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domingo, 27 de abril de 2014

Vivendo ao vento

"Le vent se lève
Il faut tenter de vivre"

Em tradução livre de quem apenas começou seus estudos no francês:

O vento sobe
Deve-se tentar viver.

Os versos de Paul Valery são a coluna dorsal e o cordão umbilical de Vidas ao Vento (Kaze Tachinu, no original), última animação de Hayao Miyazaki. Ao mesmo tempo em que dão delicada estrutura à elaborada narrativa, também conectam a uterina animação do diretor japonês à realidade, ao público e, principalmente, à si, estabelecendo uma forte ligação autor-obra.





Le vent se lève


Diferente de todos os seus filmes anteriores, Vidas ao Vento não possui quase nada de mágico ou sobrenatural. Miyazaki, conhecido por seus monstros mitológicos, seus universos impressionantes e maravilhosos, seu dom natural para lidar com o sobrenatural, opta por retratar a vida real de um personagem real, tornando Vidas ao Vento sua primeira e única cinebiografia, apesar de bem ficcionalizada, é verdade. As partes mágicas se concentram nos sonhos do personagem, que nos lembram a incrível capacidade criativa do diretor, ao mesmo tempo em que nos coloca uma firme clivagem em relação às suas outras obras: se nelas a magia e o incrível eram comuns e difusas no "mundo real" em que seus personagens se encontram, agora, em Vidas ao Vento, eles pertencem ao mundo dos sonhos. Mas isso não despe o filme e o mundo nele retratado - o "nosso" mundo - de encanto. Pelos olhos e mãos de Miyazaki, o cotidiano e o mundano ganham delineações maravilhosas e cativantes. A crueza da dor e da tristeza das tragédias, nunca escondidas em seus filmes, é pronunciadamente bela. Os sonhos e conquistas, distintamente doces.


O diretor conta a história do designer de aviões Jiro Horikoshi, que projetou o Mitsubishi A6M Zero durante a Segunda Guerra Mundial. O modelo foi considerado um marco na história da aviação por seu design avançado e de grande eficiência. A história de Jiro, no entanto, se funde com um Miyazaki também, em parte, ficcionalizado. De fato, penso que talvez não seja possível compreender todo o significado do filme sem conhecer um pouco da história do diretor.


Hoje com setenta e três anos, Hayao Miyazaki nasceu em uma época em que, há não muito tempo, o ser humano havia descoberto a possibilidade de voar. Ele pertence a uma geração que provou em primeira mão as maravilhas e os encantamentos da aviação incipiente. Imagine o leitor o assombro ao ver um avião pela primeira vez, o quão incrível não deveria ser aquilo que hoje é tão natural para nós? O quão fascinante? Somando-se a isso, seu pai era dono da fábrica de peças de aviões Miyazaki Airplane, o que o aproximou ainda mais das asas. Sua paixão por aviões está evidenciada ao longo de sua filmografia, onde há grande recorrência à aviação e à paixão de seus personagens por voar. Voltando rapidamente ao tema do filme, a fábrica de seu pai fez peças para o Mitsubishi A6M Zero, projetado por Jiro Horikoshi, o que já estabelece um contato inicial entre autor e personagem e dá ao filme outro significado.


Percebe-se logo que Jiro é Miyazaki e Miyazaki é Jiro. Isso fica mais evidente quando temos em mente que o diretor controla todos os passos da produção de seus filmes, muito embora tenha uma equipe que o auxilie. Assim, ainda utilizando-se bastante da animação à mão, Miyazaki fiscaliza frame por frame para ter certeza que seu filme atinja seu padrão de qualidade. Isso e o fato de seus filmes e seu Studio Ghibli terem feito sucesso em seus próprios termos e não em outros, ditados pela indústria cultural, permitem ao diretor controle absoluto de suas criações. De fato, não é apenas Jiro Horikoshi que é Hayao Miyazaki, mas cada aspecto do filme, cada cena, cada diálogo, cada detalhe, cada soprar de vento.

