhosa obra de arte avança: um ser é inerente ao outro, extremamente dependente, numa sintonia assustadora de acidez, humor e engajamento. Comecemos, então, pelo nome e depois dane-se a ordem. Do nome posso dizer, além do que já disse, não o acho bom o bastante. É claro que ele passa a existência de Pilar ao lado de José, mas deveria ir além, se fosse possível ir além. Se fosse possível que as duas palavras coexistissem, aí sim seria perfeito, não uma do lado da outra, dando a entender que a primeira seja superior, jamais. O nome deveria ser um híbrido, como eles os são, um ser uno, semi-divino.

     Meus sentimentos com esse documentários resumem-se, espelhados nos infinitos sentidos dessa palavra: amor. Que objeto mais multifacetado é o amor, e é por meio desse espelho quebrado que conhecemos o íntimo de Saramago. O amor une os troncos antigos de seus dedos aos dedos de sua mulher. O amor o faz subir os montes ao lado de Pilar ouvindo suas histórias e rindo. O amor sai da ponta de suas unhas em seu computador a cada ponto final, a cada virgula. O amor o faz brigar, o cansa, o pesa. Há carinho em todos os toques, em todo estalar de língua, em todo pessimismo antigo desse ser superior. E somos atingidos em cheio por esse apaixonante documentário, e somos postos à prova face a esses dois gigantes que aprenderam a ser um só.

     Munido de imagens poderosas, edições fantásticas e roteiro poético, "José e Pilar" nos faz triste, pois cada hora passada com o prazer que o documentário proporciona é uma hora a menos do mesmo prazer e aí ficamos presos nesse paradoxos: porque seres como Saramagos deveriam ser (e sim, são) eternos. Depois que o assisti pela primeira vez senti-me perdido. Tanta coisa pra ruminar, tanto som e fúria, tanto sangue e tutano, tantas frases tão corretas e tão facilmente proferidas pelo frágil gigante português. Terminou-se como sair bailando de um sonho, os olhos recusando-se a abrir já abertos. De tão impossivelmente perfeita a obra e eu, de tão maravilhado, me vi perguntando a mim mesmo: É um documentário? Não é um romance? Veja que pergunta estúpida, leitor, a qual me veio a resposta direta, como a língua da chibata quente nas costas nuas, na voz do próprio José: mas é claro que é um romance. Mas é claro. Cheia de poética, metáforas, intrigas fantásticas, "José e Pilar" é o romance perfeito: uma realidade recheada de surrealismo, de neologismos, de paronomásias e outro termos já muito recauchutados e empregados a torto e a direito. É o romance perfeito, além da perfeição estética, por ser a mais pura amostra da realidade, do amor (aquele ser muito odiado e tantas vezes tomado como invenção) mais inflexível do mundo e, ao mesmo tempo, mais delicado.

     Vemos nas veias das mãos e do pescoço, no branco que toma a íris e os cabelos, nas manchas na pele e nos dentes, a delicadeza quebradiça de Saramago, um deus escravo do tempo. Não o duvido escrever em seus braços a pensar serem papéis antigos, e realmente o fossem: papiro antigo da mais intangível sabedoria. Aos poucos o mestre, cansado pelo peso de si, mesmo sustentado por Pilar, esfarela-se. Vê-se em meio a um oceano de afazeres e a velhice, mão maldosa que o puxa para o afogar-se, revelando sua morte a cada olhar mais profundo pro espelho. O filme conta a batalha interna de Saramago consigo mesmo para conseguir ser mais forte do que o externo e, aí sim, uma batalha externa de Saramago com as intempéries, as viagens, as quedas de braço mentais com sua literatura, os confrontos com os outros. Chega tamanha a estafa que vemos o mestre quase fenecer sob nossos olhos, e não duvido que tenha realmente ido. E que tenha voltado por Pilar. A Pilar que ficava no banco do hospital, no banco do avião, no banco do carro. A Pilar que ficava nos bancos da vida, lutando suas lutas internas, externas e lutando as lutas internas e externas de Saramago, quatro batalhas para um só ser. Chega também a hora em que os dois cansam juntos e são apenas arrastados pelo vendaval criado por eles mesmos. Lembro-me questionado pela minha mãe: Mas essa mulher dele é uma ditadora, ela vai matá-lo, o arrasta pra cá e pra lá, ele não quer fazer nada disso! Eu chamaria isso de amor bruto (tough love), mas acho que é maior que essa expressão já enrugada pelo uso. Pilar vira combustível, quando impossível de José continuar. Quando acaba o combustível, Pilar vira as próprias mãos e a própria força a empurrar José e, também vemos, José vira a mão para puxá-la quando preciso. É uma luta em dupla no mundo antropofágico da literatura contemporânea. E nesses momentos de guerra (trocando uma expressão enrugada por outra) é preciso endurecer, mas sem perder a ternura.

