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terça-feira, 13 de maio de 2014

Memento Mori e reflexões sobre a morte

Memento Mori - Lembra-te de que és mortal;



O que é a morte? Por que morremos? Por que tememos tanto morrer? São perguntas sem resposta, mas que são também inevitáveis. Em Memento Mori, um documentário genuinamente horaciano, essas e outras questões serão exploradas. Dessa vez não tem resenha, a proposta é outra: a reflexão sobre a finitude. Divirtam-se!







A morte é o real contraditório que nos força a enxergar a vida (o caminho em aberto que temos pela frente) com a avidez e vontade de quem tem pouco tempo para percorrê-lo. A morte torna nossa vida imaginada e, com isso, cria nossos sonhos e utopias. Temos pouco tempo.





Certa madrugada me veio:

"A vida é o universo pulsante


A morte é parte da vida, não é exterior a ela e muito menos é seu oposto. -> a morte deriva da vida ou é parte inerente dela?

A manifestação quanto à vida é possível? Pois a manifestação em si já é vida.

O universo pulsante não existe, a vida sim. A vida é o universo pulsante e a relação não é recíproca. Isto por que a vida é e sempre será prioritária em qualquer relação. Ex: A vida é um bocejo. A vida é uma árvore. A vida é uma estrela. Qualquer coisa que represente algo será vida, exceto se estiver isolada ao ponto de não se relacionar com absolutamente nada, nem ela mesma. Neste caso será Deus. A vida, como prioritária ao complexo sistema de relações se coloca acima de todas as coisas. A vida é, portanto Deus. No entanto, a vida não pode ser uma entidade, visto que por mais que prioritária, não pode representar a si mesma, ou seja, se enclausurar, se embarreirar, para começar porque as barreiras fariam parte da própria vida e, depois, pois sua extensão é tal que conceber seu fim é dar-lhe sobrevida. Entender algo fora da vida, isto é, do prioritário ao universo pulsante é simplesmente contraditório com a própria noção de prioridade sobre tudo. Não há externalidades e, portanto, não há entidade. A vida é, então, Deus em sua não-forma solta, inisolável (sim, estamos criando neologismos aqui, ou seja dando vida às palavras, ainda mais além, dando prioridade de existência a elas), mas irrelacionável pois não há com o que se relacionar.

Ok... resta a questão da morte enquanto parte constituinte da noção solta de vida ou derivada dela. Não se pode conceber a morte como "tudo que é externo à vida", para começar pelo simples fato de entendermos a morte, e, além disso, pela evidência óbvia do imenso - IMENSO - impacto que a morte tem sobre a vida. Se apenas considerarmos nós, seres humanos isolados conceitualmente para fins "metodológicos", acho que isso fica muito mais que claro. Não é concebível, portanto, que a morte se abstraia da vida. É, no entanto, parte constituinte fundamental da experiência de vida - tudo morre, cedo ou tarde, de animais e plantas, a estrelas e, provavelmente, átomos e as partículas mais elementares da constituição da realidade. É desta experiência de vida que decorre nossa morte, isto é, morremos porque vivemos ou morremos apesar de vivermos, sendo a morte uma face da vida? Talvez ambas as opções estejam erradas, posto que a vida não permite a ausência e a morte seja parte da experiência de viver (se constituinte ou decorrente dela, já não importa) e a morte não exista, portanto, enquanto ausência, concluo que a vida só pode ser absoluta e a morte efetiva - enquanto destituição de vida  (ou seja, perde sua capacidade de influenciar, perde sua relevância, sua característica a priori enquanto algo existente) - não pode existir, já que a vida é e será sempre relevante.

De uma forma mais resumida, posso falar, mais especificamente, que nenhum ser (e encaro ser aqui como qualquer coisa dentro do universo pulsante, qualquer coisa que tenha vida a priori, que seria "tudo", na verdade) deixa ter relevância em momento algum.

Sua presença enquanto vivo é o suficiente para deixar uma marca efetiva nos fluxos que subjazem a vida."

Meses depois, uma conclusão: Se a morte é a perda do estado de consciência, ela é altamente egoísta e individualista; nada morre porque nada jamais deixa de existir (ou de ter existido [ou de vir a existir]).



