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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

From Dusk till Dawn.




- Um drink para todos, eu pago! – E dizendo isso, bateu com a mão ébria na mesa de madeira que dançava ao ritmo dos nervosos pontapés do outro.

- Só temos nós dois aqui, não faça papel de idiota. – Acendeu um cigarro amassado com as mãos, isolando-o da realidade até o fogo engolir sua ponta e sussurrou – Como se você fizesse o que eu digo. – tamborilou com os dedos aracnídeos sobre a mesa surrada na sinfonia do nervosismo que dormitava dentro daquele peito magro – Nunca vem ninguém aqui, me sinto vulnerável demais.

- Vulnerável? Se só temos nós e o José no bar, o que de mal poderia acontecer? Quer dizer, você deveria se sentir vulnerável num lugar cheio, quanto mais seres, maiores as chances de um deles chegar por trás e desenhar suas iniciais com estilete no teu peito. Agora, nós dois aqui e você vulnerável? Você tem medo de mim? Quer dizer, posso ir embora, só que não vou pagar a rodada de drinks que prometi.

- Não nos falamos faz anos, não? E você continua idiota.

 O silêncio censurou os atos do mais magro que engoliu, com dor, a fumaça destilada do cigarro. Não era bom começar atacando assim. Continuou tocando sua música milenar do nervosismo, as unhas pontiagudas raspando na madeira velha, transformando uma dança exótica numa obra de arte do entalhe.

- Vi um filme esses dias que me deixou com um nó na garganta. Me lembra esse lugar. – Disse a fumaça de seu cigarro. – Um drink no inferno, chamava. – E riu. Era só uma piada.

- Poxa, esse filme é fantástico! Quer dizer, você já parou pra pensar no que ele retrata? O poder genial do Tarantino e do Rodriguez ao mudarem uma história realista totalmente de foco sem perder a qualidade? No mínimo é de fazer pensar sobre como a mente humana é híbrida e sobre como a arte pode atingir diversas temáticas.

O magrelo sorriu, a boca estirando-se em uma rachadura estranha no meio da zona fria de seu rosto longínquo. Quer dizer que o babaca agora queria discutir cinema e arte pra passar o tempo e quebrar o gelo. Riu.


- Não eleve tanto esse filme, não me diga que você é mais um dos outros.

- Dos outros o quê?

- Dos outros lambedores de saco... Esse filme é o mais superestimado dos séculos, é uma brincadeira infantil com as pessoas que querem assistir um filme sério, ou ao menos entender o que vai acontecer.

- Não, não diz uma bobagem dessas...

- Eu consigo imaginar o Quentin e o Robert, fumados, cheirados e afogados em bebidas e suores dos milhões de pés que eles devem guardar no porão, rindo como dois adolescentes que descobrem pra o que serve seus pênis mal formados, com uma caneta na mão e o roteiro desse filme, exatamente naquela parte, naquela parte que eles entr...

- Não posso concordar com nada disso, quer dizer, se os dois estavam cheirados e fumados e bêbados, estavam durante o filme inteiro. Não há erro, é uma obra de arte sólida!

- Sólida? Assistir aquele filme é como ver um bebê tentando pegar um quadrado de plástico pra enfiar na forma de um circulo, é a maior obscenidade com minha capacidade mental.

- Você precisa parar de ser tão neurótico e paranoico. O mundo real não é essa crosta megalomaníaca sua, às vezes as coisas são feitas porque o são, e você não tem nada a ver com isso, e você sequer existe no universo de quem o fez.

- Claro que existo, eu sou o expectador!

- Você é o doente, você é o homem que anda pelo supermercado com uma maquina de por rótulos nas coisas e preços e pesos e medidas. Vai, bebe mais um pouco que talvez te afoga e te torna mais alegre.

- Não, agora eu quero saber, quero saber o que te faz ver tanta boa coisa num filme que brinca com seu expectador como se fossemos gatos mimados correndo atrás da bola de lã inexistente.

- Mas é isso que um bom filme faz, veja, te move como um marionetista move seu boneco, te joga numa verdade pra destruí-la completamente, te anarquiza, te atenaza, te atazana. Um bom filme faz sim de seu expectador um gato mimado e joga, na distancia que quiser, sua bola de lã, pra que a gente corra como um desesperado e descubra que não é nada daquilo.

- Eu gosto de filmes sinceros.

- Então você gosta de filmes de fantasia, porque não existe sinceridade no mundo, só mentiras polidas e mentiras bruscas, onde as segundas são as perceptíveis.