O vento, aliás, localizado na centralidade do filme, é a força motora que faz o enredo caminhar. É o vento que leva e carrega e é trazido pelos aviões. É o vento que, participante ativo, proporciona os principais eventos na vida do personagem. Repetindo: o vento é a força motriz que carrega o enredo, mas não só. É também o que dá força aos personagens, sobretudo à Jiro.


O vento que sobe é o sopro na alma.


Il faut tenter de vivre

Tendo nascido durante a Segunda Guerra Mundial, Hayao Miyazaki, mesmo muito novo, experimentou os terrores da guerra quando sua cidade foi alvo de bombardeio, o que acabou destruindo-a em um incêndio. Tinha quatro anos então, mas jamais esqueceu o crepitar e o alaranjado do fogo no céu escuro. Talvez por isso tenha adotado uma filosofia humanista e pacifista de forma tão firme, coisa que se reflete constantemente em seus filmes. Vidas ao Vento dialoga com isso. De fato, ao escolher um personagem histórico como protagonista, personagem este que fabricava aviões para um Japão em guerra, Miyazaki fez uma escolha provavelmente proposital, não apenas para homenagear aquele personagem, mas também para discutir os aspectos morais de se construir aviões como armas de guerra, mas, ao mesmo tempo, ser contra a guerra. Lembrando que o próprio Jiro Horikoshi, o histórico, era contra o envolvimento do Japão na Segunda Guerra Mundial. Em uma de suas anotações, Jiro escreve sobre a guerra:


"O Japão está sendo destruído. Não posso fazer outra coisa senão culpar a hierarquia militar e os políticos cegos por arrastar o Japão para este caldeirão infernal de derrota"


Como em outros filmes, Miyazaki entra numa área cinza da moral. Sabendo que se faz armas de guerra, é certo continuar desenhando e fabricando aviões e, mais ainda, projetando inovações que melhorem sua eficiência? A mim, Jiro responde, secretamente: Meu maior sonho é fazer aviões. Foi com isso que sonhei quando criança e era isso que respondia quando me perguntavam o que seria quando crescer. Não achava que aviões servissem como armas, pelo contrário, sonhava com grandes aviões que transportassem centenas de pessoas pelo mundo. Aviões são lindos, sussurrava, para quem quisesse ouvir, são os homens que fazem deles armas de guerra, mas isso não significa que não devamos construí-los. Aviões são sonhos que eu tenho a oportunidade de tornar realidade!

Jiro sabia das consequências de suas criações: "nenhum deles voltou", diz, ao final, melancólico e exausto, sobre seu Zero, sua obra prima, mas sabia também que deve-se tentar viver, da melhor forma possível.

Em seus sonhos, Jiro dialoga com um dos pioneiros da aviação, Giovanni Caproni, que lhe questiona, ao ser confrontado com o mesmo dilema moral: "você prefere um mundo com ou sem pirâmides?", quer dizer, as coisas grandiosas, que são feitas a custo de sangue e suor, merecem ser feitas?

É uma questão polêmica e, quer concorde com ela ou não, é uma discussão que o diretor está propondo. Em Vidas ao Vento, não há espaço para o maniqueísmo: as coisas são como são e os julgamentos de valor são de cunho pessoal e subjetivo, não inerentes à realidade. Em certo momento do filme, Miyazaki (que, aliás, tem diploma em Ciência Política e Economia) destaca a enorme desigualdade social no Japão da época, que investia fortunas para fazer aviões de guerra enquanto seu povo passava fome. As coisas são como são e a vida, muitas vezes, é uma triste realidade, violenta em muitos sentidos... Mas, como sempre, deve-se tentar viver.