Morro? Pois então, vivo!

sábado, 2 de março de 2013

Uma resenha animada



um filme não tão valente assim
Há alguns anos, com as inovações da Pixar a partir de Toy Story, animações conseguem abranger assuntos profundos e filosóficos com e para o olhar de uma criança. Como sou um apaixonado por animações, nunca digo não quando convidado (na maioria por mim mesmo) para assistir alguma e posso dizer ser fã de carteirinha da Pixar. Assisti Valente dias atrás e infelizmente percebi que eles não acertaram tanto na mão. Os personagens não eram tão carismáticos e o enredo parecia vir de roteiristas muito cansados que não faziam ideia de como sair da onde se meteram e, olha só, infantil demais para o nível das animações que concorriam com ele ao Oscar. Infelizmente, o Oscar de Melhor Animação foi para Valente, deixando dois concorrentes muito merecedores e ousados tristes: Detona Ralph e ParaNorman. Acredito que foi exatamente por isso que não ganharam o prêmio: a ousadia. Entre os dois, ParaNorman se destaca pela maturidade em temas bem peculiares e é sobre esse rapaz de cabelo de vassoura de bruxa que vou tentar rabiscar umas falhas palavras de emoção louca de um amante de animação.

     
         Entre a animação em geral, sou um eterno apaixonado pelo stop-motion. Não sei, não me perguntem coisas técnicas e seus relativos, aqui fala um cara que só entende do sentir que um filme lhe passa e posso dizer que o cuidado e o carinho de stop-motions sempre me ganhou. Talvez pela delicadeza e fluidez diferente dos demais, talvez pelos detalhes conseguidos de uma maneira tão árdua e artística, talvez por saber que tem trinta caras soando pra cacete pra fazer uma cena de dez segundos e que conseguem fazer um filme de uma hora e meia com maestria, talvez por sentir calor humano, um contato maior artista e arte, que modifica aos meus olhos estrábicos e obsessivos compulsivos. ParaNorman já começou me ganhando por isso. Não que eu soubesse que era stop-motion no inicio nem enquanto o filme passava, mas quando comecei a pesquisar para essa resenha mal desenhada e vi essa foto (então o certo seria que ParaNorman terminou me ganhando com esse fato, não começou, o que demonstra que o filme é além de sua animação).



    Norman é um garoto comum com uma capacidade que o difere dos demais e é daí que começa a dificuldade em sobreviver num lugar de iguais sendo tão destoante. Pela sua dicotomia, que, para o expectador inesperado quando é revelada surpreende (e isso é no começo do filme, mas não darei spoiler algum para te deixar com água na boca), ele é excluído e massacrado pelos que não o compreendem ou que apenas tem medo de seu jeito de ser.



 Norman e seu amor pelo macabro
     Veja, não existe o mau ou o bom, as pessoas são impulsionadas pelo medo, pelo preconceito e pela maneira como enxergam as coisas com os olhos turvos ou límpidos e é aí o primeiro ponto de suma importância desse filme e que demais filmes de animação vem fazendo (como exemplo, Detona Ralph): A quebra do maniqueísmo para as crianças. Botar desde cedo um tema tão trabalhado pesadamente em livros e filmes (Dançando no Escuro, do Lars é o exemplo mais pontiagudo que me veio à cabeça) numa linguagem irreverente e acessível é uma obra de arte a parte. Acredito que esse tipo de realidade que se expõe na mente de um ser desde jovem serve como salvador de vidas, quebrando conceitos sociais velhos e deturpados que estragam e limitam o ser humano. E isso o filme faz com maestria, quando as realidades invertem-se e tudo se resolve numa tentativa desesperada de diálogo entre seres cegos que utilizam a pancadaria acéfala para terminar com seus problemas. Ta aí, mais uma crítica da ParaNorman: à sociedade cega, surda e muda, marionetes do medo imposto pela mídia em geral, à sociedade violenta onde o mais puro apelo de socorro verdadeiro é perdido entre balburdias e agressões verbais cegas. E vemos então outra crítica: à falta de diálogo entre pais e filhos, essa distância de eras que não se compreendem, talvez por não falarem a mesma língua, talvez pela inveja que existe da maturidade pela juventude, talvez por não estarem na mesma onda vibratorial (e encaixe aqui todos os argumentos filosóficos e espirituais que conheças), abre-se um enorme abismo entre seres que moram tão perto, um enorme muro berliniano entre suas realidades, e passa-se à total incompreensão de ambas as partes que procuram o porquê de atos tão estranhos do outro em resposta aos seus.

     
E é isso que vemos na gama de relacionamentos dos filmes: os excluídos sociais, os excluídos familiares, os narcisistas perdidos dentro de si, os brutos incompreensíveis, os mansos delicados, os idiotas monstruosos, os especiais, todos juntos num só balaio de gato tentando se comunicar da maneira que conseguem, verdadeira torre de Babel, em suas linguagens dicotômicas que logo viram um grito enorme de incompreensão mútua. A descoberta do sexo e da violência também são marcados, ainda que de passagem, no filme, com pequenas piadas que devem deixar os pais de cabelo em pé nos cinemas junto dos filhos, por serem inesperadas de saírem da boca de criaturas tão bonitinhas. Bonitinhas e cheias de problemas, como todos nós e isso, ah, isso sim assusta; onde já se viu um filme de animação ser tão real em sua surrealidade?