- Não comece a fazer uma leitura social a partir de um filme horrorosamente trash e pretensioso.

- Não acredito que exista pretensão no filme.

- Como não? Com George Clooney e Harvey Keitel? Como não pode existir pretensão? Ainda consigo imaginar ao menos o Harvey fazendo aquela cena vergonhosa com um peso na consciência enorme. Isso é, além de um insulto ao expectador, um insulto ao grande ator que ele é.


- Eu duvido muito, estavam todos se divertindo e tenho certeza. Você precisa para de ver as coisas com esse véu negro e pesado, essa lugubridade nojenta que sempre sai rastejando da sua boca e só me dá nojo, sempre foi assim! Talvez por isso não nos falamos nesses anos.

- Mas me diz, me diz se não é uma falta de respeito com ele? Aquela mulher dançando, as coisas acontecendo de repente, e o sentido e a coerência sendo derretidos lentamente sobre seus olhos e...

- E é exatamente aí onde está a magia, o poder do cinema, da imaginação doentia das duas pessoas. Eu acredito que não exista conclusão melhor pra esse filme, tenho toda certeza que nasceu desse jeito e não há o que mudar, porque tinha que ser assim, e se não fosse não chamaria tanta atenção!

- E se não fosse talvez fosse o melhor filme escrito pelo Tarantino. A qualidade dos personagens desenhados, o próprio Tarantino como um dos irmãos Gecko, roubando toda sua cena com aquele delírio sexual paranoico psicopata e infantil, tudo isso num olhar tímido, mas que ainda tremeluz como uma vela indecisa sobre sua existência. Sabe? Havia potêncial e quando o filme terminou daquela maneira passei dias triste, pois sabia que haviam matado uma obra prima que poderia continuar explosiva, violenta, sem aquela apelação. Tenho certeza que esse não é o final certo.


- Uma obra de arte é aberta pra todas conclusões, cara. E aberta também para toda modificação que quiser, aí está a beleza. Você pode simplesmente fingir que nada daquilo aconteceu e que é uma enorme metáfora pra uma briga de bar que deu errado. Quem sabe nem acontecera tudo aquilo, mas aqueles goles de cachaça adulterada que fizeram os personagens enxergarem daquele modo e...

- Você já está bêbado, tentando encontrar soluções fora do filme. É o que eu digo, se o filme não explica tudo o que se tem que explicar e não fecha os buracos abertos, não é um bom filme.

- Então quer dizer que pra você a experiência cinematográfica fica no cinema? Não existe extensão mental ou inter-relacionamentos com outras artes, com a sociedade, com a política? Eu posso dizer então que você é um dos piores expectadores do mundo e se o filme te insultou, é o mínimo que você merece. Digo, olha só a qualidade dos diálogos, das atuações, olha a liberdade criativa, a crítica social ao sensacionalismo, às diferenças sociais, à força policial, à prostituição...

- Você enxerga demais onde há de menos.

- E você é cego.

Já haviam, nesse ponto, quatro novas garrafas vazias sobre a mesa enquanto o tempo dava a volta em seu próprio eixo. A conversa fluíra, mas fluíra em desentendimentos e trovoadas mentais. A quinta garrafa chegava quando o mais magro resolveu continuar.

- Eu acho que estamos bêbados, mas eu sei que tenho a razão, um homem não pode acertar tanto quanto Tarantino.

- E Rodriguez.

- Não, não vai dizer isso, Rodriguez é um pela-saco imitador desesperado, ele faz as mesmas coisas em todos filmes, uma cópia de qualidade muito inferior do Quentin, cada filme dele é uma vergonha.

- Mas que menina mais dura com os cineastas! Não faça essa cara, foi uma brincadeira. Os dois tem a mesma formação, fazem a mesma escola de direção, é claro que um é melhor que o outro, mas o segundo não pode ser desrespeitado por isso. Aliás, esse filme tem uma ótima direção e é do Rodriguez.

- Com o Tarantino dando os palpites dele, tenho certeza.

- Não duvido, eles são amigos, não são? E a trilha sonora, impecável! E os diálogos!

- Tarantino, Tarantino e Tarantino. É o mínimo que ele pode fazer em seus filmes, é o mínimo que espero, e quando um filme com potencial vai ladeira abaixo dessa maneira, só me resta entrar de luto.

- Então você gostou!