     O amor, como não fugir do amor nesse filme?, chega aos ápices da poesia: metáforas reais, de concreto e sutileza. Há um momento em que Pilar é condecorada (é assim que se fala? não sei se a pessoa é condecorada quando isso acontece ou se é outro termo, mas tudo bem) com uma rua com seu nome. Agora, senhoras e senhores, adivinhem que rua termina/desemboca na rua Pilar del Rio? Sim, a rua José Saramago. Outro fator belíssimo é a presença de Pilar em todos os livros de nosso autor, sendo todos os livros dedicados à sua esposa, como rosas raríssimas e únicas. Pilar permeia o homem Saramago e a obra Saramago. E no cruzamento da rua Pilar del Rio com a rua José Saramago encontramos uma de suas dedicatórias marcadas à eternidade.
      O filme termina com nosso desejo de que sequer tivesse começado, pois assim não haveria a dor do terminar. O filme termina com a esperança de outro livro, de outra caminhada árdua, de outra série de lutas, mas um sendo o Pilar do outro, como sempre. Hoje, após a morte do mestre Saramago, não há como brilhar os olhos e esperar que realmente exista realidade na frase dita pela boca de José e que abre e entrecorta o documentário: "Pilar, encontramo-nos noutro sítio." Espero que, no fim, encontrem-se.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Demian ou Não postamos só babação de ovo

Antes de mais nada

Por favor, leiam o livro antes de ler isso ou não levem em conta nada do que foi escrito. Obrigado.

Mais nada

A impressão básica que tive de Demian, a princípio, foi de que era um livro extremamente arrogante. Agora, isso deve parecer de grande arrogância de minha parte, isto é, chamar um ganhador do Nobel que foi Hesse de arrogante em um de seus livros mais famosos. De fato, o chamo assim talvez por não ter tido contato com o resto de sua obra, talvez por não ter compreendido a essência do que há no livro... não sei... Isso é a vossa majestade, o leitor, quem irá julgar. Mas tenho lá meus motivos, certo? Não são (apenas) disparates. Vamos então entrar no mundo de Demian, tal como eu o absorvi.