Vivendo


O fato é que o último filme de Miyazaki, e eu digo último não apenas por ser o mais recente, mas também pelo diretor ter anunciado a aposentadoria após seu lançamento, nos transporta diretamente para o Japão da primeira metade do século XX: aquele país agrário, atrasado tecnologicamente, que viria a se tornar um importantíssimo pólo tecnológico mundial. Vemos os costumes mudando: as ideias e hábitos ocidentais se infiltrando na cultura tradicional japonesa, a carne tomando lugar do peixe, o café substituindo o chá... um retrato muito vivo de uma época passada. E, acima de qualquer coisa, com personagens muito vivos, com emoções e desejos e falhas muito, muito humanas.
Vidas ao Vento, com sua belíssima animação, de movimentos fluidos (sobretudo os movimentos do vento, maravilhosamente trabalhados) e estonteantes paisagens, nos carrega em seu voo pela vida de Jiro Horikoshi e pela alma de Hayao Miyazaki e nos presenteia com um tocante presente de despedida do diretor: uma verdadeira ode à vida.










quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um Ninho Para Estranhos

     Acabo de ver o  (aproveitando o clima dos últimos dias) ganhador de Oscar(es) "Um Estranho no Ninho" ou, em seu título original e, cá entre nós, muito melhor, "One Flew Over the Cuckoo's Nest" (Um [ou "Alguém"] voou sobre o ninho de cucos [aquele pássaro, serve como analogia para maluco... ah, vocês entenderam]). Impossível para mim, estudante de Ciências Sociais e com irmã psicóloga, separar o filme do discurso antimanicomial que ronda este universo e que, aliás, celebra seu dia em 18 de maio. Dito isto, vou comentar misturando elementos do filme com minhas experiência pessoais. Espero que a lambança não seja demasiada.



   

O Personagem Principal



    Jack Nicholson é Randle McMurphy, detento que se faz de louco para ir terminar sua sentença no manicômio. Agora, na primeira cena de Randle com os pacientes já sacamos o que vem por aí... o cara chega, muda a porra toda, não sei o quê... É, é basicamente isso que acontece... a fórmula é antiga (mas, pensando bem, o filme também é), mas isso não estraga o filme... O grande diferencial de Randle no manicômio não era sua saúde mental perfeita, mas sua rebeldia anárquica e cheia de vida. Ao longo do filme, vemos essa vida se refletindo nos outros personagens e produzindo a mudança de comportamento, talvez não da instituição, mas pelo menos dos pacientes. Randle McMurphy é o personagem que rendeu ao Jack Nicholson o Oscar de melhor ator... ou talvez seja Jack Nicholson que tenha rendido a Randle McMurphy tamanho... bom... tamanho como personagem... a questão é que por mais que Randle seja um personagem manjado na história do cinema e da literatura, ele é diferente. Honestamente não sei o porque disso, talvez seja o sorriso de maníaco do Jack Nicholson ou talvez seja a doçura com que Randle acaba tratando seus amigos e companheiros de hospício, um carinho velado e ao mesmo tempo muito aparente... sei lá... mas tem algo a mais.


O Manicômio


     Quando fui à minha primeira manifestação do dia da luta antimanicomial no ano passado, saí de lá muito diferente. Foi na Praça XV, onde diversos grupos estavam mostrando ou fazendo algum trabalho. Minha irmã e o namorado estavam lá, minha irmã fazendo trabalhos de mosaico com alguns pacientes e quem mais quisesse participar. Falando em pacientes, a presença deles marcou uma mudança bem grande no modelo de manifestação política que eu via desde o início do ano... veja, acontece que antes e depois de entrar na faculdade, eu participei de muitas manifestações e a cada uma crescia a decepção... era ridículo como os supostos interessados dos protestos não estavam nunca presentes... a questão aqui não é a "alienação" deles, mas a pretensão de partidos e jovens universitários de quererem representar alguém que não pediu para ser representado... era frustrante como falavam em nome de tanta gente que sequer os conhecem, muito menos reconhecem. Aí aparece o dia da luta antimanicomial, quando terapeutas e administradores e pacientes manifestam-se juntos em um evento cheio de atividades de integração entre os que estão de fora e os que estão de dentro da questão, há demonstrações dos trabalhos desenvolvidos por grupos e tal, instrução, etc... nada de um homem de partido berrando no megafone frases de protesto incompreensíveis se isoladas, costas viradas para a população... Não... se no protesto das barcas eu não vi nenhum trabalhador deixando de ir trabalhar para se juntar à manifestação, neste eu via dezenas de passantes parando para ver o que era tudo aquilo.
18 de maio (Dia da Luta Antimanicomial) 2012 na Praça XV