- Gostei, gostei até a metade, até a ruptura enlouquecida e lisérgica, desnecessário, amigo, arrasou minha noite pensando qual seria o verdadeiro final...

 

- É aquele, quer final mais perfeito?

- Aquilo foi um desleixo, um delírio alcoolizado de uma mente cansada, onde já se viu mudar assim tão bruscamente.

- Mas é a surpresa que traz o prazer! E as piadas visuais são fantásticas! É uma grande brincadeira com o público, com os atores, não é pra ser levada a sério. De um lado temos um filme de suspense magnífico, profissional, à la Tarantino, de outro temos um filme trash também fantástico e engraçado, também à la Tarantino embriagado, são linguagens diferente, mas todos, em sua língua, falaram muito bem e atingiram pontos importantes de qualidade nesses dois estilos. Veja, além de brincadeira é uma porta a mais que se abre, hibridismo radical de gêneros e temas em um filme só, imagina o quanto nós podemos alcançar em uma hora e meia, duas horas, com tamanha capacidade de mudar de assunto e não deixar a bola cair!

- Pra mim deixou, a bola escapou da mão, derreteu como um sorvete superaquecido e muito cansado, assim como eu fiquei quando os créditos subiram. Não consegui engolir esse filme, é uma porcaria superestimada, conhecida só porque traz os nomes que traz.

- Quais?

- Tarantino, Keitel, Clooney.

- Rodriguez, Salma Heyek, Danny Trejo, Juliette Lewis, Tom Savini, que fez um fantástico e bem humorado trabalho de maquiagem e de atuação.

- Sex Machine?

- É!

- Grande merda, um paspalhão estilo os três patetas que não faz peso algum na trama! E a Salma ficou quatro minutos em tela, assim como o Danny, e essa tal Juliette tem uma sobrancelha muito estranha, que só me agredia, além de parecer que só sabe repetir o papel que fez em Cabo do Medo, do Scorsese.


- Não diga uma coisa dessas rapaz, ela é muito boa, apesar de ter os ossos do rosto um pouco estranhos.

- E um duplo queixo, quase igual você.

- Ah, magrelo, fala enquanto pode! Mas fora as brincadeiras, todos os atores estão muito bem em seus papéis, até nos mais estapafúrdios e caricatos, como o porteiro do Titty Twister, inesquecível.

- Isso eu realmente dou meu braço a torcer, mas só dou porque está na metade boa do filme.

- Não existem metades em um filme, um filme é o todo, você divide onde não existe divisão, é quase um crime isso, deveria ter vergonha.

- Não consigo engolir nada disso.

- E por que não?

- Porque não acredito! Foge demais da realidade.

- Isso assusta, não é?

O magrela patinava com os dedos na borda do copo. Entre os dois uma pilha de cervejas que refletia o mais gordo com uma aura espectral e bêbada, os lábios sorrindo de modo soturno, deformado pelo vidro embaçado da ebriedade. De repente o chão começou tremer e uma luz pousou sobre os olhos do mais gordo, que explodia como laser, estourando as garrafas entre os dois.

- Pois deveria acreditar!

O rosto deformou-se como destruído pelo mais forte ácido e da boca longas presas desceram em fileiras e fileiras de dentes, como um tubarão humano. Asas grosas brotaram das costas, com o doentio barulho de uma folha de papel sendo rasgada, a pele abrindo para a aberração passar, estourando o véu da normalidade com as unhas afiadíssimas. O ser que nascera era um misto de tubarão com morcego e alguma outra coisa demoníaca que gargalhava dentro daquela barriga grande que inflava, quase estourando, quase arrebentando as estrias que nasciam agressivas sobre a pele. A camisa jazia no chão, arrebentada pelas asas e pelo crescimento inesperado daquela barriga, e antes que o mais magro pudesse levantar, os diques de pele estouraram em sangue e líquidos pretos e mãos em carne viva puxaram seu ser para dentro daquele monstro milenar que disfarçara-se de seu amigo naquela noite.

- Um drink para todos, eu pago! - E dizendo isso, bateu com a mão ébria na mesa de madeira que dançava ao ritmo dos nervosos pontapés do outro dentro de sua barriga.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Oh, Django!

O Horácio me pediu para descrever em uma palavra Django Unchained (Django Livre, no Brasil), o novo filme de Quentin Tarantino; "Maduro", eu disse... tentarei explicar o porquê disso abaixo...