Para mim, os roteiristas e animadores estão de parabéns pela ousadia que sempre precisou existir nessa esfera de filmes. A fábula e a trama é bem diferente, com subtemas de muita discussão, tais como: a exploração capitalista em cima de um fato histórico, vida e morte, realidades, o medo do ser humano explodindo por todos seus poros, a cegueira da violência, o “bullying” nas escolas e em todos outras dimensões existenciais da vítima, a amizade além das diferenças, a quebra do maniqueísmo, as escolhas e suas respostas futuras, a falta de diálogo e compreensão, a sexualidade, e talvez mais, para aqueles que enxergam além do meu horizonte encaixotado. E além de toda essa profundidade tão bem desenhada numa camada lúdica e fluida (tanto que nem percebemos quão pesado é tudo aquilo que passa correndo pelos nossos olhos) o filme é uma grande homenagem aos filmes clássicos de terror. Sim, ParaNorman nada mais é que, além de tudo isso, uma animação stop-motion de humor negro e terror infantil e posso dizer, sem nenhuma vergonha, que até eu fiquei temeroso certos momentos.


O que mais me surpreendeu foi o modo gracioso em que tocaram com a temática vida e morte, brincando com essa fina linha que separa os mortos e vivos e que foi tanto mexida ao longo dos anos. Não vi nenhum outro filme falar disso com tanta franqueza (fora Mary and Max). A cena final das descobertas e do alívio de uma alma presa na dureza da terra e por isso muito, muito brava, é de uma beleza tocante. Da música aos diálogos à arte visual, tudo paira numa fluidez espectral, afinal, tudo é muito belo, sabe?, aquela beleza rara e frágil de uma criança?, isso se encontra em momentos duros, o amor entre os espinhos tesos loucos para arrancar sua pele, a flor que nasce entre as ervas daninhas do desentendimento. O espectador apaixonado torce para um amor além dimensões, mas isso não é possível, nem numa animação, veja você. E ficamos na mão, mesmo felizes, porque o ser merece um pouco de amor no meio de tanta falácia, arrogância e solidão. Ao fim ele tem, tem sim, mas o quanto se desgastou pra isso é muito maior.


Hoje, posso marcar ParaNorman junto das minhas animações prediletas (Wall-e, Toy Story, Procurando Nemo, O Estranho Mundo de Jack [que é um clássico nesse quesito], Mary and Max [essa vale fazer uma resenha a parte também] e outros amigos que aqui me esqueço) e se não assistiu, por favor, desliga esse computador e vai alugar o mais rápido possível. E sim, chama os primos, os parentes, a avó, a mãe, os amigos, é um filme universal que fala todas as línguas em sua ousadia deliciosa. Deixo aqui a bela trilha sonora da parte final, que é muito tocante (especialmente a partir dos 2:10 do vídeo, se não tiver paciência, pule pra esse momento, dispa-se de si e sinta).

























domingo, 27 de janeiro de 2013

A espera e o milagre.



Tom Hanks e seu biquinho no poster do filme

     Lembro que quando assisti À Espera de um Milagre não esperava milagre algum e nem sabia o que era um Stephen King e mesmo em minha total ignorância (que muito não mudou) e desesperança (idem ibidem) o filme me atingiu como um raio, explodindo meu ser que transfigurava-se em gordas gotas de água e sal, quase um biscoito gigante pronto pra ser mergulhado em café borbulhante e engolido por saudáveis dentes cavalares, tamanha insignificância me senti, tamanha quantidade de água e sal lambiam meu rosto.

     Não que o meu chorar valha alguma moeda furada, para um cara que chora assistindo Adam Sandler, mas esteja certo que meu total silêncio e envolvimento valem alguma coisa no mercado negro.

Circus Mouse - the-green-mile Screencap
o caótico rato (não, não vou por fotos de infecção urinária)

     Ali me vi nos EUA dos anos 30, numa ala maldita de uma maldita prisão onde um simples rato e a infecção urinária do chefe são temas discorridos, importantes e odisseicos. Agradou-me muito o filme, mas ao revê-lo, encarcerado na jaula das minhas férias, percebi mais nuances do que antes, quando usava meus olhos desesperançosos e não-stephenkingianos.