     Em um momento, um telão começou a passar um videoclipe de uma música feita pelos pacientes de um certo grupo (acho que era o CAPS da UERJ, mas não posso confirmar). Os psicólogos tocavam os instrumentos e os pacientes cantavam. Esses mesmos pacientes se encontravam lá no evento e, enquanto passavam o vídeo, eles cantavam junto. Nunca vi um grupo de pessoas mais feliz... isso mexeu comigo... imaginei o orgulho que todos eles sentiam de fazer parte disso, desse acontecimento, dessa conquista. Eles haviam feito aquilo e fizeram com o próprio suor. Isso mostra que eles tinham (e tem) capacidade, é a autoconfiança que eles precisam para se integrar na sociedade... e afinal, imagino ser esta a função da saúde psicológica, fazer a integração do paciente na sociedade, para que ele possa ter uma vida, se não normal (no sentido que é dado mais comumente), ao menos saudável, com as implicações que tal palavra traz. A esse propósito, estabelecer uma "função" ou ao menos uma "funcionalidade" ao paciente faria parte do processo de integração.

     Tudo isto se encontra presente no filme, mas de forma inversa. Como se passa num manicômio, as críticas feitas ao sistema manicomial de tratamento são incorporadas às atividades na forma de orientação. Assim, vemos claramente e, em primeiro lugar, o distanciamento do médico com o paciente. Não lembro de cena que mais demonstre isto do que a que a enfermeira, ao se deparar com Randle na sala privada berra "STAY BACK!" em claro horror e medo. Não só há o distanciamento entre os dois atores da relação - o terapeuta e o paciente - há também a desumanização de um de forma que o tratamento se diferenciará completamente do que seria dado a uma "pessoa normal". Por isso o medo da enfermeira. Não se sabe do que aquele ser é capaz, não se dá uma humanidade para ele, sua identidade permanece apenas e somente como "o doente mental". O isolamento deste "doente" é talvez a mais frustrante e alarmante característica deste símbolo manicomial. Como pode o paciente ser reintegrado à sociedade se ele é tratado como algo externo a ela? Justamente aquilo que se evita fazer é o que se faz e somente aquilo. Uma vez que o espectador percebe - como percebe Randle, após saber que só através do aval médico ele sairá de lá - que os pacientes se encontram num ciclo vicioso de reafirmação da psicopatologia e isolamento social através do próprio tratamento, que os pacientes nunca sairão do manicômio, mesmo aqueles que estão lá voluntariamente, pois a ideia da psicopatologia e da sociedade como algo externo a eles ("Não estou pronto ainda", disse Billy) já são ideias que estão enraizadas neles próprios e não apenas na instituição manicomial... uma vez que o espectador percebe isso, instala-se o desejo de fuga. Bom... pelo menos comigo isso rolou... precisava que aquelas pessoas saíssem dali.

     Creio que a cena mais simbólica deste processo de encarceramento psicopatológico dentro do manicômio seja uma do Billy que, após uma noite com uma moça, sua gagueira - manifestação física de algum trauma psicológico ou seja lá o que for que despertava sua depressão e vontade suicida - tinha sumido. Com o confronto da enfermeira Ratched, - a puta mais desgraçada que já vi no cinema - sua gagueira retorna e... bem... o resto é história... Claro que Ratched filhadaputamente usou o gatilho depressivo do Billy (a mãe dele - eu sei, eu sei... cliché) contra ele ao invés de reconhecer a melhora do paciente. Isso porquê, claro, ela colocava a moral pessoal acima do profissionalismo e etc... e era uma megera odiável. Mas a questão é a melhora do paciente não ser a prioridade ou acho que nem isso... não ser sequer reconhecível através do processo manicomial.