Apresentação

O protagonista em primeira pessoa é Emil Sinclair, embora eu apenas saiba de seu primeiro nome pela orelha, já que não me lembro dele ter alguma vez sido mencionado na edição que li. Enfim, isso não é importante. Sinclair, então, começa o livro em um prólogo, explicando que vai contar a história de sua vida, dando uma breve explanação de como é o homem. Já daí o ambicioso (e, porque não, pretensioso) projeto de Hesse me bateu no estômago. Já ouvi e li muitas versões do que é o homem, o que ele aspira, o que ele representa. Versões que se contradizem e tem pouca base além da experiência pessoal do autor. A de Hesse, ou de Sinclair, aparentemente não sai muito disso. Mistura sua visão de mundo com um misticismo confuso, determinista e, porque não, elitista, para dar luz a uma estranha diferenciação entre homens e seu objetivo na vida. Agora, a coisa interessante disso tudo é que o personagem Emil Sinclair é retratado como alguém fechado, evita ou tem dificuldade em interagir e tudo o mais. Ainda assim, ele apresenta visão de como são todos os homens - sem os conhecê-los. É enervante. Todas as suas características de exclusão social são vistas, no fim das contas, como glorificantes. Quem já viveu a solidão sabe bem que de enaltecedor não há nada. Sabe também o estranhamente comum que é o desprezo pelo resto do mundo. Talvez cheguemos a conclusão que, no final, Sinclair era apenas um garoto tentando achar seu nicho... Bom, não vamos nos apressar... chegaremos ao final.

Personagens e Ensaio

A forma como o autor conduz o livro também é algo que me incomodou. Sendo Sinclair o narrador personagem que conduz a história, talvez até seja justificável, mas no entanto, temos Dom Casmurro, que eu inevitavelmente uso para comparação, vindo de Machado, escritor brasileiro sem Nobel (e como poderia ser diferente?) que vive pouco antes e durante parte do período de Hesse e de cuja obra ainda infelizmente desconheço tanto, mas que já causou o impacto com os parcos livro e poemas que li. Que absurda comparação é essa? Ao narrar a própria vida, o que Sinclair faz é utilizar-se de acontecimentos vividos para, e talvez seja essa a questão do livro, argumentar um ponto de vista. O grande problema é que ao fazê-lo, boa parte, senão todos os personagens do livro, parecem extremamente artificiais, despidos de emoção e personalidade. Principalmente o que dá nome ao livro, Max Demian. Fiquei surpreso de no início do livro, enquanto Sinclair ainda frequentava a escola com Demian, isso ser anunciado em voz alta pelo narrador, mas nunca explicado. Demian era frio e sem emoções, um morto vivo que andava por aí filosofando com nove anos de idade. Uma criança que não se importa de matar outra se esta a está aporrinhando porque, "são decisões que um homem precisa fazer" ou algo assim. É coisa de doido mesmo. O único personagem que talvez saia desse balaio é o próprio Sinclair, este muito mais desenvolvido e interessante, apesar de algumas sequências de ações duvidosas e praticamente inteiramente ilustrativas. Talvez por ser o narrador. E é aí que eu faço uma provavelmente esdrúxula comparação com Bentinho. Bentinho também é narrador e a nós talvez os personagens de Dom Casmurro se mostrem distorcidos pela visão do personagem. Mas são todos, em seu jeito rebuscado e novecentista de ser, extremamente complexos emocionalmente, interessantes, diferentes, etc... Senti carinho por José Dias ou temor e respeito pela mãe de Bentinho, mas com Demian, minha sensação é que os personagens estão lá para ajudar a construir uma argumentação. Longos e inverossímeis diálogos em que Sinclair e, logo, o leitor, são quase que didaticamente ensinados os pensamentos do autor me fazem misturar Sinclair e Hesse e, no final, não ver muita coisa de história no livro. Interessa-me o que tem para falar, mas o fim que levou Sinclair, Demian, ou os outros personagens, pouco importa. E assim pareceu ao autor também, pelo visto, quando depois de falar tudo o que tinha para falar, abortou o livro em uma inércia paumolescente para quem esperava... alguma coisa. A coisa é que Demian mais parece um ensaio que utiliza o romance como formato do que um romance propriamente dito.