     Os diversos temas abordados – velhice, morte e suas penas, vida e suas mortes, religião, racismo, preconceito, inocência, doença, criminalidade, etc e tal – desfilam de maneira plausível e inteligente entrelaçados no roteiro adaptado de Frank Darabont (que adaptou Um Sonho de Liberdade [1994] e O Nevoeiro [2007], ambos obras de King).

     Infelizmente, não li o livro, mas posso afirmar que após o filme a venda aumentou de maneira tamanha que a foto do pôster do filme apossou-se da capa do livro, fazendo muitos leigos não saberem dizer quem era o pai e quem era o filho. Espero que o Breno, outro Stephenkingologista, tenha o lido e assim, quem sabe, pode nascer uma “““matéria””” comparada à la top 10 e outras loucuras, portanto, cruzem seus dedos inexistentes.

sim, esse é o livro (com o biquinho do Tom Hanks para os leitores)

     Muito se há pra falar desse filme e em cinco parágrafos eu não disse nada (esse é meu poder especial: falar muito e não dizê-lo), vamos em partes então, provavelmente não vou atingir tudo que quero, mas passarei de leve, num cafuné simpático que não se nega. Um exemplo que chamou minha atenção nesse filme foi a atuação de Michael Clarke Duncan, que deu vida a John Coffey com sua excelente, desconhecida e despretensiosa atuação que foi conhecida nas esferas do Oscar e do Globo de Ouro, apesar de não ter ganhado, e que transformou milhares de pessoas em biscoitões de água e sal.

     Duncan morreu, aos 54 anos, e posso dizer que fiquei triste, pois criador se mistura com criatura e é algo mais forte do que nossos osteoporósicos braços humanos conseguem separar. Assim como John Coffey viveu pelo amor e morreu por uma morte envolta no amor de duas irmãs e de um psicopata (que nada mais é que o amor enlouquecido e elevado em todas suas potências), Michael sobreviveu um pouco mais movido pelo amor de sua noiva, que o resgatou da morte reanimando-o após uma parada cardíaca (imaginem a força de alguém a reanimar um corpo de 150 quilos). Não que eu acredite em milagres, mas se o milagre for amor, aquele amor que te injeta adrenalina, que te faz dar vida em troca da sua, pois muitos sabem que com a adrenalina e a força utilizada numa reanimação pode-se muito bem ter uma parada cardíaca você mesmo, posso dizer que fico um pouco bambeado nessas questões. Mas como o mundo real é real e cruel, e nas coisas reais e cruéis o amor, com todos seus poderes e invenções, não tem vez e é normalmente pisoteado por aquilo que tem que ser, Michael foi para o hospital e, enquanto todos estavam à espera de um milagre, faleceu, imortal nos olhos do puro e bobo John Coffey (o único papel que mostrou a capacidade desse ator, infelizmente). Disso tudo, posso dizer que Deus é um péssimo roteirista e que meu fluxo de pensamento é uma bagunça.

John Coffey assistindo os anjos e me transformando num biscoitão

     À Espera de um Milagre é um filme que vai te apaixonando aos poucos e te destruindo aos poucos, para que, quando perceba, não há mais muito em que se apoiar, pois se os seres vivos existem pra morrer que esperança resta? E se todos nós sabemos dessa finitude escancarada no final do tudo, o que esperamos e do que esperamos esse milagre? A irônia sagaz de Stephen King está pincelada levemente em conversas religiosas, nos moldes dos personagens e suas facetas, na total destruição do milagre, porém não da sua espera, o que é o mais importante. Porque é a espera que se faz caminhar, deslumbrado pelo saliente corpo invisível e intocável do impossível, tateando e descobrindo o mundo na cegueira do querer improvável. Apesar de ser cruel e paradoxal, é a espera que move, é a esperança (palavra que tão pouco recorro e que desacredito, talvez por isso seja tão sedentário e desconhecido). Paul Edgecomb consegue o milagre, mas vemos que não há prazer, que não há deleite, que às vezes a espera(nça) é melhor do que o milagre em si.


Paul Edgecomb

     É um filme tocante, em minha opinião fecal, e gastei tantas palavras tentando prova-lo que nada falei, peço paciência e toda a boa vontade que não tenho. Uma das cenas que mais me puxam pela orelha, que mais fazem meus olhos brilharem com o líquido da nostalgia inexistente, com a falsa memória de um passado morto, que mais me enervam com a sabedoria de que tudo vai piorar, e vai sim, porque Stephen King é um filho da uma puta, é a bela cena de John Coffey vendo os anjos dançarinos cantando Cheek to Cheek. E já que não falei nada até agora, continuemos calados, ouvindo essa canção e vendo os anjos dançarem.