     O entorpecimento contínuo com o uso de remédios e tratamentos de choque e a fatal lobotomia são modos de berrar, eu disse BERRAR que a psicopatologia é incurável (uma vez louco...) e que o paciente deixou de ser paciente no momento em que entrou na instituição, que não é nada além de uma instituição carcerária, onde, mais que isso, os internos são tratados como completos inúteis, incapazes de fazer nada, completamente desencorajados a se expressarem... Mais do que um cárcere físico, o manicômio representa uma prisão da alma, e é nesse estado morto dos pacientes que Randle chega lá.


O Antimanicômio


     Randle McMurphy é o transgressor... aquele que acabará com a ordem manicomial e questionará suas práticas. Desde sua chegada, quando dado o remédio (sem nem ao menos ter recebido um diagnóstico objetivo antes! - ele estava sob observação), ele pergunta o que é. Sem responder à pergunta, a enfermeira apenas ameaça fazê-lo tomar o remédio à força. É claro que ele não toma, guarda o remédio na boca e faz piada disso.
     Randle, o anárquico cheio de vida acaba, mesmo que sem querer, mesmo que só visando seus próprios objetivos, contagiando o resto dos pacientes com sua vida e jeito enérgico de ser. Os pacientes, como Randle, começam a questionar o tratamento dado a eles. Se não saem completamente da norma manicomial, ao menos iniciam um processo visando isso... Talvez Billy Bibbit tenha sido, com exceção do Chefe (chegaremos lá), quem mais se aproximou da possibilidade de "cura" (ou ao menos de aprender a lidar com o sei lá como se chama que ele tem) através do "processo antimanicomial" liderado por Randle. Claro que quando Billy chegou lá, para a frustração geral, a enfermeira Ratched interveio. 

     O que Randle fazia era sim, no fim das contas, uma via de terapia alternativa ao manicômio. Isso se expressa bem em um questionamento feito por um dos pacientes (não me lembro qual). Ele pergunta se assistir ao jogo de baseball não poderia ser considerado também uma forma de terapia. É ousado! E corretíssimo! É sobre isso que o discurso de inserção na sociedade se basearia, eu acredito, na... bem... na inserção na sociedade! Como pode um americano não assistir a um jogo de baseball? Quer dizer, ser privado disto?! É como um brasileiro ser privado de ver futebol. Como pode alguém ser privado de algo que é fundamental naquilo onde quer ser inserido? Acho que vai além, como pode alguém ser privado de uma experiência tão básica? A questão aqui é aquela já explicitada: não separar o paciente da sociedade! Não isolar o indivíduo em tratamento! A interação de Randle com o resto dos personagens cria uma certa teia de afinidade dentro do hospital. As relações pessoais passam a ser mais intensas, as interações mais afetuosas... em resumo... Randle contagia cada um ali com sua intensidade. Vê-se a vida presente neles, a ideia de liberdade e de paixão e Randle McMurphy tornara-se o símbolo disto tudo, era ele quem havia trazido esta nova perspectiva - se é que havia outra antes. 

     É o método de terapia que Randle aplicava (inconscientemente, claro) que bota em julgo o modo de ser do manicômio, de dentro para fora. Este que representa este espírito antimanicomial que transformou os pacientes e, de uma forma ou de outra, o próprio hospital psiquiátrico, mesmo que, novamente, a instituição tenha se mantido inalterada. Tem uma cena muito interessante que se passa quando eles sobem em um barco no cais. Para se apresentar, eles tomam o papel de doutores. Essa inversão de papéis, de função e, mais importante, de hierarquia, mostra a ordem manicomial subjugada pelo espírito antimanicomial subversivo.