Maniqueísmo e Abraxas

Uma das coisas que é bastante frisada no livro é a síntese da dicotomia bem e mal (e suas intermináveis variantes) dentro de uma mesma coisa. Lá pro meio do livro o autor dá nome a essa coisa: Abraxas. É um dos argumentos principais do livro que existem dois mundos, o iluminado, seguro, puro, etc... que seria representado, na infância, pela casa da gente, nossos pais, etc... E aí tem o outro mundo, um mundo perigoso, sujo, o mundo das ruas, dos bordéis, das tavernas e essa coisa toda... um mundo que fascina Sinclair desde criança. Os dois mundos acabam fundindo-se e encontrando sua síntese em Abraxas, que eu não tendo pesquisado sobre, não sei se faz parte da mitologia do livro ou é coisa real, mas se trata justamente de um "deus", se é que podemos chamar assim, que é bom e mau, e que na verdade pode ser qualquer coisa e é tudo. Isso é interessante para se quebrar com o maniqueísmo católico com o qual Sinclair convive na infância, muito apesar de adicionar pouca complexidade além dele ao fenômeno da vida. Veja, Abraxas não nega o maniqueísmo, ele, pelo contrário, o aceita, o abraça e faz dele parte de si. O maniqueísmo se torna duas faces de uma mesma coisa, mas ainda é maniqueísmo. Isso dá um caráter de dualidade a tudo, e, no caso do livro, aos personagens também. Sinclair em dado momento de sua vida começa a frequentar tavernas e beber muito. Logo depois vira um santo casto iluminado por uma figura de musa platônica. Então descobre Abraxas e passa a dedicar sua vida a isso, à coexistência do bem e do mal, sempre usando como parâmetro os valores cristãos, talvez, não sei.
Bem e mal são referenciais, como bem sabemos. Mesma coisa é o certo e o errado. Se abortar é certo para uns, é também errado para outros. Aborto, então, ao invés de ser uma coisa que coexiste entre o certo e o errado, como eu acredito que seja a ideia no livro, é, na minha opinião, algo que existe e ponto e daí as pessoas tiram suas conclusões. Imprimir a impressão pessoal de alguém como característica da coisa me é estranho e tais noções sempre serão pessoais. Não obstante, gosto da forma como Hesse lida com a dicotomia, talvez mais forte na Europa. Voltando à Machado, também em Dom Casmurro, os personagens evitam tal taxação. Por mais que Bentinho, enquanto narrador,  tente imprimir em Capitu a característica de má ou coisa que o vale, no fim das contas é o leitor quem vai definir o que vale o que na história e se não é, afinal, Bentinho quem degringolou. Lembrando que Machado não é Nobel. Uma das maiores injustiças da história da literatura. Foda-se. Voltemos.

Misticismo

Outra característica forte do livro é sua pegada pro misticismo. Este, admito, tenho grande preconceito. No livro, no entanto, não é quando Demian diz que se você está pensando numa coisa com afinco, ninguém te incomodará nem quando ele afirma que se você quer algo, basta pensar naquilo e terá (da onde eu descobri o início d'O Segredo, aliás), nem nada relacionado à estranha seita que me incomoda. Não, o que me incomoda é a forma absolutamente arrogante com que lidam com esse misticismo que eu poderia até aceitar como parte inocente da mitologia do livro, mas não o faço de birra. É essa coisa que o autor insistem em Marca de Caim e o diabo a quatro. Aparentemente quem nasce com a Marca de Caim é superior ou é destinado a ser superior aos outros. Coisa que eu a princípio pensei ser figurativa, ao longo do livro se mostrou mais e mais literal. Aliás, comigo o livro todo foi assim. Por ver em Demian personagem não existente, o deleguei a ser parte do próprio Sinclair, assim como a mãe de Demian, personagem, no fim, chave. Mas o livro me provou errado repetidas vezes colocando provas inequívocas da existência física dos personagens, me deixando na merda e sem alternativa a não ser desgostar cada vez mais do livro. Desculpa, é isso. Em dado momento, Sinclair conhece um organicista que deve ser o segundo personagem mais interessante do livro, e aliás nem é tão interessante assim. Enfim, em uma das didáticas, o autor nos expõe que não é possível criar nada. Ora! Oquei... Mais tarde me vem com a ideia de que a Natureza tem um desígnio para nós e que nossa função enquanto homens é segui-lo. Não só isso como alguns outros aspectos do livro são como uma saga agostiniana. Olha: tanto Sinclair como Santo Agostinho vivem sua vida como provação e evolução em direção à iluminaçao divina (ou natural, se é que podemos chamá-la disso). Se para Santo Agostinho era Deus que fazia os caminhos, para Sinclair e companhia era a Natureza. Nada deviam fazer além de seguir os desígnios para eles feitos. E que isso era coisa de homem justo e bom e sei lá o quê. Para uma seita que diz explicitamente: "Nós, os marcados, não tínhamos de nos preocupar com a estrutura do futuro. Todos os credos, toda doutrina salvadora nos parecia inútil desde o princípio." me parece quase incoerente ter uma crença tão rígida e estranha, quase impotente, na sua travessão de liberdade. "Para nós só havia um dever e um destino: chegarmos a ser perfeitamente nós mesmos, conformarmo-nos inteiramente à semente da natureza em nós ativa e vivermos tao entregues à nossa vontade que o futuro incerto nos encontraria prontos a tudo o que pudesse trazer consigo." É claro que é lindo isso.