Uma nota preliminar antes... eu gosto de dizer que não se lê resenha ou mesmo a sinopse antes de ver um filme. Por mais que se evitem spoilers (revelações da trama), ver o filme completamente despido de informações (sobre o mesmo) ajuda a construir uma visão própria e formar suas próprias críticas, sem nunca esperar algo que possa ou te decepcionar ou estragar o elemento da surpresa, que conta muito para algumas obras... Dito isso, concluo que, caso você não tenha visto o filme ainda, suplico, imploro de joelhos que pare de ler esta suposta resenha aqui mesmo, porque, por mais que eu me segure nos spoilers, eles serão inevitáveis. Volte depois, caso ainda se interesse e vamos discutir, mas não leia agora! Mas, se você já viu o filme ou não liga para nada do que eu falei, sinta-se em casa...

Comecemos!

Música Tema de Django

     Por que, na minha opinião, Django é "maduro"? Para começar, dá uma dimensão profunda dos personagens, coisa que, por mais que sim, acontece nos filmes do Tarantino, depois de um tempo se torna razoavelmente raro... Em geral (e isso é uma opinião minha), os personagens são utilizados como instrumentos para o desenvolvimento da trama. Django, no entanto, muda muito durante o filme e nós temos o prazer de acompanhar este processo. Em outras palavras, a trama interage com o personagem, não o comanda. Django só faz as coisas de tal maneira porque existe uma história por trás que o tornou daquele jeito (e nós podemos acompanhar essa história). Isso é novidade! Em Pulp Fiction, por exemplo, onde diversas histórias ocorrem e se entrelaçam, a mudança mais significativa talvez seja a do Jules, personagem do Samuel L. Jackson (que aparece em vários filmes do Tarantino, aliás), mas mesmo assim, é um instante, uma coisa pá-pum, não tem o sentimento de que o personagem está mudando. Um evento, um "milagre" ocorre e ele é outro homem. Em Kill Bill, da mesma forma, a Noiva muda após o ensaio de casamento frustrado e etc... Em todo caso, o ponto é: existe um desenvolvimento (essa era a palavra!) do personagem, acompanhamos Django ir de um escravo assustado e inseguro até... bom... até o final do filme...
     Outra coisa são os laços criados com seu parceiro, Dr. King Schultz (divinamente interpretado por Christoph Waltz, aliás, que já atuou em Bastados Inglórios [Inglorious Basterds] também do Tarantino) estão lá, às vezes externalizados, como em uma das cenas finais, quando Django beija seu corpo (eu avisei que haveriam spoilers!) e outras, implícitos nas ações e atitudes dos personagens.

Cena abaixo citada, para quem quiser relembrar.

A sequência de cenas, aliás, que representa o inverno que passaram juntos, sob o som de "I Got a Name" é uma das partes mais bonitas e tocantes do filme. A fotografia do filme é incrível, seja exibindo as belezas do "Wild West" americano, seja experimentando com a iluminação (vocês sabem do que eu estou falando, a cena do tiroteio na casa grande é um bom exemplo), seja utilizando aquelas tomadas à la Sergio Leone.

Cena de "Três Homens em Conflito", filme de Sergio Leone e grande influência para Tarantino














     Falando nisso, que puta trilha sonora o Tarantino escolheu, de black music aos clássicos do western (Ennio Morricone!), passando por Johnny Cash... É realmente de espantar como tamanha diversidade se encaixou no filme com tamanha perfeição... Mas, fotografias, personagens e trilhas à parte, vou tocar nos pontos que eu pensava quando saí do cinema na primeira e na segunda vez em que vi o filme e que são os motivos de eu estar querendo fazer esta resenha caseira.

1)  Romance

Django é, apesar de tudo, uma história de amor. Como ressalta o Dr. Schultz, Django é Siegfried atrás de sua princesa Broomhilda. E claro, por causa disso, o final não poderia ser diferente. Mas chegaremos lá. Essa forma inédita de encarar tema tão polêmico - escravidão - nos dá a possibilidade de explorar Django não como um escravo (símbolo), mas como pessoa (indivíduo). Isso humaniza o escravo, o afasta das considerações ideológicas, das lutas e o torna acessível ao espectador, o torna igual, em sentidos de ser gente. A escravidão não é o foco principal nem é o objetivo do protagonista acabar com ela. Ela é circunstancial e, apesar de ser um dos pilares centrais da narrativa, está apenas em segundo plano. Isto permitiu algumas coisas ao diretor. Primeiro, que a brutalidade da escravidão fosse evidenciada. Segundo, que esta fosse relativizada (também chegaremos aos dois pontos ainda). E ambos sem nunca comprometer a coerência da busca do protagonista.