O Chefe Bromden


     Brilhantemente interpretado por Will Sampson, este personagem por si só já merece uma seção só dele. O Chefe é um imenso índio surdo e mudo (que revela alguns segredos após estabelecer uma silenciosa amizade com o protagonista). É ele, na minha opinião, o fio fundamental do filme, aquele que conduz o andamento das coisas e, secretamente, um protagonista nas sombras de... bem... de todo o resto. O Chefe é a timidez e a impotência presentes num potencial imenso. É a autoestima encolhida de um corpo enorme. Ele representa o indivíduo no manicômio e seu processo de libertação pode muito bem ser extendido a todos os outros pacientes, só que de forma diferente. Acompanhamos seu... desabrochar (perdoe a péssima utilização da palavra) ao longo do filme, de um poste, uma cenografia enorme, até um personagem bastante relevante, que conseguimos nos relacionar e simpatizar, até a cena final do filme, cheia de simbolismos e que representa muito no universo da trama. Bom... pra mim, pelo menos... 
      O Chefe será o espírito daquele manicômio e quando ele diz que já está grande o suficiente, é porque os demais pacientes também se sentem mais dispostos. Randle ajudou o chefe a interagir, deu confiança a ele, assim como fez com o restante dos internos... 
     
     E isso nos leva ao título do post... com o isolamento dado aos pacientes, eles se tornam estranhos a qualquer outra coisa, são estrangeiros ao mundo e é justamente este outro estrangeiro, este recém-chegado que não consegue se adaptar ao mundo externo (fora preso diversas vezes!) que transforma este inferno, este presídio da alma, em um ninho... é ele que consegue trazer conforto, acalento, pertencimento aos internos e por isso "um ninho para estranhos"... porque aqueles que eram tidos como algo diferente, se encontraram em algo que poderia ser tido como deles e... semelhante... que os aceitasse...
     

     Ok, se até agora não dei nenhum grande spoiler, é aqui que começa. Você que não viu o filme pare de ler ou continue, mas foi avisado! 


O Fim


     E é assim que matam Randle. Após o suicídio de Billy pelas mãos da enfermeira Ratched, após o ataque (extremamente justificado) de Randle à mesma, realizam uma lobotomia nele, o "diminuem", o anulam, o matam. E é por isso que o Chefe, agora grande, forte, confiante, graças ao seu amigo, o sufoca. O Chefe dá-lhe a liberdade, assim como o faz com os demais na cena final do filme, ao libertar a si mesmo. Pois se é ele o grande fio condutor, o grande espírito e alma daquele hospital, sua liberdade representa a liberdade dos outros. A forma como olham animados a fuga do Chefe, a forma como, apesar da morte de Randle (e, se eles ainda não sabiam, ao menos do sumiço dele), a esperança continua (ou voltara) a brilhar em seus olhos... A mudança estava feita e essa era a prova maior disto. Os pássaros, os cucos, estavam prontos, já podiam voar do ninho.






Deixo aqui meu respeito e admiração pelo ator Will Sampson. Que, assim como seu personagem, ele tenha encontrado a liberdade depois da janela.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Oh, Django!

O Horácio me pediu para descrever em uma palavra Django Unchained (Django Livre, no Brasil), o novo filme de Quentin Tarantino; "Maduro", eu disse... tentarei explicar o porquê disso abaixo...

Uma nota preliminar antes... eu gosto de dizer que não se lê resenha ou mesmo a sinopse antes de ver um filme. Por mais que se evitem spoilers (revelações da trama), ver o filme completamente despido de informações (sobre o mesmo) ajuda a construir uma visão própria e formar suas próprias críticas, sem nunca esperar algo que possa ou te decepcionar ou estragar o elemento da surpresa, que conta muito para algumas obras... Dito isso, concluo que, caso você não tenha visto o filme ainda, suplico, imploro de joelhos que pare de ler esta suposta resenha aqui mesmo, porque, por mais que eu me segure nos spoilers, eles serão inevitáveis. Volte depois, caso ainda se interesse e vamos discutir, mas não leia agora! Mas, se você já viu o filme ou não liga para nada do que eu falei, sinta-se em casa...

Comecemos!