Sinclair

No entanto, a impotência de Sinclair entra em direto contraste com sua própria descrição do que são os "marcados". Em seu desprezo pelo resto do mundo, em seu enclausuramento erudito, Sinclair pouco conhece das pessoas e pouco conhece da vida. Seu (arrogante) posicionamento como sábio, como marcado, o impediu de experimentar aquilo que nutre poesias e paixões, que são os corações dos outros. Sua grande sina é não se enxergar nos outros, mas apenas em um seleto grupo que, entre diálogos inverossímeis, o deixam como espectador de sua própria vida. A história de Sinclair, se a encararmos como história, é uma de ilusões e passividade, de solidão e busca por um lugar seguro, de insegurança constante e impotência. No fim das contas, não lhe adianta muito ser marcado, não faz nada daquilo que anuncia. Não vive a vida com o afinco e paixão, não tem coragem sequer de fugir da guerra mais sanguinária de seu tempo (talvez por ver naquilo o sinal dos novos tempos, e nisso, pelo menos, ele tinha razão, a primeira guerra mundial foi um divisor de águas) ou ficar com a mulher que ama, entrega-se inerte aos eventos sucessivos, declarando pouco poder de escolha. Seus sonhos de grandeza são respondidos, ao final do livro, com ferimentos de guerra. Não representa nada para o mundo, marcado ou não, e seu amor pela individualidade é soterrado pelo mar de desgosto que foi sua vida. No prólogo, Sinclair afirma estar contando a história real de um homem real: ele. No entanto, talvez seja fato que, de tanto se procurar, Emil Sinclair perde-se em si mesmo.

Retratação

Dito tudo isso, sinto que devo alguma coisa ao autor e ao livro que, de forma alguma é um livro ruim. Vejo em Demian um livro que questiona o pensamento comum a todos, que segue os passos de um jovem durante seu caminho pelo conhecimento de si, pela formação da personalidade. As extrapolações que por ventura Hesse possa ter cometido (ou não, isso vai depender, como sempre, do leitor, ser magnífico e que dá o significado; sou um leitor ingrato) fazem parte de um estilo, gostemos ou não dele e reconheço a talvez estúpida comparação entre Demian e Dom Casmurro, visto que cada livro tem sua estética, sua função. Talvez eu tenha lido Demian tarde demais, quando o espírito antes fresco já encontra-se frio e ressecado demais para receber o tipo de história que Hesse tenta me contar. Quem sabe, talvez eu não tenha entendido nada, afinal... O que sei é que muita gente cuja voz eu respeito tem grande apreço por este livro e não é pela minha infame opinião que ele deve perder seu valor, nem mesmo para mim.