2) A relativização da escravidão

Como em Manderlay, filme do Lars von Trier (meu diretor favorito), Django Unchained consegue relativizar a escravidão enquanto questão racial, enquanto dicotomia brancos x pretos. Diferente de Manderlay (não entregarei o ouro aqui, vejam o filme vocês), no entanto, Django mostra a escravidão como questão de poder não como questão racial. A "raça" se encontra na superfície do conflito, mas a violência está nas mãos de quem tem poder e não de quem tem a mão branca. Isso se evidencia muito claramente em dois personagens: o já citado Dr. King Schultz, um branco que abomina a escravidão e, claro, o brilhantemente interpretado Stephen (Samuel L. Jackson), negro que puxa as cordas em Candyland, maior plantation da região. Stephen, que se faz de pau mandado, de puxa-saco, de frágil, mas que sabe muito bem sua posição de comando lá dentro, mesmo que esteja nas entrelinhas das relações. Sua bengala jogada fora no fim do filme é o símbolo de sua fragilidade falsificada. Seu cinismo, sua brilhante construção enquanto personagem são um dos ápices do filme. Stephen é meu personagem favorito.

3) Dois tipos de violência

Vemos em Django duas forma de violência. A primeira é a já conhecida tarantinesca violência exagerada de filmes B, com suas explosões, jorros de sangue, etc... esta é presente em quase todos os seus filmes (à exceção apenas, talvez, de Jackie Brown, filme que foge bem do seu modus operandi. Talvez por ser baseado em um livro, enquanto os outros são roteiros originais). A outra é a violência que retrata a brutalidade da escravidão. Esta também está presente de duas formas distintas: a violência física enquanto tal, onde eu poderia citar como exemplo a cena da luta de mandingos ou a do lutador que tenta fugir e... bem... vocês lembram de seu destino. E há também a violência visual, a que é vista em olhares cansados e submissos dos escravos, em máscaras, mordaças e coleiras (que, aliás, eu nunca tinha ouvido falar antes desse filme, mas que dei uma pesquisada e sim, são reais). Ambas as formas de violência brutal trazem à tona a escravidão em sua forma mais visceral, convida o espectador à discussão acerca deste tema que, para muitos, está obsoleto e enterrado, mas que faz parte de nossa história e ainda está muito vivo enquanto formador da organização social tal como ela é hoje. Tarantino consegue provocar uma mistura de sentimentos, muitos odeiam, muitos adoram, e uma infinidade de coisas entre os extremos, e com isso, traz a inevitável e muito bem vinda discussão.


4) Dois fins, dois filmes

Em consideração ao final de Django, por mim ele poderia ter acabado com o tiroteio na casa grande. Django morre, enfim, como símbolo do fracasso da luta da emancipação negra naquele tempo. E ponto, é o fim. Vitória dos donos de escravo... pelo menos até a abolição efetiva. Seria um final poético, simbólico e daria um puta fechamento para o filme, tornaria tudo muito mais pesado, muito mais reflexivo... mas... não seria Tarantino! A extensão da história e as cenas finais são onde Tarantino demonstra sua vocação explosiva (perdoe o trocadilho) para transformar violência em entretenimento. O final adotado por Tarantino deixa o clima mais leve e é muito mais fácil sair do cinema, sem evitar, no entanto, a discussão posterior. Django se faz Siegfried e obtém sua vingança ao mesmo tempo. Nos gratificamos com a compensação da morte de Schultz e, bem, o "mocinho" ganhou, como em todo western. É uma boa sensação. A sequência de explosões, mortes, tiroteios e cínica execução dos donos da plantation é gratificante em sua maior extensão. Dá a conclusão que o público queria após a preparação que dura o filme todo e, mais precisamente, os momentos finais. Django é o vitorioso e assim termina sua história. Me dá a sensação de existirem dois filmes, o primeiro, reflexivo, profundo. O segundo, explosivo.
Essas duas faces do mesmo filme se complementam de forma incrível e dão origem ao que eu gosto de chamar de "O melhor filme do Tarantino".


Por essas razões, pela capacidade de explorar tantos aspectos em um mesmo filme e por tratar o tema "escravidão" de uma forma inédita, que eu considero este um filme maduro e um dos melhores do ano que passou pelos cinemas.

Trailer de Django Livre





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PS:  O Tarantino explode no filme! O quão sensacional é isso?