Música Tema de Django

     Por que, na minha opinião, Django é "maduro"? Para começar, dá uma dimensão profunda dos personagens, coisa que, por mais que sim, acontece nos filmes do Tarantino, depois de um tempo se torna razoavelmente raro... Em geral (e isso é uma opinião minha), os personagens são utilizados como instrumentos para o desenvolvimento da trama. Django, no entanto, muda muito durante o filme e nós temos o prazer de acompanhar este processo. Em outras palavras, a trama interage com o personagem, não o comanda. Django só faz as coisas de tal maneira porque existe uma história por trás que o tornou daquele jeito (e nós podemos acompanhar essa história). Isso é novidade! Em Pulp Fiction, por exemplo, onde diversas histórias ocorrem e se entrelaçam, a mudança mais significativa talvez seja a do Jules, personagem do Samuel L. Jackson (que aparece em vários filmes do Tarantino, aliás), mas mesmo assim, é um instante, uma coisa pá-pum, não tem o sentimento de que o personagem está mudando. Um evento, um "milagre" ocorre e ele é outro homem. Em Kill Bill, da mesma forma, a Noiva muda após o ensaio de casamento frustrado e etc... Em todo caso, o ponto é: existe um desenvolvimento (essa era a palavra!) do personagem, acompanhamos Django ir de um escravo assustado e inseguro até... bom... até o final do filme...
     Outra coisa são os laços criados com seu parceiro, Dr. King Schultz (divinamente interpretado por Christoph Waltz, aliás, que já atuou em Bastados Inglórios [Inglorious Basterds] também do Tarantino) estão lá, às vezes externalizados, como em uma das cenas finais, quando Django beija seu corpo (eu avisei que haveriam spoilers!) e outras, implícitos nas ações e atitudes dos personagens.

Cena abaixo citada, para quem quiser relembrar.

A sequência de cenas, aliás, que representa o inverno que passaram juntos, sob o som de "I Got a Name" é uma das partes mais bonitas e tocantes do filme. A fotografia do filme é incrível, seja exibindo as belezas do "Wild West" americano, seja experimentando com a iluminação (vocês sabem do que eu estou falando, a cena do tiroteio na casa grande é um bom exemplo), seja utilizando aquelas tomadas à la Sergio Leone.

Cena de "Três Homens em Conflito", filme de Sergio Leone e grande influência para Tarantino














     Falando nisso, que puta trilha sonora o Tarantino escolheu, de black music aos clássicos do western (Ennio Morricone!), passando por Johnny Cash... É realmente de espantar como tamanha diversidade se encaixou no filme com tamanha perfeição... Mas, fotografias, personagens e trilhas à parte, vou tocar nos pontos que eu pensava quando saí do cinema na primeira e na segunda vez em que vi o filme e que são os motivos de eu estar querendo fazer esta resenha caseira.

1)  Romance

Django é, apesar de tudo, uma história de amor. Como ressalta o Dr. Schultz, Django é Siegfried atrás de sua princesa Broomhilda. E claro, por causa disso, o final não poderia ser diferente. Mas chegaremos lá. Essa forma inédita de encarar tema tão polêmico - escravidão - nos dá a possibilidade de explorar Django não como um escravo (símbolo), mas como pessoa (indivíduo). Isso humaniza o escravo, o afasta das considerações ideológicas, das lutas e o torna acessível ao espectador, o torna igual, em sentidos de ser gente. A escravidão não é o foco principal nem é o objetivo do protagonista acabar com ela. Ela é circunstancial e, apesar de ser um dos pilares centrais da narrativa, está apenas em segundo plano. Isto permitiu algumas coisas ao diretor. Primeiro, que a brutalidade da escravidão fosse evidenciada. Segundo, que esta fosse relativizada (também chegaremos aos dois pontos ainda). E ambos sem nunca comprometer a coerência da busca do protagonista.