Extra! Extra!

*Destruição Criadora e os Dualismos

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas.” 

Terminei a resenha e esqueci de colocar este trecho importantíssimo para o livro, o que é absurdo, já que a ave está presente na capa e representa a linha de raciocínio que conduz a formação do jovem Sinclair: do questionamento dos valores dados à liberdade para poder voar para si mesmo (ou para Abraxas). A destruição, para Hermann Hesse, é necessária para a criação do novo ou para a liberdade. Talvez seja por aí que se anunciaria a nova era que profetiza Demian, através da destruição do mundo com a grande guerra.
É claro que o mundo não deveria ser a Europa (como eu sou chato!), mas a gente releva esse tipo de coisa. No meu livro, no entanto, isso demonstra a incompatibilidade de coexistência entre velho e novo... mais dicotomia e eu acho dicotomia um porre.

Aproveitando o espaço, queria fazer um adendo sobre a questão de gênero e sexualidade. Isso é, caso aceitemos minha tese furada de que todos os personagens são Sinclair, a dicotomia homem-mulher e a homo-heterossexual (como vi num comentário, fuçando a internet - e não se preocupem, não achei ninguem falando mal do livro, só o idiota aqui) são talvez as únicas tratadas com certa ausência de contraste. Elas se misturam, sendo que tanto a tríade principal de personagens: Sinclair, Demian e Eva quanto provavelmente Abraxas, são andróginos (o que é fantástico!). Apesar disso, Sinclair não demonstra desejos sexuais por Demian, não explicitamente pelo menos, mas o faz com Eva. O que é engraçado, visto que durante quase todo o livro, a obsessão de Sinclair foi o rapaz pouco mais velho que ele e que dá nome ao livro. Bom... a Demian fica delegada a posição de "guru" ou "guia espiritual", separado do amor carnal. Mas Hesse não me engana, Sinclair joga dos dois lados.


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Sobre escrever

O livro em questão é A Arte de Escrever, o autor é Schopenhauer. Começo essa resenha consciente da improvável ocasião de que alguém tenha lido esse livro. Desde já deixo clara minha opinião... O livro é bom pra cacete. De fato, são raras as obras que conheço que abordam com tanta profundidade e clareza o ato de escrever. Se você se interessa por isto, por ler ou por qualquer forma de criação artística e não se importa com as ocasionais alfinetadas e críticas sarcásticas de Schopenhauer à elite erudita alemã, recomendo fortemente a obra. Schopenhauer aborda tais temas com a mais sublime atitude carrancuda e pessimismo característicos, passando por trechos interessantes sobre modinhas literárias e até o papel dos escritores de resenha na literatura! Acredita nisso? Nem sabia que escritores de resenha tinham um papel na literatura ou um papel qualquer pra ser sincero. O escritor caracteriza estes e os críticos literários como aqueles com a função de praticar uma censura positiva, embarreirando as obras literárias mal escritas e guiando o povo às obras bem feitas. Diz ele que na realidade o que acontece é o contrário, e os críticos vivem em um pacto silencioso com os "escritores charlatões" com o vil objetivo de ganhar dinheiro às custas da "ignorância do povo" ( expressões em aspas foram cunhadas pelo filósofo). Mas enfim, o que realmente me fascinou e o que acredito que seja o ponto central do livro é a importância do pensar por si. Tal importância já foi dita inúmeras vezes e é vítima de banalização por gloriosos clichês, porém não perdeu seu valor. Schopenhauer expõe, brilhante e categoricamente, a beleza de pensar por si mesmo. A beleza de moldar o espírito e o intelecto com as próprias mãos. O autor adverte-nos a respeito da leitura excessiva como forma de obtenção massiva de informação, julgando esta capaz de "enrijecer o espírito". Esse trecho em particular chamou minha atenção e me levou a pensar. De que nos vale empaturrar-nos de todas as letras, versos, filmes, séries e etc. se o fizermos simplesmente como depósitos ocos? A leitura, quando desacompanhada do pensamento crítico e ativo, é prejudicial. Devo confessar que atingi altos níveis de empolgação e êxtase ao ler tais trechos. Logo que o fiz, fechei o livro. É fascinante a capacidade que as boas obras tem de nos incomodar. Ao abordar o ato de escrever, Schopenhauer cunhou uma das frases mais espetaculares que já vi: "O estilo é a fisionomia do espírito". O estilo em questão é o estilo de escrita e o espírito é o conjunto de intelecto e criatividade. Segundo o filósofo, ao escrever o autor imprime no que diz a fisionomia de seu espírito. Porém, o que me chamou mesmo atenção, e o que concluo da leitura dessa brilhante obra é a faculdade humana de criar. Quando criamos, imprimimos em papel, filme ou seja lá o que for, uma amostra crua de nossa alma. Ao escrever, filmar e o escambal, refinamos essa amostra e a tornamos compreensível. E então, começa a briga. Brigar pra entender, perscrutar, dissecar cada parte de uma criação literária ou de qualquer natureza. Schopenhauer renovou minha atenção para a beleza de pensar  por si, destruir conceitos, construir de novo, duvidar de si e depois concordar, só pra no final de tudo, pegar o que resultou e expressar. Isso, em minha tosca opinião, é arte.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Construção de Personagem - Oblómov

Há algumas semanas (ou foram meses?) comecei a ler Oblómov, de Ivan Gontcharóv... puta livro! Puta livro, mesmo! Impressionante como uma história onde não acontece quase nada de relevante pode te prender e te angustiar... enfim... por motivos de aulas de verão (para repôr a greve), tive que dar um hiato na leitura, mas gostaria de comentar uma parte que foi, até agora, uma das minhas favoritas. Veja, - e falarei de forma bastante pretensiosa, então não se assuste - quando eu crio um personagem (eu sei, como se alguém ligasse), eu gosto de dá-lo um contorno geral, claro, para que o leitor possa entender com quem está lidando aqui, mas deixá-lo vago, de forma a provocar a criatividade e conectividade entre o leitor e o personagem em questão. Em geral, essas características são mais físicas, mas aí depende de quem está lendo, claro... Bom... Gontcharóv conseguiu o que eu nunca poderia sonhar: ele criou o (meu) personagem perfeito! Em duas páginas e meia de descrição, você sabe perfeitamente quem é Alekséiev e ao mesmo tempo não faz ideia de como retratá-lo em sua mente, ou seja, não sabe quem é esse cara. Isso permite ao personagem ser unicamente retratado na mente de cada leitor, permite a identificação pessoal de cada um com ele... ele é uma espécie de zé povinho, average joe ou algo assim... bom... sem mais delongas, vou postar o trecho que cobre a descrição do sujeito:

‎" Entrou um homem de idade indeterminada, fisionomia indeterminada, naquela fase da vida em que é difícil adivinhar a idade; não era bonito nem feio, não era alto nem baixo, não era louro nem moreno. A natureza não lhe dera nenhum traço marcante, notável, nem ruim, nem bom. Muitos o chamavam de Ivan Ivánitch, outros, de Ivan Vassílievitch, e outros, ainda, de Ivan Mikháilitch.
Quanto ao sobrenome da família, também havia diferenças: uns diziam que era Ivánov, outros o chamavam de Vassíliev ou Andréiev, e outros ainda achavam que era Alekséiev.
Um desconhecido que o visse pela primeira vez e escutasse seu nome o esqueceria logo em seguida, e esqueceria também seu rosto; o que ele falava nem se percebia. Sua presença nada acrescentava à sociedade, assim como sua ausência nada retirava dela. Sua mente não possuía senso de humor, originalidade, nem outros traços peculiares, a exemplo do corpo.
Talvez ele soubesse pelo menos contar tudo o que via e escutava e com isso despertar o interesse dos outros; no entanto, não ia a parte alguma: como nascera em Petersburgo, não viajava a lugar nenhum; em consequência, via e escutava aquilo que os outros também sabiam.
Seria simpático aquele homem? Será que amava, odiava, sofria? Na certa devia amar e não amar, sofrer, porque afinal ninguém está a salvo disso. Mas, sabe-se lá como, ele achou um jeito de amar todo mundo. Existem pessoas assim, em quem os outros, por mais que se esforcem, não conseguem despertar nenhum espírito de animosidade, de vingança etc. Não importa o que façam com tais pessoas, elas sempre se mostram amáveis. De resto, é preciso lhes fazer justiça e reconhecer que seu amor, se o dividirmos em graus, jamais alcança o nível do ardor. Embora digam que tais pessoas amam a todos e por isso são boas, no fundo não amam ninguém e são boas apenas porque não são más.
Se diante de um homem assim alguém dá esmola a um mendigo, ele lhe joga também sua moedinha, e se alguém xinga, expulsa ou faz algo atrevido com outras pessoas, ele age da mesma forma. Não se pode dizer que é rico, porque é antes pobre do que rico; mas positivamente tampouco se pode dizer que é pobre, porque na verdade há muita gente mais pobre do que ele.
Tem uma espécie de renda de trezentos rublos por ano e, além disso, tem um cargo irrelevante no serviço público e ganha um salário irrelevante: não passa necessidades, não toma empréstimos de ninguém e, menos ainda, não passa pela cabeça de ninguém lhe pedir dinheiro emprestado.
No seu emprego, não tem nenhuma ocupação especial e constante, porque os colegas e os chefes não conseguem de maneira nenhuma saber o que ele faz pior e o que faz melhor, de tal modo que é impossível determinar para o que ele é especialmente capaz. Se lhe dão isso ou aquilo para fazer, ele o faz de tal modo que o chefe sempre se vê em apuros, sem saber como avaliar seu trabalho; examina, examina, lê, relê, e só consegue dizer: 'Deixe para lá, depois examino melhor... Sim, está quase como deve ser'.
Nunca passa pelo seu rosto o menor traço de preocupação, de fantasia, que demonstre que, naquele minuto, ele está conversando consigo mesmo, e ele nunca é visto dirigindo um olhar cobiçoso a algum objeto exterior, indicativo de que deseja mantê-lo sob sua alçada.
Um conhecido o encontra na rua: 'Aonde vai?', pergunta. 'Pois é, estou indo para o trabalho, ou para as lojas, ou visitar alguém.' E o outro diz: 'É melhor vir comigo ao correio, ou então vamos juntos ao alfaiate, ou vamos dar um passeio'. E ele o acompanha, vai ao alfaiate, ao correio e passeia na direção oposta à que antes estava indo.
É difícil que alguém, exceto sua mãe, tenha percebido seu aparecimento no mundo, muitos poucos reparam nele no decorrer da vida, mas seguramente ninguém vai notar como ele desaparecerá do mundo; ninguém vai perguntar por ele, nem vai lamentá-lo, e ninguém vai se alegrar com sua morte. Ele não tem inimigos nem amigos, mas seus conhecidos são numerosos. Talvez só o cortejo fúnebre atraia atenção de um passante, que renderá homenagem àquele rosto indeterminado, pela primeira vez objeto de honra de uma reverência em que se abaixa bastante a cabeça; talvez até algum outro curioso venha correndo para a frente do cortejo a fim de saber qual é o nome do falecido, para logo depois esquecê-lo.
Pois esse Alekséiev, Vassíliev, Andréiev ou como preferirem é uma espécie de alusão incompleta e impessoal à matéria humana, uma reverberação surda de seu vago reflexo."

Quando conseguir terminar o livro, voltarei (?) com uma resenha completa