2) A relativização da escravidão

Como em Manderlay, filme do Lars von Trier (meu diretor favorito), Django Unchained consegue relativizar a escravidão enquanto questão racial, enquanto dicotomia brancos x pretos. Diferente de Manderlay (não entregarei o ouro aqui, vejam o filme vocês), no entanto, Django mostra a escravidão como questão de poder não como questão racial. A "raça" se encontra na superfície do conflito, mas a violência está nas mãos de quem tem poder e não de quem tem a mão branca. Isso se evidencia muito claramente em dois personagens: o já citado Dr. King Schultz, um branco que abomina a escravidão e, claro, o brilhantemente interpretado Stephen (Samuel L. Jackson), negro que puxa as cordas em Candyland, maior plantation da região. Stephen, que se faz de pau mandado, de puxa-saco, de frágil, mas que sabe muito bem sua posição de comando lá dentro, mesmo que esteja nas entrelinhas das relações. Sua bengala jogada fora no fim do filme é o símbolo de sua fragilidade falsificada. Seu cinismo, sua brilhante construção enquanto personagem são um dos ápices do filme. Stephen é meu personagem favorito.

3) Dois tipos de violência

Vemos em Django duas forma de violência. A primeira é a já conhecida tarantinesca violência exagerada de filmes B, com suas explosões, jorros de sangue, etc... esta é presente em quase todos os seus filmes (à exceção apenas, talvez, de Jackie Brown, filme que foge bem do seu modus operandi. Talvez por ser baseado em um livro, enquanto os outros são roteiros originais). A outra é a violência que retrata a brutalidade da escravidão. Esta também está presente de duas formas distintas: a violência física enquanto tal, onde eu poderia citar como exemplo a cena da luta de mandingos ou a do lutador que tenta fugir e... bem... vocês lembram de seu destino. E há também a violência visual, a que é vista em olhares cansados e submissos dos escravos, em máscaras, mordaças e coleiras (que, aliás, eu nunca tinha ouvido falar antes desse filme, mas que dei uma pesquisada e sim, são reais). Ambas as formas de violência brutal trazem à tona a escravidão em sua forma mais visceral, convida o espectador à discussão acerca deste tema que, para muitos, está obsoleto e enterrado, mas que faz parte de nossa história e ainda está muito vivo enquanto formador da organização social tal como ela é hoje. Tarantino consegue provocar uma mistura de sentimentos, muitos odeiam, muitos adoram, e uma infinidade de coisas entre os extremos, e com isso, traz a inevitável e muito bem vinda discussão.


4) Dois fins, dois filmes

Em consideração ao final de Django, por mim ele poderia ter acabado com o tiroteio na casa grande. Django morre, enfim, como símbolo do fracasso da luta da emancipação negra naquele tempo. E ponto, é o fim. Vitória dos donos de escravo... pelo menos até a abolição efetiva. Seria um final poético, simbólico e daria um puta fechamento para o filme, tornaria tudo muito mais pesado, muito mais reflexivo... mas... não seria Tarantino! A extensão da história e as cenas finais são onde Tarantino demonstra sua vocação explosiva (perdoe o trocadilho) para transformar violência em entretenimento. O final adotado por Tarantino deixa o clima mais leve e é muito mais fácil sair do cinema, sem evitar, no entanto, a discussão posterior. Django se faz Siegfried e obtém sua vingança ao mesmo tempo. Nos gratificamos com a compensação da morte de Schultz e, bem, o "mocinho" ganhou, como em todo western. É uma boa sensação. A sequência de explosões, mortes, tiroteios e cínica execução dos donos da plantation é gratificante em sua maior extensão. Dá a conclusão que o público queria após a preparação que dura o filme todo e, mais precisamente, os momentos finais. Django é o vitorioso e assim termina sua história. Me dá a sensação de existirem dois filmes, o primeiro, reflexivo, profundo. O segundo, explosivo.
Essas duas faces do mesmo filme se complementam de forma incrível e dão origem ao que eu gosto de chamar de "O melhor filme do Tarantino".


Por essas razões, pela capacidade de explorar tantos aspectos em um mesmo filme e por tratar o tema "escravidão" de uma forma inédita, que eu considero este um filme maduro e um dos melhores do ano que passou pelos cinemas.

Trailer de Django Livre





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PS:  O Tarantino explode no filme! O quão sensacional é isso?